Política
Christiana Nóvoa blog do autor
A moeda de um só lado
Escutei outro dia, não lembro onde, que Cuba é o “Jurassic Park do Comunismo”. Seguindo este raciocínio, Fidel Castro seria o fóssil ambulante de um Tiranossauro Rex. Não deixa de ser engraçado, e nem quero entrar aqui em longas e cansativas discussões sobre Cuba, mas acho muito estranho viver num planeta onde o sonho de igualdade e justiça social, representado outrora pelo ideário comunista, tornou-se uma inútil relíquia paleontológica.
A globalização parece ter transformado a economia numa moeda de um só lado, à imagem e semelhança do disco de Odin do conto de Borges, um objeto que não cabe na lógica mas desperta a cobiça do personagem, que não hesita em matar para roubá-lo, pois é dito que confere infinito poder a quem o tiver na palma da mão. Coisas de um lado só são muito perigosas, especialmente quando vão parar nas mãos erradas.
Desde a queda do Muro de Berlim, termos como socialismo, comunismo e outros, reunidos sob a alcunha genérica de “esquerda”, caíram em descrédito. Tornou-se antiquado lutar contra as leis implacáveis do mercado de capitais. A nova ordem mundial é destra.
Paradoxalmente, na América Latina, líderes oriundos do proletariado ou dos movimentos sociais chegam ao poder. É bem verdade que rendidos, em maior ou menor grau, ao mercado. Cometendo, muitas vezes, os mesmos crimes e abusos contra os quais pareciam lutar. O que só nos coloca a nós, esquerdistas-velhos-de-guerra, em posição cada vez mais incômoda. Afinal, a grande vocação da esquerda é ser gauche. Gostamos de fazer greve, piquete, panelaço, revolução. Temos muito mais talento para denunciar os desmandos do poder estabelecido do que para gerenciar a máquina estatal. Na teoria somos lindos mas, na prática, ainda deixamos a desejar. É forçoso admitir que a esquerda burocratizada é lenta, pesada e ineficiente; a esquerda corrupta é simplesmente aviltante, e não vamos nem falar em samba, pizza e outros PeTiscos indigestos...
No entanto, um mundo sem esquerda é um corpo mutilado, uma aberração. Fica faltando o princípio humanitário, a solidariedade, o projeto de um sistema mais justo e melhor para todos. Sem o lado esquerdo, ficamos sem coração, desalmados.
Foi por isso que, quando procurávamos um nome para este blog, sugeri Bombordo. Que, em linguagem náutica, significa o “lado bom”, o bordo do coração, ou seja: a esquerda. Mas somente para quem estiver posicionado no sentido popa-proa da embarcação, olhando para a frente, na direção do progresso.
Então, quando me perguntam, hoje em dia, qual minha orientação política, eu, que não sou jurássica nem nada, não caio nessa esparrela de direita/esquerda. Olho para o futuro, levo a mão ao peito e respondo de pronto: sou do Bombordo!
28/mar/06 |
01:27 |
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