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abril 6, 2006

porto do desesperado - capítulo VI - os paquistaneses

Essa é uma novela colaborativa, leia o capítulo um, dois, três, quatro e cinco antes. Quem não quiser ler, não precisa.

Porto do Desesperado

Capítulo VI
Os Paquitaneses
[ou] Não se pode achar açafrão no meio de uma noite de tempestade de neve

Os dois homens estavam impecavelmente vestidos, com ternos bem cortados e casacos caros. Um deles tinha um cachecol preto, o outro tirou o grosso gorro ao entrar no restaurante. Lá fora, 10 graus abaixo de zero - e uma tempestade de neve se aproximava. Mesmo com o sistema de aquecimento ligado, demorou para que eles se sentissem totalmente à vontade. Ambos tinham a barba bem feita, mas a pele escura, o nariz aquilino e os olhos negros e profundos denunciavam que se tratava de dois árabes. Foi o que pensou o gerente, os garçons e a meia dúzia de clientes que voltaram os rostos para o lado deles quando abriram a porta deixando entrar a brisa fria do lado de fora. Como costuma acontecer, os canadenses estavam enganados. Azhad e Abdullah eram paquistaneses.

- Boa noite, monsieur. - Azhad havia moradado um tempo em Paris durante a praparação de um atentando, e arranhava bem o francês. - Eu e meu amigo queremos saber se vocês têm porco.

O maître pensou ter entendido "sorte" ao invês de "porco", e começou a rezar um pai-nosso bem baixinho, esperando que a mala de um dos dois - ou dos dois! - explodisse.

Ficou olhando fixo para os sírios, rezando, mudo, uma gota brotando na fronte.

- Er... excuse-moi, queremos saber se vocês servem porco aqui.
- Hã?
- Eu e meu amigo Abdullah queremos porco. De preference com molho agridoce.

Adbullah tenta ajudar o amigo:

- Costelinhas.

O maître fez uma checagem mental do estoque e, realmente, não havia porco. Nada de porco. Nem mesmo uma única fatia de lombo apimentado.

- Eu recomendo a nossa galinha ao vin...

A face de Adbullah mudou repentinamente. Um filme passou por sua mente. Desde quando apareceram seus primeiros dentes até os 28 anos de idade ele havia comido só e unicamente carne de frango. Ele não suportava mais galinha. Ele tinha verdadeiro ódio de carnes de aves. Há seis meses sua irmã Abnamillana havia sido internada com suspeita de gripe aviária.

O turco cerrou os dentes e ia puxar uma granada do bolso do paletó quando a tempestade chegou com tudo lá fora. Azhad segurou o braço do amigo.

- Calma irmão, não vamos estragar nossa missão...
- Nosso salmon a belle-meuniere é delicioso - interveio o maître.
- Er... Obrigado pela sua preocupação... Mas gostaríamos mesmo de comer porc.

Mais uma checagem mental e... não, não havia porco.

- Desculpe, senhor. Mas não temos porco.
- Bem, sabe onde podemos achar porco nesta cidade?
- Talvez os senhores encontrem porco em algum restaurante, mas eu não recomendaria que saíssem agora com essa tempeste...

Os homens se olharam.

- Sentem-se em uma de nossas mesas... Querem um vinho para aquecer? É por conta da casa...

Enquanto se acomodavam, Abdullah ranhetou:

- Azhad... Abdullah não quer carne branca, não quer galinha nem peixe. Abdullah quer porco.
- Irmão... Azhad está fazendo o que pode. Lembre-se que você tem uma missão importante, você é o homem-bomba dessa missão... Eu sei que você está de olho em todas aquelas virgens lá do céu, então acho que não devia comer porco...
- Azhad! - Abdullah alterou a voz - Já conversamos sobre isso! Não me importo de perder algumas virgens; o que eu quero... é... COMER PORCO!

O maître já vinha voltando com o vinho e assustou-se com o grito do árabe. Alguns clientes pediram le conte mas não podiam sair do restaurante, por le conte de le tempeste. Um chegou a praguejar: "Advienne que pourra!".

Tremendo, o vinho foi servido.

- Que tal um belo bife à oignon?
- Monsieur... É compreensível que o senhor não saiba, pois os canadenses são ignorantes... Mas em Pasquistão não comemos a santa vaca nem a demoníaca cebola. É uma proibição de nossas leis e de nossos livros sagrados.
- Mas... vocês podem comer porc?

Abdullah ficou vermelho. Azhad novamente o acalmou.

- Canadenses burros! Vocês não tem nem uma língua nem uma cultura de vocês; é tudo emprestado! Pois saiba quem homens-bomba, em missão, SÃO AUTORIZADOS A COMER LE PORC!

Silêncio mortal no ambiente. Um garçon deixou cair um garfo.

- Mas nós não somos homens-bomba, essa foi só uma piada.

E riram todos nervosamente.

- Senhores... Talvez eu lhes possa servir algumas guarnições; temos excelentes queijos, embutidos, azeitonas, patês, saladas... e temos um risoto com ervas e champignons que certamente irá agradá-los... Tudo por le conte de la maison.

Eles se olharam. As coisas estavam ruins, eles haviam chamado a atenção e a escorregadela de Azhad havia sido imperdoável. Sim, um risoto era mesmo uma boa opção.

- Non poule, non poulette! - alertou Abdullah, impressionando Azhad.
- Oui, Oui...

As coisas se acalmaram, ele passaram a bebericar o vinho, um garçon trouxe uma tábua de queijos.

Cerca de 15 minutos depois vieram os pratos e o maître trouxe o risoto num elegante rechaud.

O cheiro era bom e ele fez uma mesura ao abrir. Os paquistaneses se entreolharam depois de fitarem bem o risotto. Foi Abdullah quem perguntou, em francês capenga:

- Sans curry?

Azhad emendou:

- Sans açafran?
- ...

Azhad coçou a cabeça, levantou-se, olhou pela janela a tempestade lá fora...

- Abdullah, joga a granada!

costelinha.jpg

[Passo a bola para Nelson Moraes continuar]

Posted by biajoni at abril 6, 2006 2:16 PM

Comments

Pô, Biajoni, a sua parte deu de 10 a zero nas outras!

Posted by: Mr. Teeth at abril 7, 2006 4:25 PM

Genial a idéia. Agora vou lá ler de trás pra frente.

Posted by: Viva at abril 7, 2006 12:53 PM

Oba, mais personagens na jogada!!! Tá muito bom! E, Leila, to com voce, Daniel será o herói. Boto a maior fé!
Beijos,
Vanessa
PS: Biajoni, a Leila me passou a cópia do seu livro. Li tudo de uma vez. Depois volto aqui e desfio mais elogios, tá?! ;-)

Posted by: Vanessa at abril 6, 2006 8:20 PM

Time de primeira. Vai dar pra publicar.

Posted by: gugala at abril 6, 2006 7:39 PM

Cessa tudo que a antiga musa canta, que outro valor mais alto se alevanta. Ué. Vamo nessa, então. As soon as possible. ;-)

Posted by: Nelson Moraes at abril 6, 2006 7:14 PM

esse blog romance já tá merecendo virar um filme...

Posted by: Serbon at abril 6, 2006 5:43 PM

E põe trapalhões nisso ! E essa frase aqui vai pros Annales : « Como costuma acontecer, os canadenses estavam enganados. ». Até me deu vontade de comer uma costelinha :-) Beijocas e obrigada, agora vamos lá pressionar o Nelson !

Posted by: Ana Lucia at abril 6, 2006 5:09 PM

Esses terroristas trapalhões não irão muito longe. Mas quero ver se a Mariana e o Roberto são páreo para eles. Acho que o Daniel é que vai ter que salvar a pátria!

Posted by: Leila at abril 6, 2006 4:53 PM

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