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julho 3, 2007
novos autores, literatura de internet e publicar ou não publicar
Tenho visto aqui e ali falarem da "Nova Literatura Brasileira" como se a literatura brasileira tivesse sofrido um colapso em algum momento e deixado de existir, voltando agora com uma geração de novos grandes autores ufa! bons pra caralho. Aí estranhei quando abri o caderno Cultura do Estadão de domingo e dei de cara com um longo artigo do professor de teoria e crítica literária da Unicamp, Alcir Pécora, com a pergunta-manchete: "O que existe de novo no front?", e o olho direto: "Estréias em romance revelam uma produção de conservadorismo pop e realismo marqueteiro". Antes de ler o artigo perguntei-me a mim mesmo: Já acabou a Geração 00?
Pécora lê meia dúzia de novos livros, muitos deles incensados nos cadernos de cultura. Detona "Fugalaça" da Mayra Dias Gomes, filha do Dias Gomes; "A Inevitável História de Letícia Diniz", de Marcelo Pedreira; "Gran Cabaret Demenzial", de Verônica Stigger; "Toda Terça", de Carola Saavedra; "Mastigando Humanos", de Santiago Nazarian e acha que Daniel Galera, de "Mãos de Cavalo", expõe enorme habilidade narrativa, mas é "tudo bem banal". "Se a opção de Galera fosse por escrever não um romance, mas um conto constituído pelo primeiro episódio do livro, teríamos que saudar um texto um texto muito melhor do que o livro acabou se tornando", diz sobre "Mãos de Cavalo". Não li nenhum, mas, como jornalista e escritor, acompanho a cena até onde dá. Recentemente vi esses mesmos nomes em uma matéria da Folha, onde aparecia, inclusive, a amiga Olivia Maia, autora de "Desumano". Vi aqueles nomes, aqueles currículos, e fiquei pensando eles vendiam mais livros com matérias como aquelas. Nem cheguei a perguntar para a Olivia, mas acho que ela não sabe.
Estranhei quando, no dia seguinte, no mesmo Estadão, Caderno Link, a matéria de capa tazia o amigo André "Cardoso" Czarnobai com o título "Internet renova Literatura do Século 21". O Cardoso? O Cardoso que tem o livro mais famoso e não lido da Literatura Brasileira, o "Cavernas & Concubinas", que eu procurei alucinadamente em todos os lugares e nunca achei para comprar. Eu reclamei pessoalmente com ele sobre isso, certa vez e ele: "Uma bosta esse negócio de editora nesse País!". Ele não sabia do livro, não sabia quanto tinha vendido, etc... (Acabo de escrever e vejo que o livro voltou para o Submarino; menos mal).
A matéria, incrivelmente de Julio Daio Borges - e, na hora, lembrei de dois artigos do mestre no Digestivo Cultural: "Publicar em Papel? Pra quê?" e "Não existe pote de ouro no arco-íris do escritor" - que, talvez propositalmente, cita ainda como exemplos de livros "de internet" os fora-de-catálogo, inexistentes, inencontráveis ou míticos "Vida de Gato", da Clarah Averbuck; "O Cabotino", do Paulo Polzonoff; "Perversa", de Ana Elisa Ribeiro; "Morte e Vida Celestina", do Alexandre Soares Silva; "Lugares que eu Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi", de Cecília Gianetti - entre poucos outros encontráveis, inclusive o onipresente "Mãos de Cavalo". Hmmm. Daio Borges podia aproveitar a oportunidade para falar de autores e obras recém-lançadas que podemos achar na FNac ou nos Submarinos da vida, ao invés de enfileirar livros que encalharam e foram recolhidos ou esgotaram em tiragens mínimas. Podia citar casos de e-books (gratuitos, como "Sexo Anal" ou vendidos, como o "Onde Perdemos Tudo", do Alex Castro) ou mesmo, ér, o "Desumano", da Olivia, que está aí nas lojas.
Aí fui ler a Olivia. E dei de cara com esse post.
Quando pensamos que o escritor queria ser lançado por uma grande editora, ele começa a mudar sua posição, considerando fazer a coisa fora do mainstream.
Interessante.
E pesquei um trecho na matéria de Daio Borges no Link em que ele diz: "Hoje, um escritor que nem foi publicado em papel ainda, se souber lidar com o meio internet, pode ter de saída milhares de leitores". Hmmm?
Tem alguma coisa errada na coisa toda. E eu não sei bem o que é.
Quando meu livro foi rejeitado por 16 editoras, achei que ele fosse ruim. Mas quando mais de 50 pessoas - a grande maioria não conheço, não sei quem é - disseram que ele é bom achei que tinha algo de errado. É difícil passar uma semana sem alguém comentar sobre o livro, seja em blogs, sites ou e-mail. (Ainda hoje, Doni, do Hedonismos, escreveu sobre ele) Aí contratei uma agente literária e ela me disse que o livro "fugia dos padrões" e eu fiquei contente - mas não era um elogio. Disse que as editoras querem coisas "dentro do padrão". Ué, disse, mas assim como é que a LITERATURA AVANÇA? Será que devo escrever algo dentro dos padrões? Pra quê? Para ganhar livro com selo de grande editora e nem saber quantos livros vendeu?
Cada vez que penso sobre tudo isso chego à conclusão que os escritores deviam se dar ao respeito e não sair assinando contratos para "sair da gaveta virtual" única e apenasmente. Caralho, quem pensa e escreve as histórias? Será que as editoras não precisam mais de bons escritores do que bons escritores precisam das editoras? Não se pode hoje imprimir na gráfica rápida, on demand, e enviar para quem quiser comprar, a um preço justo? Isso não dá resenha no Estadão? Há vida além dos cadernos de cultura?
É, talvez a Geração 00 tenha acabado.
A geração do sonho de ter um livro publicado por uma grande editora. Pra quê, né Julio? para depois que os livros saírem das estantes, aparecer numa matéria sobre, ér, a "renovação" da literatura no século 21?
Posted by biajoni at julho 3, 2007 5:54 PM
Comments
Acho que vc tem razão. Acho que o 'Digestivo'faz gênero blasé, quer ser diferente. Ele sempre está contra a corrente.
Nada contra andar contra a corrente- como no seu caso- na literatura.
E tb acho que há algo estranho no ar, não sei o quê.
E é natural que todo escritor, ou aspirante a escritor, deseje ver seu livro numa estante. Ora bolas...o resto é balela.
um abraço, Laura
Posted by: laura at julho 18, 2007 10:28 AM
Cara, esse negócio de agente literário chega a ser engraçado. Li alguns comentários biográficos sobre kafka e o interesse dos editores por obras novas, em sua época. Eles queriam coisas novas.
às vezes, acho que há editoras que querem fazer volume e, burocraticamente, só publicam coisas velhas, de autores consagrados.
Vamos ver se consagramos uns de agora, então?
abração e fé na luta!
Posted by: Luiz Roberto Lins Almeida at julho 5, 2007 3:02 PM
Entrando em uma tangente, vale lembrar a história do Rodrigo Bolaños que viu a situação da literatura e da editoração no Chile, resolveu mandar tudo à "la mierda" e foi publicar seus livros na Espanha.
Posted by: Felipe at julho 5, 2007 1:52 AM
Bia, espero que você venda muito, muito mesmo. Mas também espero que você não encoste nessa de 'viver da literatura'.
Einstein por muito tempo pagou suas contas como um burocratazinho. E fez o que fez. E, um dia, certamente não planejado, a ciência passou a pagar suas contas.
Amém.
Posted by: Bear at julho 5, 2007 1:11 AM
positivo e operante.
Posted by: tiagón at julho 4, 2007 10:12 PM
Buscar por editoras independentes tem sido uma saída para vários autores e uma metodologia que já vem sendo trata em algumas obras, como é o caso de "Como escrever um livro?", escrita por Sonia Belloto. Ela acredita que se pode fazer um grande sucesso mesmo numa editora independente e explica como e por quê.
Com certeza, as editoras independentes estão crescendo e devem estourar em breve, pois o acesso fácil aos computadores e à internet têm despertado o interesse de pessoas que nunca imaginaram escrever textos. Então, acabam iniciando suas escritas em blogs e depois quererem algo a mais, como editar um livro.
Que seja assim sempre!
Posted by: Paulo Silas at julho 4, 2007 1:38 PM
Belo petardo, mestre. E fecho com o Érik.
Posted by: Brigatti at julho 4, 2007 1:30 PM
Bia, já falo disso há anos (sem nenhum indeditismo, porque a literatura independente deve ser anterior ao Guttemberg), mas seria bom aproveitar sua força e experiencias (e as do Alex, da Olívia, do Tiagón, do Donizetti, da Patrícia Köhler) pra começar a chacoalhar de vez esse "sistema", e fazer com que os independentes possam trabalhar. E falo isso de forma totalmente isenta, porque todo mundo sabe que ganho nada ou quase nada com isso. Já está na hora de os independentes (blogueiros ou não, tanto faz) terem alguma força dentro desse mercadinho editorial.
Ninguém leu o resumo que fiz da publicação do meu livro?
Tá aqui: http://brancoleone.wordpress.com/2007/05/30/tudo-sobre-meu-livro-porques-quantos-comos-e-heins/
Posted by: Branco Leone at julho 4, 2007 9:57 AM
Apanhe algum caso de sucesso, qualquer escritor de grande editora. Todos vão reclamar que não dá pra viver de literatura nesse país. A conta é simples: o escritor recebe 10% do preço de capa de três em três meses. Sucesso editorial nesse país é quando um escritor iniciante vende 2000 exemplares. Para sair da merda, o cara passa a maior parte do tempo dando palestra para pessoas (em sua maioria idiotas que não leram o que você escreveu), contando historinhas de como escreveu isso ou aquilo, ou fazendo trabalhos por fora no jornalismo ou como tradutor nas editoras. Sair na Folha ou no O Globo deve ser muito bom mas não paga conta de ninguém. Posso estar completamente errado, mas esse modelo que taí vai ter que mudar uma hora ou outra.
Posted by: Leandro Oliveira at julho 4, 2007 9:12 AM
Você sabe mais do que ninguém do quanto quero lançar um trabalho logo, e lançarei mesmo. Para ter "rótulo" de escritor? Não, mas para contar histórias que sinto que precisam ser contadas, histórias que provavelmente tocarão algumas pessoas. 2, 8, 12 pessoas, sei lá. Só não consigo pensar em não escrever. Como publicar? Penso nas grandes editoras da mesma forma como penso nas grandes gravadoras... coisa do século passado!
* se você for representante de uma grande editora e ler este comentário, é brincadeirinha!
Posted by: Donizetti at julho 4, 2007 2:50 AM
Olá, Bia. Desculpe aí, não resisti, tenho que comentar, o post está óptimo, estava lendo ali no Bloglines, assim como também fui logo no link para ver o post da Olívia (mas não comentei lá apesar de ter sentido que tinha muita coisa para conversar com ela, porque sou bicho do mato mesmo).
Esse negócio dos "padrões" é uma coisa que já me consumiu bastante a cabeça. (E quanto a isso, estou falando num sentido talvez diferente daquele que falaram para ti). Como você sabe, o meu processo foi ao contrário, ao invés de ser rejeitada o meu "drama" era ter que escolher entre quatro editoras (ou 6, se contar com outras duas que estavam começando).
O Alex não acha legal eu dizer isso, diz que assim estou diminuindo o meu próprio trabalho - talento, digamos assim - mas a verdade é que a razão de ter essas Editoras todas era, em grande parte, pelo facto do tal "padrão".
Sei que sou apaixonada pela escrita, compulsiva, sei que tenho que melhorar, e que com certeza tenho conseguido isso dia-a-dia. Entretanto também tenho os pés no chão. Sei que se não fosse o tal "padrão", possivelmente não teria a vida "facilitada" dessa forma quanto a poder publicar o meu livro. Quando estava aí no Brasil mesmo, escrevi muito, fazia parte de tudo quanto é fundação cultural, participava (ou metia o bedelho com os meus textos) em tudo, vivia no meio de "gente que sabe". E algum dia cheguei perto de publicar o meu livro, ou um livro onde assinava sozinha? Não. Dessa gente séria que conheço, gente com muito mais bagagem, que respira literatura, que escreve brilhantemente... algum deles também conseguiu realizar esse projecto? Não que eu tenha notícia, e olha que não estou falando apenas de meia dúzia de pessoas. Se teria a possibilidade de publicar o meu livro se morasse aí no Brasil? Possivelmente, não digo com 100% de certeza, mas muito possivelmente sim, e também por causa do tal "padrão" (e creio que você está entendendo o que estou querendo dizer).
E quando fico dizendo que sei que o "padrão" foi um grande responsável para conseguir realizar o meu ideal, só estou dizendo que, mesmo se eu fosse ainda melhor na escrita, mesmo se eu fosse fera no negócio, um Nabokov de saias, não teria assim tantas "facilidades", caso, e apenas por acaso, não pertencesse ao tal "padrão".
Quando ainda não suspeitava desse negócio do "padrão", ou seja, que poderia conseguir editoras, pensei em fazer isso, editar de forma independente, cheguei até a fazer mil pesquisas por aqui sobre o assunto. E por isso eu acho que vocês estão no caminho certo, não tinham que ficar esperando até que alguém decidisse olhar de verdade para o material. Se - e agora usando essa palavra para falar exactamente do seu caso - seu livro é mesmo fora do padrão, isso não deveria ser uma mais-valia? É hora da revolução. Parabéns!
Posted by: paula at julho 4, 2007 2:12 AM
Olha... vou ser concisa mas queria falar um tantão... (é o cansaço, depois volto com calma).
Quando mandei meu livro (escrito em 2001) para algumas editoras e recebi negativa de todas, tive vontade de chorar, desistir. Depois um monte de gente leu e gostou. Até que um dia resolvi ser cara de pau e entrei em contato com o Mario Prata (muita gente via semelhança no estilo), pedindo opinião. Pois bem, o cara leu e fez vários elogios. Jogou minha bola lá em cima mesmo. Não apenas ele leu, mas o Bruno Barreto (amigo do Mario e que na época estava adaptando pro cinema um livro dele) também, e igualmente achou muito bom.
Preciso dizer que tenho vontade de mandar todas aquelas editoras para a casa do caráleo?
(Nossa, quem é que ia ser concisa? :P)
Beijos, Bia. E faça barulho mesmo com seus livros. :-)
Aliás, FAÇAMOS! ;)
Posted by: Patrícia Köhler at julho 4, 2007 12:22 AM
marcia, eu acho que ele mentiu.
ou talvez ele tire uns trocados dando palestras e oficinas de literatura...
ainda assim, deve viver uma vida franciscana.
logo ele, que tem pinta de baladeiro.
já viu quanto tá o energético? tá pela hora da morte!
:>)
Posted by: Biajoni at julho 3, 2007 11:31 PM
Sábado eu estive na Flap ( a prima pobre da Flip) e o Nazariam estava fazendo parte da mesa onde o tema era: é possível viver da literatura? De todos os participantes da mesa o único que disse conseguir viver da venda de livros foi o Nazariam. Então vai ver esse tipo de matéria ajuda mesmo o cara :)
Posted by: Marcia Kawabe at julho 3, 2007 11:25 PM
vc eh foda
Posted by: alex castro at julho 3, 2007 8:45 PM
É isso aí, espero que a internet faça com as editoras o mesmo que fez com as gravadoras!
Posted by: Érik Virgúleo at julho 3, 2007 8:41 PM
Rapaz, dei uma olhada por aqui e notei que você é um cavalheiro de bom gosto. O artigo "Novos autores..." está muito bom!. Portanto, sei que irá gostar dos meus textos. Fica o convite para conhecer o "Moderado pra Caralho".
See you!
Posted by: Eugenico Cardoso at julho 3, 2007 8:39 PM
a verdade é que é um trabalho grande demais publicar por editora normal, para uma alegria que dura os primeiros três meses. depois disso, seu livro é velho e não interessa à mÃdia. e se não pela mÃdia, de que serve um livro publicado dessa forma? estou quase certa que não vale a pena.
Posted by: Olivia at julho 3, 2007 8:27 PM