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março 31, 2006

Apocalípticos, integrados e... hackers

Umberto Eco deve, certamente, rever hoje seus conceitos de *apocalípticos e integrados*. Diante das possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias, resumir as gentes que fazem e consomem informação e comunicação nestas duas classificações ficou completamente sem sentido.

Não existem mais as figuras do emissor e do receptor. Mesclaram-se, e mesclaram junto a própria mensagem. Somos, hoje, *a* mensagem, cada um um potencial gerador / difusor de informações e conhecimento –não somos, nem de longe, apocalípticos ou integrados.

Eco forjou estes conceitos, naturalmente, sob ou a partir de uma cultura típica do século XX: a industrialização, com sua produção massificada e absolutamente mercantilizada, em que toda e qualquer pessoa não passa de mera consumidora --quando muito, produtora, mas sem acesso ao domínio da produção: uma simples ferramenta que podia ser sumariamente descartada se apresentasse algum defeito ou não gerasse os resultados pretendidos.

Resgata-se, agora, outra forma de produção não mediada unicamente pelo *valor de mercado* ou pela *mais valia*. O lucro, em si, deixou de ser o leitmotiv das novas comunidades, que ganharam uma característica ainda mal interpretada e conceituada: a des-hierarquização dos processos, a horizontalidade das *organizações*, a ausência de líderes, a emergência de projetos totalmente colaborativos –baseada antes na reputação de seus integrantes do que na *valoração* mercantilista de cada um. (Parênteses: o Bombordo pode ilustrar perfeitamente este artigo: de minha parte, conheço pessoalmente duas ou três pessoas que integram o projeto –e, pra completar, rascunho este texto em guardanapos de papel num boteco.)

Toda essa anarquia, no sentido mais puro do termo, replica-se e se esporifica progressivamente –ninguém ousa apostar aonde chegará.

Mas o fato é que temos a honra de participarmos de um momento único na história: desprezamos os processos que *notabilizaram* o século XX (Charles *Carlitos* Chaplin, acredito, adoraria participar dessa revolução), reavivamos o aspecto lúdico e prazeiroso da construção coletiva do conhecimento, redescobrimos o poder de vez e voz de cada anônimo, de cada ser pensante que deseje se expressar, resgatamos, enfim e contraditoriamente, com o uso das novas tecnologias, a *tecnologia* básica que sempre moveu o mundo: nossa humanidade, e nossa potencialidade de nos expressarmos, nos comunicarmos, nos relacionarmos, nos amarmos...

Esse espírito hacker, muito antes de meros geeks/nerds enfurnados em suas máquinas, inclui um potencial fantástico de transformação social. O poder de desalienar-se e agir contra a elitização do conhecimento, contra o monopólio e a capitalização da informação, está ao alcance de todos. Projetos emergentes pipocam aqui e ali, totalmente descentralizados e colaborativos, na mais pura expressão open source –em alguns casos, os próprios protagonistas acabam por se surpreender com a repercussão e o crescimento do projeto, que ganha vida própria.

Seriam inúmeros os casos, mas fiquemos com um, pela proximidade: a MetaReciclagem, nascida numa lista de discussão entre meia-dúzia de românticos pensadores, engenheiros poetas, hackers de carteirinha e simples abnegados, tornou-se referência e ganhou a simpatia e a adesão de inúmeros anônimos, ignorando fronteiras.

Toda essa subversão anárquica tem um fundamento essecial: a colaboração entre os participantes, o espírito fraternal e coletivo. Para completar, todo o processo é permeado por um ludicismo que só faz crescer o engajamento de cada um com todos: o prazer do compartilhamento do conhecimento. Ou, como diria Guimarães Rosa, nas palavras de Riobaldo Tatarana, *vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada*.

março 29, 2006

Quem atira a primeira pedra?

QUEM ATIRA A PRIMEIRA PEDRA?

Não é que pegaram Al Capone por sonegação de imposto?
Mas quem leu Scarface ou viu O Poderoso Chefão (partes I, II e III), sabe que a Máfia tinha aliados na Polícia e no Congresso. E, eventualmente, desafiava o Vaticano.

A queda do Ministro é um dejá vu: chegou o ano de eleições e as antigas alianças se romperam. Num casamento programado para durar quatro anos, o terceiro ano é crucial. Jogam-se suspeitas no ar e, invocando a falta de virtude, os padrinhos já se preparam para abençoar novas uniões.

Palocci fazia tudo direitinho. Cumpria o grande acordo e era tão honesto com o pacto que não podia supor que puxariam seu tapete. Sorte de principiante: devia ter ido mais ao cinema. Ou ter lido Maquiavel.

Lula imaginou que Palocci era sua garantia de governabilidade e reeleição. Que ingênuo. Nada que cheire à esquerda é tolerado pela direita. Quem tinha um mínimo de visão política profetizou, quando Lula se elegeu: Se ganhou, fez acordos. Ainda que os cumpra, vai se dar mal.

Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Sempre aparece um caseiro, um motorista, um irmão caçula, uma Monica Lewinski para embananar um processo de reeleição. Jânio falava em “forças terríveis” no início do governo. Imaginem no final.

O rompimento do sigilo bancário do caseiro, que tanta comoção causou, não é nada frente ao rompimento do sigilo de vida em épocas de eleição. Vícios, abortos, supositórios, casas suspeitas, vale tudo para desmoralizar o antigo aliado.

O editorial dO Globo, de dias atrás, é didático. DESORDEM JURÍDICA: A quebra ilegal do sigilo do caseiro fulano é repulsiva; de gravidade indiscutível; revela o risco que corre a sociedade quando o Estado passa a atender a interesses de grupos políticos; às 20h58m21 de quinta-feira a ordem jurídica do país foi rompida etc.,etc. e vai por aí a fora dando ao fato um peso que ele realmente não tem.

Para o cidadão comum, a garantia constitucional do sigilo bancário importa pouco. Mais importante é a garantia – também constitucional – de um salário mínimo que supra as necessidades básicas de sobrevivência digna, educação, saúde e (pasmem!) lazer para o assalariado e sua prole.
Pouco me importo com a quebra do meu sigilo bancário. Mesmo porque jamais encontrei no meu extrato depósitos de 38 mil. Nem vindos do meu saudoso paizinho, que Deus o tenha.

ACM neto também falou – sobre a violência inaudita que sofreu o caseiro – em vergonha que atravessa gerações. Logo ele, que é a terceira geração de uma vergonha.

Podemos esperar chumbo grosso, neste ano de eleições. Se não houver deslizes na vida pública, procura-se na privada. O diabo é que o candidato-presidente parece não dar margem a ataques diretos; fora, é claro, sua rudeza intelectual: que diferença entre a grosseria de Lula em Paris admitindo o Caixa 2 e a elegância de FH no Manhatan Connection também admitindo o Caixa 2...

Não era sobre isto que queria falar. Já tinha quase pronto um post sobre cultura das esquerdas, que ficará para o mês que vem. Mas a queda do Palocci nos remete a uma questão bíblica: nos dias atuais, atiram a primeira pedra aqueles que mais pecam.


março 28, 2006

A moeda de um só lado

dinocoin.jpgEscutei outro dia, não lembro onde, que Cuba é o “Jurassic Park do Comunismo”. Seguindo este raciocínio, Fidel Castro seria o fóssil ambulante de um Tiranossauro Rex. Não deixa de ser engraçado, e nem quero entrar aqui em longas e cansativas discussões sobre Cuba, mas acho muito estranho viver num planeta onde o sonho de igualdade e justiça social, representado outrora pelo ideário comunista, tornou-se uma inútil relíquia paleontológica.

A globalização parece ter transformado a economia numa moeda de um só lado, à imagem e semelhança do disco de Odin do conto de Borges, um objeto que não cabe na lógica mas desperta a cobiça do personagem, que não hesita em matar para roubá-lo, pois é dito que confere infinito poder a quem o tiver na palma da mão. Coisas de um lado só são muito perigosas, especialmente quando vão parar nas mãos erradas.

Desde a queda do Muro de Berlim, termos como socialismo, comunismo e outros, reunidos sob a alcunha genérica de “esquerda”, caíram em descrédito. Tornou-se antiquado lutar contra as leis implacáveis do mercado de capitais. A nova ordem mundial é destra.

Paradoxalmente, na América Latina, líderes oriundos do proletariado ou dos movimentos sociais chegam ao poder. É bem verdade que rendidos, em maior ou menor grau, ao mercado. Cometendo, muitas vezes, os mesmos crimes e abusos contra os quais pareciam lutar. O que só nos coloca a nós, esquerdistas-velhos-de-guerra, em posição cada vez mais incômoda. Afinal, a grande vocação da esquerda é ser gauche. Gostamos de fazer greve, piquete, panelaço, revolução. Temos muito mais talento para denunciar os desmandos do poder estabelecido do que para gerenciar a máquina estatal. Na teoria somos lindos mas, na prática, ainda deixamos a desejar. É forçoso admitir que a esquerda burocratizada é lenta, pesada e ineficiente; a esquerda corrupta é simplesmente aviltante, e não vamos nem falar em samba, pizza e outros PeTiscos indigestos...

No entanto, um mundo sem esquerda é um corpo mutilado, uma aberração. Fica faltando o princípio humanitário, a solidariedade, o projeto de um sistema mais justo e melhor para todos. Sem o lado esquerdo, ficamos sem coração, desalmados.

Foi por isso que, quando procurávamos um nome para este blog, sugeri Bombordo. Que, em linguagem náutica, significa o “lado bom”, o bordo do coração, ou seja: a esquerda. Mas somente para quem estiver posicionado no sentido popa-proa da embarcação, olhando para a frente, na direção do progresso.

Então, quando me perguntam, hoje em dia, qual minha orientação política, eu, que não sou jurássica nem nada, não caio nessa esparrela de direita/esquerda. Olho para o futuro, levo a mão ao peito e respondo de pronto: sou do Bombordo!


março 27, 2006

Crise de confiança

Pode ser de grande ingenuidade admitir isso, mas eu nunca esperava que o PT fosse roubar quando chegasse ao poder. Vamos usar as palavras corretas, sem tergiversação: até onde se sabe, o PT roubou 55 milhões de reais de dinheiro público para financiar suas campanhas e a de seus aliados.

Ao que parece, esse dinheiro foi um adiantamento que Marcos Valério conseguiu, dentro de uma comissão maior de 200 milhões, para fazer lobby pela suspensão da intervenção sobre o Banco Econômico. O negócio não foi adiante pela resistência do presidente do Banco Central.

É óbvio que a cúpula petista sabia que era dinheiro sujo. Não se trata de um mero caixa 2.

Malvados

Um dia desses conversei com a amiga de uma amiga minha, que foi tesoureira em campanhas petistas. Ela contou o caso de um pequeno empresário que doou 7 mil reais para determinada campanha, mas não aceitou qualquer recibo e exigiu que seu nome não constasse na relação de doadores. Segundo essa moça -- e eu acredito nela --, o empresário era apenas alguém que sabia que o PT fazia licitações limpas e queria contribuir para retirar os mesmos velhos corruptos de sempre do poder.

A moça me confessou um caso de caixa 2 para justificar o que a cúpula nacional petista fazia. Mas não é a mesma coisa. Sabemos que o caixa 2 é disseminado, e que, pela lógica atual, é impossível fazer uma campanha à altura das demais sem isso. Os empresários não querem aparecer nas listas de doações. Mas é algo bem diferente o que aconteceu no caso do valerioduto.

A desculpa dos petistas é a mais débil possível. Sim, sabemos que todos os demais fazem isso. Sabemos que só um dos escândalos do PFL da Bahia já configura o dobro do valerioduto petista (110 milhões, segundo um corajoso ministro do tribunal de contas). Mas foi exatamente por isso que eu votei neles, pombas! Para acabar com isso, e não para perpetuar a prática.

Eu tive uma criação católica, e sinto muito, pra mim pegar em dinheiro sujo é crime hediondo. Podem dizer que é moral burguesa, que é udenismo. Eu tenho um irmão que já foi chefe de licitações de uma repartição importante e recebeu uma proposta de propina numa sala onde estava só ele e o proponente. Sua reação não foi apenas recusar, mas colocar o cara pra fora aos gritos. Se isso acontecesse comigo, eu acho que iria chorar depois, de tão humilhado que me sentiria; "será que eu dei a entender que aceitaria algo do tipo"?

Quando comecei minha militância de esquerda, no movimento estudantil, sabíamos, é claro, de deslizes éticos de gente que dizia lutar por um mundo melhor. Gente que ainda não tinha barba direito mas já estava desviando dinheiro de entidades estudantis para seu partido político. Mas era sempre eles, nunca "nós", os "puros". A minha ingenuidade era constrangedora.

Eu acreditava no comunismo da boca pra fora, pois se acreditasse de verdade, saberia que, para a moral revolucionária, vale tudo pra chegar ao poder e implantar o céu na terra.

Talvez fosse esse arremedo de moral revolucionária que fizesse os petistas tão arrogantes, tão auto-suficientes. Afinal, eles se achavam a última coca-cola do deserto, e queriam que acreditássemos nisso sem pestanejar. Naquela palhaçada da viagem da ministra Benedita da Silva, Lula, em vez de explicar a questão, ralhou com quem ousou duvidar da honestidade dela, falando de sua "história de vida". Parecia que pessoas com história de vida não deviam explicações a quem lhes paga o salário.

Até hoje vejo uma defesa sui generis: "José Dirceu não pegou dinheiro pra ele, foi para o partido". Grandes coisas! Se a esquerda entra na lógica de vencer eleições porque tem mais dinheiro (e não precisou disso para crescer nesses anos todos), essa lógica engole a esquerda, que se torna igualzinha àquilo que diz combater. Pode até ser que ter mais dinheiro decida eleições nos grotões, mas, no frigir dos ovos, a vitória se faz no combate das idéias. E nestas o PT perdeu quase toda a sua credibilidade.

Aí vão falar do "carnaval da mídia". Aiaiai. OK, a revista Veja é um exemplo de imprensa conservadora plantando notícias falsas contra o governo. Mas o resto da imprensa, quase toda, apenas seguiu sôfrega a avalanche de fatos do escândalo. Não foi, evidentemente, o maior esquema de corrupção da história do Brasil, mas foi o mais documentado. Sejam sinceros: se vocês fossem jornalistas, não dariam a mesma e ampla cobertura? Ficariam se policiando, pensando "a quem interessava" essa divulgação?

Tenho a certeza absoluta que se houvesse uma testemunha de dentro dos esquemas do PSDB, ela seria ouvida com a mesma atenção que Pedro Collor e Roberto Jefferson. É uma falha da nossa democracia que seja necessário um delator para apurar um escândalo, mas não há como dizer que a imprensa foi anti-petista. Ela apenas não brigou com as notícias -- que borbulhavam do chão.

Bem, eu não vou ficar rememorando fatos que todos conhecem -- e não sou como a filósofa Marilena Chauí, que com todos os seus doutorados não conseguiu decodificar os fatos entre o que a imprensa publicou. Só quero dizer que me passou pela cabeça -- como está passando pela cabeça de milhões hoje -- nunca mais votar em quem quer que fosse, e mandar todo mundo se ferrar.

Mas a racionalidade me pôs de volta ao mundo real, e vi que, apesar de tudo, nos escalões intermediários do governo tem muita gente que trabalha duro pra fazer um país melhor. Aqui no Pará tínhamos um problema eterno de inadimplência de imóveis da Caixa Econômica, invasões a conjuntos construídos pela metade, brigas nas ações de desocupação... e agora temos os moradores quitando seus imóveis por preços baixos, quase eliminando a inadimplência e principalmente o transtorno de cobrar dívidas impagáveis. Meu outro irmão trabalha no Banco do Brasil e informa que o Pronaf, que antes tinha verbas limitadas, hoje não consegue gastar tudo o que tem...

O que me impede de aceitar a volta do PSDB é perceber seu óbvio elitismo. Mesmo José Serra, considerado à esquerda, é capaz de tomar medidas como colocar propagandas em uniformes escolares, e chapisco nas calçadas para impedir mendigos de dormirem nelas. Seu secretário de habitação refere-se aos moradores que receberam apartamentos no centro da cidade como se fossem gentalha, achando que só a classe média é que serve para morar no centro. Ensinar às crianças desde cedo que todo espaço está à venda, mesmo o de seus uniformes, é não ter uma visão efetivamente pública de seu trabalho.

Nem vou falar de Alckmin, muito mais à direita que Serra. O PSDB, no fundo, é uma cria do velho PSD, um aglomerado de gente que considera o Estado um meio de beneficiar negócios privados. Não têm visão social, não promovem uma interlocução legítima com a sociedade civil, e no governo Fernando Henrique se consideravam uma assembléia de sábios, únicos detentores da verdade.

Por tudo isso, e sob pena de ser chamado de contraditório, vou tapar o nariz e votar de novo em Lula, alguém de quem não sei se compraria um carro usado. Vou virar outro entre milhões de brasileiros, que escolhem o menos pior. Até aqui cheguei, tendo esperança. Agora sou apenas um observador crítico. Não sei se o conforto dessa posição compensa o vazio que sinto.

março 23, 2006

Paulo Maluf é candidato a Federal

Em 1969 Maluf foi indicado para prefeito de São Paulo pelo presidente Costa e Silva, militar, marechal. Em 70, com dinheiro público, deu 25 automóveis para jogadores e comissão técnica que venceram a Copa - em 86 foi condenado pela Justiça a devolver o dinheiro aos cofres públicos.

Em 71 construiu o Minhocão, ligando a própria casa à empresa dele, a Eucatex. Em 77 defendeu o AI-5. Em 78 lançou o programa Pró-Família que pretendia, tal Hitler, esterilizar mulheres pobres (o programa tinha apoio de um grupo japonês de bases racistas). Como deputado federal, eleito em 82, compareceu em 3 das 654 sessões. Foi condenado, depois a devolver à Câmara os jetons. Em 84 comandou a campanha contra as Diretas Já, sendo o candidato dos militares às eleições indiretas de mudança do poder. Se fodeu!

Com a memória fresca, o povo não o elegeu para o Governo de SP em 86 e nem para a prefeitura de São Paulo em 88.

Durante nova campanha, em 89, financiado pelo grupo de PC Farias, foi derrotado novamente depois de dizer a célebre frase: "se está com desejo sexual: estupra, mas não mata!". Em 90 gastou 50 milhões de dólares numa
nova campanha (deus sabe de onde saiu esse dinheiro que dava para acabar com a fome no país!) e perdeu de novo. Achamos todos que seria o fim do doutor Paulo. Mas não.

Novamente governador - num desarranjo popular histórico - destruiu os sistemas de saúde e educação do Estado com arrochos salariais e abandono das escolas, creches e hospitais. Gastou uma fortuna em jantares, presentes e gratificações que são motivos, até hoje, para um monte de gente babar ovo em cima dele - principalmente donos de meios de comunicação.

Chegado a obras visíveis, fez a Rodovia dos Trabalhadores a um custo 3 vezes maior do que a Rodovia dos Bandeirantes. Na ocasião, por conta de uma greve de professores, ordenou que a PM batesse nos educadores - o que gerou uma crise na educação do Estado. Disse outra pérola: "As professoras não são mal remuneradas, são é mal casadas".

No assunto petróleo basta dizer que gastou 400 milhões de dólares com a Paulipetro sem aprovação ou fiscalização do Tribunal de Contas - não tendo prestado contas do dinheiro. Esse dinheiro foi 8 vezes maior que o orçamento para a saúde durante o governo Maluf. Nenhuma gota de petróleo foi encontrada.

Apoiou Collor para Presidente. Fez Pitta prefeito de São Paulo e disse que se o cara fosse um mau prefeito ninguém mais precisava votar nele, Maluf.

gato


Recentemente esteve preso em companhia do filho por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha, corrupção e ameaça de morte. Ele não ameaçou ninguém, só o filho. O doleiro Birigüi diz ter movimentado mais de 160 milhões de dólares dos Maluf em paraísos fiscais. Paulo não só nega o dinheiro como seus advogados pedem a anulação do processo. Em entrevistas, Maluf costuma dizer com aquela cara-de-pau rotineira: "Seu eu tiver algum dinheiro no exterior eu deixo para você!" - e aponta para o repórter. É seu método para ganhar a simpatia do interlocutor. Ele prometeu isso a tantos que se o dinheiro realmente for encontrado não vai dar pra dividir.

Estive com Maluf hoje, equipes da TV que coordeno aqui em Limeira (SP) entrevistaram o ex-governador e a grande novidade é que Maluf vai mesmo sair candidato a Deputado Federal. O seu partido, o PP, vai liberar os candidatos para apoiarem quem quiserem para a presidência da República. Bato um papo com um assessor direto de Maluf que diz que o candidato está inclinado a apoiar Lula (!) mas os estrategistas sugerem que apóie Alckmin (!!) - eu só colocaria três exclamações aqui (!!!) se ele apoiasse o Quércia.

Nas entrevistas ele falou o mais do mesmo, "posso contribuir para o País, usando minha experiência na Câmara Federal". Nojo. Sobre sua prisão, disse que foi política e que os grandes nomes da Nação já foram presos, citou meia dúzia de nomes, como JK, Jânio e... Lula.

- Maluf, o senhor de novo na política? As coisas não mudam?
- Eles não vão conseguir me tirar da política, que é minha vocação... As coisas vão melhorar a partir de agora!

O Que Você Faria?

A empresa onde Paulo trabalhava ganhara uma licitação para reformar e ampliar uma escola da periferia de Porto Alegre. Era um trabalho de que ele, um homem de esquerda preocupado com as questões sociais, gostava especialmente: construir escolas e casas em comunidades carentes. Houve uma reunião com a diretora. Ela parecia exultante por haver finalmente obtido a verba para a construção de mais cinco salas e por ter diante de si alguém preocupado em realizar um bom trabalho. Era uma valorização para a escola e para a atividade de todos sob sua gestão. Acompanhado por ela, Paulo conheceu toda a escola e acertou os horários em que os operários poderiam fazer barulho, pondo abaixo algumas paredes e preparando as fundações para a ampliação. Era uma obra rotineira na vida daquele empregado e ele estava satisfeito em realizar algo associado à educação de filhos de famílias pobres.

Após o encontro, Paulo saiu da escola e procurou uma ferragem nas redondezas. A experiência ensinara-o a fazer um acordo com algum dos pequenos comerciantes próximos. Afinal, sempre faltava alguma coisa miúda. Se a empresa normalmente mandava entregar o cimento e as tintas, esquecia-se de enviar pregos, pincéis e outros materiais menos onerosos. Ele encontrou o que precisava a uns cem metros da escola. Pediu para falar com o proprietário do estabelecimento e, quando este veio lá do fundo, conversaram no balcão de atendimento.

O acordo foi fechado rapidamente e o comeciante apresentou-lhe o filho, que ficava a maior parte do tempo atendendo o público. O chefe de obra poderia retirar material até determinado valor, assinaria um recibo e Paulo, ao final de cada semana, pagaria a ferragem. O nome do proprietário era Marcos, "Seu" Marcos, e o do filho, Marquinhos. Todos os conheciam assim no bairro. A conversa não demorou cinco minutos. Quando Paulo estava despedindo-se deles, dois jovens, um negro e um branco, com armas na mão, adentraram aos gritos no estabelecimento, exigindo o dinheiro que o comerciante tinha em caixa. "Toda a grana e todo mundo parado!", gritavam eles. Um deles ficou na porta e o outro aproximou-se do dono da loja, quase ao lado de Paulo. Seu Marcos começou a bravejar reclamando daqueles filhos da puta que volta e meia entravam ali. Abriu a gaveta de dinheiro e passou-lhes duas notas de cinqüenta reais, dizendo que estava bom assim. O garoto aproximou seu rosto do comeciante e berrou com ainda maior veemência:

- Eu quero toda a grana que tem nesta merda! Não faz falcatrua com a gente, senão eu te furo, véio!

O comerciante, vendo a cara do garoto negro bem perto da sua, empurrou sua cabeça com a mão direita, com ar agastado e até calmo, como se estivesse acostumado com aquilo. Neste momento, o garoto deu-lhe o tiro, pegou rapidamente mais alguns reais na gaveta do caixa e sumiu com seu companheiro. Paulo levou o ferido em seu carro para o pronto-socorro. Marcos pai e Marcos filho foram no banco de trás; o silêncio deles, em oposição ao som da buzina de Paulo pedindo passagem e furando sinais, demonstrava que seria tudo inútil. Quando Paulo procurou-os no espelho interno do carro, viu Marquinhos com lágrimas nos olhos, olhando pela janela. A bala tinha entrado de seu pai, sufocando-o. Após ver-se confirmada a morte no pronto-socorro, Paulo foi para casa. Horas depois, indignado, deprimido e com o carro todo ensangüentado, Paulo foi depor na polícia.

Enquanto Paulo depunha, foi interrompido pelo policial.

- Acho melhor o Sr. não dizer que pode reconhecer o assassino. Aliás, acho melhor o Sr. ficar fora dessa.
- Por quê?
- Veja bem, os familiares da vítima já vieram aqui. Disseram que não viram quem matou o velho.
- O filho dele esteve aqui?
- Sim.
- Marcos?
- Sim, ele mesmo, com a mãe.
- Mas como? O filho estava junto! Eles viu!
- Meu amigo, eles vivem daquele comércio; os matadores moram no bairro. Se denunciam, os próximos serão eles, entende? O mesmo pode acontecer com o Sr., que vai trabalhar na escola ali perto. É uma temeridade se meter numa confusão dessas. Melhor não se apresentar como testemunha. É perigoso. A escolha é sua.
- E o trabalho de vocês?
- Nós mal temos gasolina para buscar os presuntos, que dirá para fazer investigações.

Paulo refletiu sobre o que o policial lhe dissera, pensou em sua família e perguntou:

- O que devo fazer então?
- O senhor não é o Batman e eu não sou da polícia de Los Angeles.
- ...
- Se fosse o senhor, eu me retiraria agora enquanto eu rasgo esta folha. É para a sua própria segurança.

Dias depois, voltou à escola. No tecido cinza do banco de trás de seu carro ainda estavam as marcas deixadas por uma lavagem mal feita. O resto parecia limpo. Muito limpo, disse Paulo para si mesmo. À saída, Paulo hesitou entre voltar à ferragem para renovar o acordo, procurar outra ou deixar o assunto para depois quando ouviu alguém lhe chamar.

- E daí, chefia? - Paulo tremeu ao reconhecer o sotaque do assassino.

Mas era outro garoto, muito menor.

- Não sai um ginásio de esportes aí para nós?

Sorriu para o menino e respondeu.

- E a grana?
- O governo tá sempre inaugurando algum ginásio poliesportivo nos outros bairro...
- Bom, isso realmente não é comigo.
- E o que é contigo?
- Eu não sei o que é comigo.

março 21, 2006

TV Digital: Uma Proposta Liberal ?

Há coisa de algumas semanas, a assim chamada “Nova Direita” ganhou as páginas de um grande jornal de expressão nacional. Não nos interessa entrar aqui no mérito da reportagem em si _ embora o epíteto “Nova” não seja realmente o mais adequado para descrever aquele amálgama de velhas novidades, misturando elementos diversos e às vezes díspares como a direita conservadora de inspiração religiosa, o liberalismo redivivo e o golpismo político de pedigree udenista. Nos interessa mais analisar alguns aspectos singulares do pensamento desta nova direita. Neste artigo, nos ocuparemos de um estudo de caso sobre a versão chã do pensamento liberal, infelizmente muito popular entre os novos direitistas, e os equívocos a que ele pode levar o leitor incauto ou insuficientemente informado; futuramente, abordaremos as outras vertentes da quimera “neodireitista”.

No último exemplar da Primeira Leitura, veículo cripto-PSDBista que desde a saída dos irmãos Mendonça deu uma guinada para a direita pelas mãos de Reinaldo Azevedo, há uma matéria sobre o Instituto Millenium, que se propõe a ser um think tank liberal dos trópicos. A iniciativa reúne articulistas diversos, como Paulo Guedes, Gustavo Franco, Carlos Alberto Sardenberg, entre outros. A matéria chamou minha atenção e decidi dar uma olhada mais atenta na produção intelectual do instituto.

Dois artigos me impressionaram pela sua inconsistência teórica e factual: os textos de Paulo C. Barreto e Rodrigo Constantino sobre a TV Digital e sua implantação no Brasil. Os dois textos oferecem a oportunidade de expormos, como um verdadeiro estudo de caso, o tipo de desinformação que uma versão chã da vulgata liberal termina por divulgar e sacramentar como verdade.

O artigo de Paulo C. Barreto, intitulado “TV digital: o discurso que ainda não houve”, é uma utopia liberal que transcreve um discurso imaginado do Presidente Lula sobre a definição do padrão da TV Digital _ debate que se desenvolve intensamente nos bastidores do governo e envolve interesses poderosos.

No discurso imaginado, que supostamente põe na boca do mandatário eneadáctilo as palavras que Paulo C. Barreto provavelmente gostaria de proferir fosse ele o Presidente da República, estão plasmadas várias das idéias mais em voga na vulgata liberal. A idéia central do referido artigo está plasmada na seguinte passagem, onde o Presidente profere a seguinte sentença imaginada:

"– Assim sendo, a Presidência da República tomou a única medida capaz de realizar tudo isso ao mesmo tempo: não oficializar nenhum sistema existente ou vindouro, deixando a escolha única e exclusivamente às partes envolvidas. "

Sem maiores considerações, por enquanto, sobre quem são mesmo "as partes envolvidas", a utopia prossegue:

"– Cada uma das emissoras, se quiser e quando quiser, poderá adotar o sistema de TV digital que bem entender, respeitada a utilização regulamentar do espectro eletromagnético. Por sua vez, a indústria de aparelhos de TV e de caixas conversoras fornecerá aparelhos compatíveis com o sinal das emissoras. Não me venham falar, como o falecido Brizola, em “perdas internacionais” com o pagamento de royalties por uma ou outra tecnologia: é o dinheiro de cada um que se dispõe a pagar, não o tesouro de um coletivo abstrato. Em todo caso, quem estiver insatisfeito com os custos dos sistemas que existem pode ficar à vontade para criar o seu próprio, isoladamente ou em consórcio, e cobrar preço de banana pelo licenciamento. Só não esperem que o chefe da nação sancione a concessão de qualquer tipo de privilégio por causa disso."

A essa altura, mesmo o mais desavisado leitor poderá estar imaginando o tipo de balbúrdia que adviria de uma política como essa. Mas o wishful thinking do autor pensa em tudo, e termina por mencionar, finalmente, a parte do negócio que estava faltando, o consumidor:

"– É claro que, depois de algum tempo, não haverá espaço no mercado para, no mínimo, quatro sistemas concorrentes. Mas o acerto ou o erro da escolha de produtores e consumidores não é problema do Palácio do Planalto, que tem mais o que fazer. Cada um faz o que acha certo para si dentro das circunstâncias concretas. Não me venham dizer que o sistema X é tecnicamente superior ao sistema Y. O Betamax também era tecnicamente superior ao VHS, o Mac é muito melhor que o PC equivalente, e por aí vai. Você não sabe se a escolha e certa? Seja adulto. Não espere que os outros decidam por você por decreto. "

Deixarei meus comentários sobre este texto para daqui a pouco. Examinemos o segundo texto constante do site do Instituto Millenium sobre a questão da TV Digital, da autoria de Rodrigo Constantino e intitulado "Padrão digital ou estatal ?".

Diferentemente do texto do Paulo C. Barreto, Rodrigo Constantino não assume um tom de paródia, o que diminui consideravelmente o seu interesse, já que nele se vislumbra apenas a ideologia, sem nenhuma arte. É claro que o argumento é o mesmo: a soberania do consumidor em escolher seus próprios destinos, livre das amarras da interferência do Estado. Mais curioso é que o autor recorre ao mesmo exemplo: o famoso caso Betamax contra VHS, segundo ambos, uma guerra de padrões "resolvida pelo mercado" _ e que segundo o próprio Paulo C. Barreto, decidiu-se pelo padrão inferior.

Interessante. Embora haja controvérsias sobre qual padrão era realmente tecnicamente melhor, não há dúvidas de que o padrão VHS venceu completamente. E isso sem que esse mercado tenha sofrido qualquer inibição na competição: havia (até o surgimento do DVD) uma enorme competição entre fabricantes de aparelhos de vídeo. Na verdade, o que existiu ali foi uma "guerra de padrões", onde se compete "pelo mercado", e não "no mercado"; uma vez definido o padrão vencedor, e não sendo este um padrão proprietário, aí então inicia-se a competição "no mercado".

O mesmo ocorre no mercado de computadores pessoais, com a diferença de que como as chamadas externalidades de rede não são tão grandes, é possível a convivência de dois padrões incompatíveis (no caso, o padrão IBM-PC e o da Apple _ apesar de recentemente a Apple ter aderido ao chip Intel).

A idéia de externalidade de rede é fundamental para entender o funcionamento e a estrutura dos mercados de rede. Imagine, leitor, um aparelho de fax. Pouca utildade terá para você um equipamento de fax se você não for capaz de utilizá-lo para enviar um fax para alguém. Portanto, quanto mais usuários uma determinada tecnologia de transmissão de fax tiver, mais útil, e mais valor, o fax passa a ter para um próximo cliente prospectivo. Isso não acontece, por exemplo, com uma banana; se você comprar uma banana, seu objetivo é comê-la, não importando se outras pessoas comerão banana ou não.

No caso da televisão digital, o que está em jogo é a informação e o entrenimento de milhões de lares. O Brasil se caracteriza por ser um país onde a televisão por assinatura ainda tem uma penetração baixíssima, não chegando nem a 10% dos domicílios. Isto significa que a TV aberta é a principal fonte de informação e entrenimento para a maior parte da população.

A TV digital promete vários avanços sobre a atual TV analógica: maior definição de imagem, possibilidade de grande economia e uso mais eficiente do espectro eletromagnético devido à adoção de tecnologias de compressão, com a consequente abertura do mercado para novos players, e interatividade. A migração da TV aberta do paradigma analógico para o digital, portanto, não é um processo isento de profundas consequências.

Para começar, a TV aberta, diferentemente da TV por assinatura, só se viabiliza pelas verbas publicitárias que aufere dos anunciantes, já que é gratuita para os telespectadores. As emissoras de TV brigam pelos pontos de audiência, cujo significado, para um anunciante, é o de que sua mensagem de marketing está sendo vista por mais pessoas.

Nesse mercado, as externalidades de rede, portanto, funcionam de maneira um pouco diferente da que vimos no caso do fax. De fato, para cada telespectador, pouco importa se o seu vizinho possui um aparelho compatível ou não com o seu (exceto pelo fato de que não poderão fofocar sobre o programa que viram na noite anterior). Mas isto faz toda a diferença para o anunciante e, portanto, para a emissora. Por quê ?

Ora, se a tecnologia televisiva se balcaniza, permitindo-se que cada emissora adote a sua própria tecnologia de TV, e que cada consumidor opte por comprar um aparelho de TV que recepciona apenas os sinais de certas emissoras e não de outras, o que acontece é que o mercado anunciante se fragmenta. Se o mercado de publicidade se fragmenta, cada emissora terá menor receita, o que se traduzirá em menor oferta de conteúdo de qualidade. Todos, portanto, perdem.

É bem verdade que um fundamentalista do livre mercado sempre poderá dizer que os mecanismos de mercado funcionarão e que uma solução de mercado emergirá espontâneamente. Mais ou menos. A esta altura, os consumidores já terão incorrido em custos irrecuperáveis com a compra de aparelhos de TV incompatíveis. Se os emissores chegassem todos a um acordo e adotassem uma só tecnologia, todos os consumidores que compraram televisores de tecnologias incompatíveis teriam que se adequar, possivelmente comprando um novo televisor. Essa alternativa é, portanto, claramente ineficiente do ponto de vista econômico.

É claro que os emissores podem todos tomar sua decisão no início do processo, de forma que um só padrão largue de saída. Essa seria logicamente a alternativa mais racional _ e já deixa a léguas de distância a idéia prosaica de que um mercado como esse é como o mercado de padarias, onde o consumidor vai comprar o pão onde lhe der na telha.

A essa altura, seria conveniente e prudente olharmos como, na prática, os tais padrões de TV digital surgiram mundo afora.

O primeiro padrão de TV de "alta definição" era analógico, e foi proposto pelos japoneses _ mais especificamente, pela NHK, a poderosa emissora estatal japonesa. Curiosamente, o padrão proposto teve a aprovação entusiástica dos emissores de TV norte-americanos, que a essa altura já ansiavam por uma solução que lhes permitesse competir com a diversidade de programação oferecida pelas TV´s a cabo.

Considerações estratégicas mais gerais, porém, cuidaram de jogar um balde d´água fria sobre o entusiasmo inicial das grandes redes norte-americanas pelo padrão japonês. No final da década de 70 e início dos 80, o Japão emergira como um formidável competidor perante a indústria norte-americana. Rapidamente, a necessidade de evitar que a indústria local perdesse a competição pela hegemonia industrial em setores estratégicos como a eletrônica de consumo e de informática fez com que ganhasse amplo apoio bipartidário a iniciativa de se criar um padrão alternativo, onde as empresas norte americanas tivessem a oportunidade de criar, e aproveitar, um mercado totalmente novo. Surgiu então a proposta do ATSC, o padrão de TV de alta definição norte-americano, que não era analógico e sim digital.

Diferentemente do folclore liberal, portanto, o padrão norte-americano foi fruto de deliberação política envolvendo as associações de indústria e o governo, no melhor estilo neocorporativista, ao invés de bonitas soluções espontâneas de mercado.

A iniciativa norte-americana gerou uma ciranda tecnológica: os europeus resolveram entrar na briga, com total apoio das instituições comunitárias, e criaram o padrão DVB, uma evolução sobre o padrão americano. E, fechando o ciclo, o próprio Japão resolveu entrar na roda, criando o padrão ISDB, que teoricamente procura aproveitar o melhor dos padrões americano e europeu _ mais uma vez, é claro, sob as expensas da NHK, em cooperação com os gigantes industriais japoneses.

Portanto, sem entrar no mérito sobre qual padrão deve ser o eleito pelo Brasil, fica claro que este não é um jogo para os profissionais livre-mercadejantes, cada um vendendo seu pão quentinho. Estão na mesa decisões que terão consequencias de longo prazo, envolvendo desde a possibilidade de renovar e dinamizar o parque industrial brasileiro (arrancando contrapartidas tecnológicas dos mascates internacionais que querem nos vender seus padrões) até a maior diversidade na produção de conteúdo audiovisual e a maior competição no mercado televisivo.

Assim como Deus ajuda quem cedo madruga, o mercado também ajuda quem sabe planejar um pouquinho.

março 20, 2006

O mito da ineficiência ou a ineficiência de um mito?

Pois é,

O que d. Pedro I, Collor, FHC, Lula e os cidadãos brasileiros têm em comum?

Todos reclamam da famosa "máquina administrativa do estado". Não há um cristo nesse país que já não tenha vociferado, praguejado mesmo, contra o serviço público. É primeira lição de cidadania que ensinamos ao nossos filhos: o serviço público brasileiro não presta, dizemos repetidamente, sem sequer pensar!

Em carta escrita ao pai, em 17 de junho de 1821, d. Pedro referia-se que "tenho feito o que está da minha parte; o ponto é que todos se queiram prestar ao serviço da nação com tanto gosto como eu tenho me prestado"1

Segundo a historiadora Isabel Lustosa, "quando d. Pedro I assumiu a Regência no final de abril 1821, constatou a situação de miséria a que ficara reduzido o tesouro. Diante da dificuldade de pagar os funcionários públicos e a tropa, pensou em promover imediata reforma da previdência, embarcando em um navio com destino a Portugal todos os aposentados e pensionistas"2. (grifo meu)

Para não ser chato e ficar aqui reproduzindo a história, vamos fazer uma pequena viagem no tempo, de 169 anos. A 15 de março de 1990, o então "caçador de marajás" assumia a presidência da República e assim se pronunciava:

Nada repugna mais ao espirito de cidadania que a corrupção, a prevaricação e o empreguismo. Bem sabem Vossas Excelências que fiz da luta pela moralidade do serviço público um dos estandartes de minha campanha. E assim fiz porque senti, desde o primeiro momento, quando ainda governador, a profunda, a justa revolta do povo brasileiro, de Norte a Sul, nas cidades e nos campos, em todas as classes sociais, contra aqueles que, ocupantes de cargos públicos, desservem o Estado pelo mandonismo ou absenteísmo, o proveito próprio, o nepotismo, ou simplesmente a ociosidade remunerada, com o dinheiro do contribuinte, por conta de funções supérfluas, fruto da infatigável imaginação fisiológica dos que insistem em conceber o estado como instrumento de ganho pessoal ou familiar.

Farei realizar rigoroso levantamento e racionalização do setor público, como prova do meu respeito e homenagem aos verdadeiros servidores, aos que se dedicam zelosa e meritoriamente às tarefas do Estado, e que não devem jamais ser confundidos com os que se locupletam de cargos míríficos e salários mirabolantes, sem nenhuma contrapartida social. Conduzirei um governo que fará da austeridade, ao lado da eficiência, a marca constante da atuação do Estado e um motivo de orgulho do funcionalismo federal.3

Nova pequena viagem no tempo e encontraremos Fernando Henrique Cardoso, em dois momentos distintos:

Minha missão, a partir de hoje, é fazer com que essas prioridades do povo sejam também as prioridades do Governo.

Isso vai demandar uma ampla reorganização da máquina do Governo. A administração está muito deteriorada, depois de anos de desmandos e arrocho financeiro. O clientelismo, o corporativismo e a corrupção sugam o dinheiro do contribuinte antes que chegue aos que deveriam ser os beneficiários legítimos das ações do Governo, principalmente na área social.

As CPIs do Congresso e as providências enérgicas tomadas pelo Governo Itamar Franco começaram a limpeza desses parasitas nos últimos dois anos. Vai ser preciso mexer em muitos vespeiros para completar a faxina e fazer as reformas estruturais necessárias para dar eficiência ao serviço público.

Isso não me assusta. Sei que terei o apoio da maioria da Nação, inclusive dos muitos funcionários que têm amor ao serviço público.4

E, na posse do segundo mandato:

O Estado começou a ser transformado para tornar-se mais eficiente, evitar o desperdício e prestar serviços de melhor qualidade à população. Deixa de ser o Estado faz-de-conta-que-faz-tudo, mas continua a ser o instrumento fundamental para garantir serviços para a população mais pobre, gerar as condições para o aumento da produção e assegurar os direitos básicos de todos. (...)

Os Ministros que em poucos minutos tomarão posse em seus cargos receberão do Presidente da República uma orientação precisa: concentrar a competência de suas equipes e os recursos de suas pastas (...)5

Ora, se o Estado "começou a ser transformado para tornar-se mais eficiente", por que razão nosso virtual futuro presidente, quando da posse no mandato atual, dizia:

Trabalharemos em equipe, sem personalismo, pelo bem do Brasil e vamos adotar um novo estilo de Governo com absoluta transparência e permanente estímulo à participação popular. O combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu Governo. É preciso enfrentar com determinação e derrotar a verdadeira cultura da impunidade que prevalece em certos setores da vida pública. Não permitiremos que a corrupção, a sonegação e o desperdício continuem privando a população de recursos que são seus e que tanto poderiam ajudar na sua dura luta pela sobrevivência.

Ser honesto é mais do que apenas não roubar e não deixar roubar. É também aplicar com eficiência e transparência, sem desperdícios, os recursos públicos focados em resultados sociais concretos"6?

Pôxa vida! Eita palavrinha do gosto de todo mundo: (in)eficiência. Mas, mais que (in)eficiência, a grande expressão associada ao serviço público, foi cunhada por Euclides da Cunha. Segundo ele, d. João VI foi o responsável pelo "renovamento das supérfluas velharias de uma sociedade desfibrada, em que a burocracia tomará o ideal da vadiagem paga"7.

Vadios pagos. Assim são vistos os servidores públicos pelos cidadãos. Gente que pendura o casaco no espaldar da cadeira enquanto espera a "gorda" aposentadoria. Será? FHC e Lula retomaram o ideal de d. Pedro I: um propôs e o outro concretizou a tão sonhada "reforma da previdência", onde o vilão a ser eliminado é o servidor público, causa única da ineficiência da "máquina estatal". Pena que nos dias atuais os defensores do "direitos humanos" não deixariam que enviassem nossos aposentados e pensionistas para Portugal. Mesmo porque, a União Européia não os aceitaria. Bons tempos, aqueles do Império. Ao menos os servidores públicos tinham porto seguro.

A administração pública muito raramente merece a atenção dos cidadãos na hora de votar. Mas é dela que todos reclamam e é nela que acontecem a corrupção e os desmandos; e, nela, os cidadãos vêem sumir o que pagam de impostos. O desafio é falar de um assunto considerado técnico, tão afeito aos moldes da Academia, de uma forma que aqueles que são os mais atingidos, ou seja, todos nós, possam participar, debater e expor suas idéias. Talvez a solução de muitos problemas não esteja nos escritos acadêmicos ou nos grandes modelos de administração (muitas vezes importados) e, sim, na cabeça de cada cidadão.

Mas as perguntas que não querem calar, em ano de eleição, são: afinal, a ineficiência é um mito, ou, após 200 anos8, o que existe é a ineficiência de um mito? E, se reclamo de como está, de que jeito eu gostaria que fosse?

Sejam bem-vindos a bordo. Esta nau é de vocês, todos os dias.

Notas:

1SOUZA, Otávio Tarquínio de. A vida de d. Pedro I. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio Editores, 1972, tomo I, p. 234.
2LUSTOSA, Isabel. Corrupção imperial à brasileira. Revista História Viva. São Paulo: Segmento, 2006, ano III, nº 28, p. 78-83.
3MELLO. Fernando Collor de. Discurso de posse no Congresso Nacional, em 15 de março de 1990. Disponível em http://www.collor.com/discursos1990_001.asp
4CARDOSO, Fernando Henrique. Discurso de posse no Congresso Nacional, em 1º de janeiro de 1985. Disponível em http://www.ifhc.org.br/publicacoes_p.htm
5CARDOSO, Fernando Henrique. Discurso de posse no Congresso Nacional, em 1º de janeiro de 1999. Disponível em http://www.ifhc.org.br/publicacoes_p.htm
6SILVA, Luís Inácio Lula da. Discurso de posse no Congresso Nacional, em 1º de janeiro de 2003. Disponível em http://lists.econ.utah.edu/pipermail/reconquista-popular/2003-January/005424.html
7LUSTOSA, Isabel. Op. Cit.
8Levando-se em conta que a historiografia considera 1808, quando a corte portuguesa transferiu-se para o Brasil, como o ano de "inauguração" da administração pública brasileira.

março 17, 2006

Vendendo jiló como se fosse chuchu

832969410.jpg O candidato do PSDB à presidência, Geraldo Alckmin, é chamado de "picolé de chuchu" por sua personalidade apagada e sem graça, mas, para mim, nada superou a sensaboria da cobertura da imprensa brasileira sobre o novo adversário de Lula. As reportagens se concentraram em comentar a reação do perdedor Serra, e a reproduzir opiniões de Alckmin contra o governo Lula. Em nenhum momento consegui encontrar uma linha mais crítica ou mais reveladora sobre o candidato do PSDB. Se fôssemos julgar pelas matérias que têm saído em todos os jornais nos últimos dias, Alckmin não tem um só defeito que o desabone; não houve um só projeto polêmico em seus dois mandatos como governador de São Paulo; sua biografia é mais inofensiva e branda do que a de qualquer político que já fez carreira no país. Sinceramente? I don't buy this for a minute.

A imprensa paulista e do resto do país parece ser extremamente benévola com Geraldo Alckmin, e isso não é de hoje. Se você fizer uma pesquisa nos arquivos dos jornais desde que ele assumiu o Governo paulista com a morte de Covas, em 2001, vai ser muito difícil encontrar matérias investigativas contra Alckmin. O que chegou mais perto disso foi uma reportagem da Folha de São Paulo com uma denúncia grave (mas sem follow-up), de que Alckmin (PSDB) cedeu uma fazenda de 87 hectares -cerca de 54 vezes o parque Ibirapuera-, em Lorena (a 188 km de SP), à rede católica Canção Nova, ligada ao secretário da Educação, Gabriel Chalita, em vez de usar esse mesmo terreno para outros dois órgãos que o haviam requisitado para fins mais úteis (um para reforma agrária, outro para área de pesquisas). Se é essa a idéia de bom uso do dinheiro do contribuinte que Alckmin tem (distribuir a coisa pública entre seus amigos), fica difícil acreditar na imagem de "ético" e "bom gerente" que ele tenta passar. O Sindicato dos Radialistas de São Paulo também denuncia que a TV Cultura virou um cabide de empregos do PSDB - o que se reflete numa cobertura jornalística tendenciosa -, sendo que o próprio Chalita quase que estreou um programa próprio no canal (onde começaria entrevistando a esposa socialite de Alckmin), mas desistiu quando assessores do governo previram as críticas que isso iria gerar.

Vi ainda entre as raras matérias críticas sobre o candidato do PSDB nos últimos anos uma recente da Revista Época, relatando fortes ligações de Alckmin com a seita católica arquiconservadora Opus Dei. Ele inclusive usa parte do tempo que deveria estar trabalhando para o povo de São Paulo tendo aulas de teologia com um um representante desse prelado dentro do Palácio dos Bandeirantes. Quando era prefeito de Pindamonhangaba, atendeu a um pedido de seu pai para que uma avenida da cidade recebesse o nome de Josemaria Escrivá, o espanhol fundador de Opus Dei, que era ligado ao regime fascista de Franco. Eu desconfio seriamente de pessoas fanaticamente religiosas. São dogmáticos, responsabilizam Deus e a Bíblia por tudo. Questionam pouco, falta-lhes senso crítico, e seguem fielmente os lobbies de suas igrejas. E no caso específico de Alckmin, já é certo que ele vai barrar qualquer tentativa de avanço nos direitos reprodutivos femininos no Congresso.

O Governo Alckmin foi marcado por muitas rebeliões violentas de presídios, especialmente na Febem. Depois de praticamente dois mandatos, ele não conseguiu melhorar o caos no sistema penitenciário paulista, e a violência na Grande São Paulo virou uma rotina assustadora para os moradores, não muito diferente do caos que se vê no Rio de Janeiro. Em 2003, um ex-torturador do DOI-Codi, Delegado Calandra, assumiu um cargo de confiança no Departamento de Inteligência da Polícia, e teve o respaldo de Alckmin durante vários meses, até que a pressão da opinião pública forçou o governo a transferir Calandra para um cargo de gerência de Pessoal.

As escolas estaduais de São Paulo estão sucateadas, as universidades do Estado também reclamam da falta de recursos, e os professores estão perdendo direitos e sofrendo com achatamento de salário. Se Alckmin não considera Educação uma prioridade, não dá para votar nele. Alckmin também já disse ser contra o programa Bolsa Família, que ajuda a distribuir renda e a aliviar a pobreza - e também manter mais crianças estudando. Até agora, não vi uma proposta dele em alternativa ao bem sucedido programa do PT.

Para culminar, Geraldo Alckmin é o candidato de primeira hora de Antônio Carlos Magalhães (PFL), o que por reflexo é motivo suficiente para eu ser contra. Agora, o golpe final para eu ter certeza que esse chuchu tá mais com jeito de jiló, foi a declaração de Alckmin ao Jorge Bastos Moreno, de O Globo: "Sou apaixonado pelo programa Zorra Total". Definitivamente, não terás o meu voto, Sr. Sem Graça.

Leila Couceiro
http://www.verbeat.org/blogs/stuckinsac

março 16, 2006

números, números

Passo os olhos pelos números do mercado econômico, início de 2006. Sim, início: acabou o carnaval; começou o ano de fato. O dólar, amigos, registra o menor nível (os economistas falam difícil) desde 2001, fechando a R$ 2,112. Eu sempre ouvi dizer que era bom para todos que o dólar baixasse; eu mesmo sempre consegui comprar mais CDs importados quando a moeda gringa estava paripasso com o Real. Agora os economistas dizem que não é tão bom o dólar estar baixo, já que o comércio exterior compra e paga a gente em dólar e, aí, a gente fica com MENAS verdinhas. Complexo, vai dizer?

E a revista "The Economist" (O Economizador) fez entrevista com o Lula (ele a-do-ra repórteres estrangeiras) e a conclusão geral é que o "aquecimento" (sic) da economia e a redução da pobreza são triunfos da atual administração. Um coronel daqui dizia que "elogio em boca própria é vitupério".

(Enquanto isso o "The Times" diz que o Brasil pode ser a quarta economia mundial em 2.050. Isso é bom ou ruim?)

E enquanto isso também vejo que o Estado de São Paulo - o estado, não o Jornal - está com um oferecimento recorde de empregos formais. Três concursos realizados pelo próprio GOVERNO DO ESTADO estão oferecendo 1.071 vagas com salários de até R$ 4,5 mil (!!!). O Governo do Estado é do PSDB, OPOSIÇÃO (sic) ao Governo Federal e está, ora vejam, contrinuindo indiretamente para o crescimento da economia, aquecimento, et al. O Paulo Francis diria "Waaaaal!".

Isso eu vi por aí, na internet. Mas no Caderno de Economia do Estadão, numa coluna da Sonia Racy, ela rememora os números do IBGE de 2003 onde apenas 10 (!!!) das cinco mil cidades do País concentravam 25% do PIB Nacional: São Paulo, Rio, Brasília (e eu que achava que não tinha dinheiro em Brasília; tava tudo em paraíso fiscal!), Manaus, Belo Horizonte (alô, Marcus Valério!), Campos dos Goytacazes (!!!), Guarulhos, Curitiba, Duque de Caxias, Porto Alegre e Cordeirópolis. Hehehe, Cordeirópolis foi por minha conta; risca da lista. Esses números apontam que César Maia "comanda" (sic) um PIB 55% menor que José Serra; embora seja difícil para mim saber o que isso significa.

De todas as notícias de Economia que tive que ler hoje para fazer uma matéria sobre o "progresso na economia no governo Lula" a que mais me chamou a atenção foi a notinha no mesmo caderno do Estadão: "Empresa terá que lavar uniforme". As empresas que obrigam os funcionários a usar uniforme terão que lavá-los para eles (ficou bonita essa frase, quase um trava-língua). Mas não só isso: devem tratar a água e os resíduos para não impactar o meio ambiente. Porra, ninguém me avisou e já viramos a Suiça!

Bem, o resultado final da minha matéria é que, SIM, a Economia melhorou pacas e o País também no Governo Lula. Mais que o previsto - apesar do número de empregos prometido ser o dobro do CONSEGUIDO até o momento. Quem ler a matéria vai pensar seriamente em votar de novo no Lula.

O quê? Jornalismo isento? Tá brincando, né?

Luiz Biajoni - www.verbeat.org/blogs/biajoni

março 15, 2006

Apresentação

O Bombordo é um blog coletivo e político onde, de segunda a sexta-feira, um escritor, ensaísta ou cronista assinará um texto inédito. Somos um numeroso grupo de entendidos e apedeutas, de sumidades e nulidades que trabalham em várias áreas. Somos jornalistas, professores universitários, advogados, escritores, médicos, engenheiros, etc. - quase todos com blogs ativos -, interessados em criar um local de debate fora da esfera da grande imprensa.

O Bombordo, inevitavelmente, será um blog não-consensual e heterogêneo. Agregamos visões políticas bastante amplas, além do significativo fato de estarmos espalhados por, no mínimo, três continentes e de possuirmos, portanto, perspectivas e vivências muito diferentes. Desta forma, não seguiremos pauta, programa ou estilo.

Mas não somos nada modestos. Sabemos que 2006 será um ano no qual novas alternativas serão avaliadas e outras serão julgadas. Queremos barulho, desejamos participar dos debates e temos altíssimas pretensões de contribuir refletindo, rebatendo e propondo. Não é pouco. Porém, começaremos mentindo: divulgaremos que nosso desejo é o de que o Bombordo seja um boa fonte de leitura para nós mesmos, esquecendo nossa intenção de ser uma referência na Internet e, quem sabe, na esquina de nossa rua. Esperamos na verdade que a rede torne rapidamente avenida esta vicinal hoje inaugurada.

Por ordem alfabética, apresentamos os nomes já confirmados:

Bruno Freitas
Christiana Nóvoa
Claudio Costa
Cynthia Semíramis
Elenara Iabel Cariboni
Flavio Prada
Hernani Dimantas
Idelber Avelar
Leila Couceiro
Luiz Afonso Alencastre Escosteguy
Luiz Biajoni
Luiz Carlos Pinto
Marcus Pessoa
Maria Helena Nóvoa
Milton Ribeiro
Paulo Bicarato
Sergio Leo
Smart Shade of Blue
Suzana Gutierrez

Boa leitura. Começamos prá valer amanhã.