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junho 19, 2006

filhos e fogos de artifício

(Artigo meu que deve ser publicado em alguns jornais da região amanhã, terça-feira)

No final de semana passado nasceu minha segunda filha. Minhas duas nasceram no Hospital Municipal de Americana, que desenvolve um tabalho maravilhoso, exemplar. Como, por princípio, sou contra planos de saúde, acreditando que é dever do Estado nos dar prevenção e cura, recorro ao sistema municipal sempre que preciso - e nunca me decepcionei. Já me dirigi ao hospital mais de meia dúzia de vezes com cólica renal, e sempre fui muito bem atendido. Muita gente reclama da demora, de alguma rispidez que talvez possa haver, mas tudo isso é natural. Geralmente é o povo mesmo que é impaciente, bruto, mal-educado e exigente demais. Enfim. Nasceu minha filha Lia e sempre que uma criança nossa vem ao mundo traz com ela reflexões. E a primeira que me veio, remanescente ainda do parto de minha primeira filha, Isabelle, é que as pessoas que vivem sem pensar em ter filhos são genuinamente egoístas. Tenho nojo, apesar de respeitar, aqueles que batem no peito e dizem: "não quero ter filhos". É um ato covarde, que mostra bem a personalidade: são pessoas que nada acrescentam à sociedade, pessoas de um pessimismo intrínseco, que não deviam ser consideradas no censo. Se você não pensa em prolongar a existência, dar continuidade à Humanidade, obra de Deus, através de um filho é provável que você não se importe com o destino do Mundo, ações de preservação da Natureza e deve mesmo ser daqueles que jogam o papel de bala pelo vidro do carro. Independente de qualquer crença, ou da estúpida definição de família como celula-mater da sociedade - não é disso que falo! - querer ter filhos é querer dividir sua vida, as coisas todas boas que você viu e aprendeu ao longo da existência, compartilhar, surpreender-se, maravilhar-se com as pequenas capacidades das crianças mui pequenas e as grandes capacidades das crianças nem tão miúdas... A genética não sabe ainda até que ponto somamos e nos dividimos, em matéria química, em nosso reflexo-contínuo; não são apenas as cores dos olhos, dos cabelos, o comprimento dos dedos, o contorno dos lábios que fazem dos nossos filhos espelhos de nós... Algo vai além, algo que algum espiritismo canhestro tenta nos explicar evocando crendices bestas, reencarnacionices de dívidas que nunca saldamos. Bobagem. Algo vai além pois em nosso contato fino com alguém criança, alguém novo, barro úmido, carimbamos nosso melhor, tentamos filtrar nossa negatividade toda, formando & transformando alguém melhor para o futuro do Mundo, um contribuinte do Mundo Melhor de Amanhã. Quando desistimos disso, ou subvertemos isso, criando pequenos bandidos ou assassinos, assinamos termos de compromisso com a Desumanidade. Não, a Desumanidade não é o Diabo, não é Satã. A Desumanidade é o que vai exterminar em algum tempo esse nosso Planeta. Ao tentar se eximir dessa responsabilidade muita gente joga mais uma pá de cal na cova do Mundo.

No final de semana em que nasceu minha filha houve encerramento de Festa do Peão e jogo do Brasil. Foi um final de semana de fogos de artifício. Não consigo pensar em nada mais estúpido e besta que fogos de artifício. Alguns torcedores da Seleção - como se torcer resolvesse alguma coisa - soltaram fogos antes do jogo (pra quê?), na hora do intervalo (hein?) e no final (ok, para mostrar o contentamento com a Seleção. Havia motivo para tanto?). Fogos de artifício são uma coisa invasora. Quem solta não está preocupado se seu vizinho está doente ou se uma criança acabou de nascer: ele quer enfiar goela (ou ouvidos) alheios abaixo que está feliz. Ora, ache outra maneira de se expressar! Não me imagino provocando tal balbúrdia em ambiente urbano, incomodando meus vizinhos. A Festa do Peão não deve saber, mas os fogos que ela queima no evento podem ser ouvidos até por internos do Hospital Municipal. Deixar de soltar fogos não iria influir na grandeza e maravilha do evento. A sugestão para o próximo ano é que o valor que investiram nesse ano em fogos seja doado para instituições que cuidam de crianças. A ação talvez revertesse até em mais marketing para o evento. E podia mesmo ter efeito educativo sobre os viciados em fogos. Além de, é claro, ajudar no futuro de nossa mísera Humanidade.

Posted by biajoni at junho 19, 2006 5:28 PM

Comments

Deus não existe e o ser humano não é digno de continuar existindo. Eu simpatizo com a extinção humana voluntária.

Posted by: Igor Kolling Maciel at junho 21, 2006 5:00 PM

bia, não achei teu texto infeliz. talvez um pouco precipitado, mas infeliz não. deixando os exageros de lado, até achei algumas colocações bem bonitas. bjs

Posted by: cris at junho 20, 2006 9:02 PM

Bia, quanta gente neurótica lê o seu blog cara!
Um simples artigo, uma simples opinião sincera e e lá vêm eles formulando suas teorias sem sustentação.
Na verdade ninguém está preparado para ter filhos até que os tenha, nossa própria natureza providencia a capacidade e isso vale para a grande maioria das pessoas (as normais).
Esse papo de falta de condição psicológica é balela, os animais são nossos melhores exemplos, são irracionais, por isso não são egoístas e´por isso são ótimos pais.
Parabéns pelo nascimento de sua filha, parabéns pelo artigo.

Posted by: camilo at junho 20, 2006 5:15 PM

ssssss

Posted by: camilo at junho 20, 2006 5:07 PM

Gostei muito dos comentários da Patrícia e do Milton. Ter filhos é uma experiência maravilhosa, mas para isso é preciso ter maturidade e condições psicológicas para criá-los da melhor maneira possível. Saber que sua família tem uma doença hereditária é com certeza um bom motivo para evitar filhos, e isso não tem a ver com pessimismo ou egoísmo, muito pelo contrário.

Posted by: Leila at junho 20, 2006 1:23 PM

Não vou nem comentar, Bia. Numa boa, tenho receio de ser tão ou mais infeliz do que esse texto seu. Então deixa pra lá. Vou me concentrar na alegria do nascimento da Lia e esquecer que você escreveu isso.

Posted by: Guto at junho 20, 2006 11:23 AM

Bia, eu não quero ter filhos. E nem por isso eu deixo de dividir a minha vida ou de ensinar o que aprendi de bom.
Seja radical não.
Porque ter filhos também pode ser um ato de narcisismo...

anyway, novos parabéns, e felicidades para a Lia

Posted by: Natygirl at junho 20, 2006 9:11 AM

V I V A A L I A ! ! !
=0*

Posted by: Kyn at junho 20, 2006 8:59 AM

Bia, eu posso dizer para você que ter sido mãe foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Minha filha tapou um buraco na minha alma que ficará para sempre, ainda que ela venha a falecer antes de mim pois eu viverei das lembranças dela.
No entanto querido, tenho que discordar de você quando diz que a pessoa que não quer ter filhos sofre de egoismo. Existem pessoas que não têm a menor condição de terem filhos. Eu não estou falando de psicopatas, pedófilos, miseráveis, etc. Eu me refiro às pessoas normais que não se sentem com condições psicológicas ou emocionais para cuidarem da vida de outra pessoa.
Meu pai fez dois filhos e foi um homem egoísta por toda a sua vida. Se não fosse a minha mãe, não sei o que teria acontecido comigo e com o meu irmão.
Eu entendo o seu momento de deslumbramento por ter sido pai mais uma vez e de uma menininha tão fofinha. Eu também acho que os filhos são a melhor coisa do mundo, mas nem todo mundo pensa igual a gente.
Beijocas

Posted by: Yvonne at junho 20, 2006 8:28 AM

Uma pergunta: se quer ser uma pessoal boa, pq nao adotou uma criança? Seu impacto ecológico seria zero e vc continuaria a "dividir sua vida, as coisas todas boas que você viu e aprendeu ao longo da existência, compartilhar, ....".

Posted by: leo at junho 20, 2006 4:56 AM

Toda a felicidado do mundo para essa nova vida que começou... Estou mto feliz com a notícia do nascimento da sua filha meu velho! Sobre os fogos.. concordo totalmente. Torcer é legal sim, não vou entrar no mérito, mas fogos de artifício são um saco.

Posted by: Donizetti at junho 20, 2006 1:42 AM

Bia, Bia... não vou levar muito a sério sua argumentação, pois imagino o quão suscetível você esteja ao lado desta criatura linda, a Lia.
Prefiro pensar que você despejou estas palavras sob forte emoção, que ainda está se reacostumando à idéia do que é ter um filho.
Eu até hoje não decidi se serei mãe ou não, e em muitos e muitos momentos o ceticismo fala mais alto e diz que talvez o mais sensato seja realmente não procriar.
Nem todas as pessoas estão/são capazes para os papéis de pai e mãe, sabia? Não digo nem financeiramente, mas emocional e psicologicamente.
Minha família tem um histórico muito triste de casos de depressão e tentativas de suicídio.
Meu pai é uma das pessoas mais misantropas que conheço, o que até hoje me gera tristezas e angústias várias. Tem um temperamento mais do que explosivo e gerou muitas crises de baixa auto-estima em mim na infância e adolescência, as quais tentei superar e até hoje me esforço para me livrar totalmente. Creio estar com bem mais da metade do caminho percorrido; menos mal, mas não foi (não é) fácil.
Ao meu ver, ele jamais poderia ter tido filhos. Nunca foi preparado para isso, e, não fosse minha mãe, eu poderia ter me transformado em uma maluca qualquer, Courtney Love ou Suzane Richthofen que o digam.
Repense suas palavras, Bia, por favor. Me senti super chateada e ofendida com estes termos que você usou a granel aqui. Egoísta? Não devo ser considerada no censo?? Nossa, pegou MUITO pesado, na boa.
Ah, e sim, mesmo sendo malthusiana às vezes, eu ainda penso, sim, que talvez valha a pena ser mãe um dia. Apenas não acho que isso vá mudar meu caráter (ser ou não mãe).
Bia, continuo te adorando e admirando, mas precisava dizer o que achei da sua linha de pensamento.
Ah, e fogos de artifício são mesmo uma porcaria! Acho isso uma ingerência absurda nos ouvidos e paz alheios.
Beijos pra família. :-)

Posted by: Patrícia Köhler at junho 19, 2006 11:02 PM

Bia, parabens pelo nascimento de sua pequena - linda!!!!

Sobre fogos de artificio: aqui onde estou eh proibida a venda a pessoas comuns. Apenas organizadores de eventos compram - e a prefeitura precisa saber q evento eh, todas as informacoes direitinho. Isso elimina boa parte do barulho desnecessario dessas comemoracoes. Gritar por um gol acho muito mais valido e humano q soltar fogos.

Sobre filhos e preservacao da natureza: detesto isso, mas vou ter q racionalmente discordar de vc. O mais sensato no momento para q o planeta consiga sobreviver a esse monte de agressao q jah fizemos ao longo de nossa existencia eh nao ter filhos, ou ter em menor numero, apenas para manter o equilibrio economico e tecnologico. O nosso planeta estah esgotado, e a tecnologia existente (q poderia ser a chave para um menor impacto) nao consegue acompanhar o ritmo da destruicao q fazemos todos os dias, sem nem ao menos percebermos q estamos fazendo - pense em niveis mundiais, afinal todos sofreremos com aquecimento global, indiscriminadamente. E por mais q essa ideia soe catastrofista, em certas areas do planeta nao eh mais. Aqui na Asia, por exemplo, uma area super-populosa onde nao cabe mais ninguem, a qualidade da alimentacao de todos jah caiu muito por causa da poluicao gerada pelo excesso de gente, de consumo, etc. Os peixes q comemos diariamente no sushi ou na sopa jah tem niveis de mercurio, chumbo, etc q estao no borderline da toxicidade - pq peixe 100% limpo jah eh praticamente impossivel se encontrar no mercado. Como estao no borderline, podem ser consumidos ainda, mas nao nadam em mar limpo como hah decadas atras estavam, e a gente vai aos poucos se intoxicando, a cada dia mais. E isso se estende pra varios outros produtos, agricolas inclusive, advindos de solos q nem os donos sabem q jah estao contaminados. Ver uma verdura verdinha no mercao, "organica", nao eh garantia de q ela nao esteja cheia de toxicos advindos da agua com q ela se alimentou do lencol freatico, por exemplo. E esse eh um ciclo de degradacao ambiental X super-populacao q soh eh quebrado pela diminuicao populacional, infelizmente, pq a degradacao jah chegou a niveis irreversiveis em muitos lugares. Haja problemas de saude agravados, velhos e novos.

Agora, tenho q te confessar q penso como vc no aspecto crianca: ela eh a certeza de um mundo melhor. Contradizendo meu proprio argumento, quero ter filhos, muitos (jah quis ter 11, um timinho de futebol, mas hoje penso q 2 seria o ideal...). Pq eles sao muito mais a certeza da esperanca no futuro, de um mundo melhor, de q vc pode deixar um legado filosofico de melhoria, de potencial expansao da tecnologia. Ter filhos nao eh uma atitude ecologica, mas eh uma atitude q pode salvar o ambiente do futuro. Eh uma atitude humana de esperanca e amor a potencialidade.

Paradoxal, nao?

Sinceramente, essa eh uma das questoes ambientais mais complexas existentes, motivo de muita discussao, pq diz respeito ao individualismo de cada um, as decisoes pessoais q tomamos q refletirao no mundo todo (muitos nao levam isso em conta, mas nao sabem q os dados da ONU et al levam, e eles sao considerados na decisao de muitos atos q nos confrontamos diariamente). Em minha impotente opiniao de humana consumidora e geradora de poluicao, uma lastima q tenhamos chegado a essa dicotomia estupida.

Nossa especie passou dos limites, infelizmente.

*****************

(Puxa, esse comentario ficou muito pessimista, desculpa Bia. Mas eu tenho esperanca no futuro melhor, viu! E a Lia participarah desse futuro mais saudavel, tenho certeza, Bia! Estou feliz por ela.) :-)

Posted by: Lucia Malla at junho 19, 2006 10:57 PM

Esqueci de escrever que o comentário anterior era uma tentativa de resposta ao Alex.

Tchau.

Posted by: Milton Ribeiro at junho 19, 2006 10:21 PM

Não estou aqui para interpretar o Bia, mas chuto que ele pensa que quem quer filhos acredita, de alguma forma, num futuro melhor e que possamos contribuir para isto com nossa qualidade, interesse e amor ao formar um nova criatura, etc.

Quem não faria isso seria um cético. Faz sentido, não?

Posted by: Milton Ribeiro at junho 19, 2006 10:20 PM

Eu não critico quem não deseja ter filhos; é uma opção de vida. Uma opção que certamente não me serve: tenho dois filhos e penso que, se não os tivesse, não seria nada. Ou seria menos do que o nada que sou hoje. Afinal, a ser um nada, é muito melhor ser um "nada amado", muito amado.

Penso que acompanhar uma infância, ajudar a criança a caminhar, corrigi-la e orientá-la com amor, fazer o tema juntos, rir das piadas voluntárias e involuntárias deles, nos concilia com nós mesmos. Aprendemos muitas coisas com os filhos. Depois deles, temos que ser pacientes, eficientes, melhores. Você não pode ser cínico ou emitir dupla informação na frente de seus filhos. Ou você sabe ou não; se você combina algo, será cobrado por isto. Adoro essa relação de confiança e honestidade. E é isso que eu sinto que tu tens, Bia. Tu sabes que o ouro, que o mais precioso das relações humanas está no mais difícil: na relação entre pais e filhos. E eu intuo que és um mestre nessa relação. Senti isso quando te conheci, na forma como te referiste a tua filha Isabelle. Sorte tua a de poder ser assim, assim como modestamente tenho a sorte de ser o "pãe" que sou. O resto pode ser fundamental para nossa sobrevivência, mas sabemos que é secundário.

(Sabes o que me disse uma amiga muito inteligente? Que há uma maneira sem erros para se verificar se alguém é confiável ou correto para com os outros. Basta ver como esta pessoa se relaciona com crianças. Talvez seja uma bobagem, mas fiz o teste e ele revelou-se infalível.)

Grande abraço e parabéns pela crônica.

P.S.- Não vou nem falar sobre fogos de artifício, essa besteira.

Posted by: Milton Ribeiro at junho 19, 2006 10:14 PM

fiz um post... soh nao entendi a do pessimismo intrinseco...

Posted by: alex castro at junho 19, 2006 10:04 PM

concordo com a viva, bia. tem tanta criança por aí "terceirizada"... quanto ao não querer, eu mesma me debato em dúvidas há quinze anos sobre ter ou não outro filho. entre o desejo e o receio, o segundo tem ditado as regras. não é coisa assim tão simples. mas confesso sentir uma ponta de inveja ao ver lindos bebês como a lia (e tantos outros) e pais tão felizes como você. com certeza é um incentivo. bj

Posted by: cris at junho 19, 2006 8:53 PM

Algumas pessoas que não desejam ter filhos o fazem por estes motivos que você citou. Mas não se pode generalizar, né? Há outros que não têm filhos porque não se sentem capazes emocional ou financeiramente. Melhos não tê-los do que criá-los de forma irresponsável, não acha?
QUanto aos fogos, concordo com tudo. E ainda acrescento o perigo que correm aqueles que os acendem. Eu já queimei os cílios com fagulhas de morteiro. Não foi nada agradável, garanto.

Posted by: Viva at junho 19, 2006 6:26 PM

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