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novembro 14, 2005

leonard cohen para o gutão

Reza a lenda que Leonard Cohen era poeta, um cara angustiado, lá nas plagas gélidas do Canadá. Um dia, quando já batia nos 30 anos, conheceu um violeiro cigano. Esse cara o ensinou a tocar violão e disse que só assim ele ia conseguir comer umas mulé. Levemente motivado, musicou alguns de seus poemas, juntou uma grana, chamou um produtor e gravou "Songs of Leonard Cohen" - composto por músicas com letras compridíssimas e quase sem refrões. A foto, na capa, foi tirada por Cohen com uma máquina automática. Nos créditos do disco está: "Cover Photo by Machine" - aí todo mundo queria saber quem era esse novo e talentoso fotógrafo: o Machine! É mole?

first cohen.jpg
(Cohen by Machine na capa do disco de estréia, com 33 anos)

O fato é que o produtor John Simon foi relevante para o disco: ele moldou o som que Cohen faria daí por diante. Ele botou o coro característico, fez prevalecer a voz (ainda bastante simples, não tão grave) em primeiro plano, declamando as letras e bolou arranjos suaves, com algo de experimental. Nesse sentido, o mais elaborado é o para a canção "Sisters of Mercy" onde o som de um brinquedo infantil (um trenzinho?) vai aparecendo suavemente forrando uma cama linda para a voz limpa do moço. O trenzinho passa de um canal de áudio para outro na gravação e isso era bastante... moderno! Estamos em 1966!

Involuntariamente, Cohen fica parecendo Dylan em "So Long, Marianne". Essa música ganha as rádios e é até anunciada como sendo de Dylan - existe alguma confusão sobre isso. Na bio de Dylan, Sounes diz que o bardo americano achava que o único que rivalizaria com ele em termos de poesia era Cohen. E Dylan teria ficado puto quando o encontrou nos bastidores de um festival no Canadá e Cohen nem parou de tocar o piano para cumprimentá-lo, quase ignorando-o. Hehehe, tomou, Dylão?!

Cohen tem certa obsessão por Joana D'Arc. Na contracapa do disco de estréia tem um desenho que viraria emblema do cantor. Ele só iria compor o clássico "Joan of Arc" mais adiante. No meu cd não tem o crédito do desenho, eu bem queria saber de quem é. "Songs of" termina com grunhidos e assovios de um Cohen bem agustiado. Creepy!

O segundo disco é "Songs from a Room". O bicho pegou gosto pela coisa e acho que conseguiu catar umas mulé com o primeiro disco. Nesse ele comete o clássico "Bird on Wire" e parece imitar Dylan propositalmente em algumas canções. Minha preferida é "History of Isaac". Um saco: esses discos eu comprei na Argentina, não tem créditos, nem letras, nem datas. O descaso talvez seja uma coisa latina, vai dizer?

Curiosamente, nesse "From a Room", Cohen grava uma música de outro (acho que só faria isso anos mais tarde no disco "The Future"), é a número 4, "The Partisan" que tem refrãozinho com coro em francês e é lindinha! O disco também termina com assoviozinhos... ele bota um assovio daqueles que a gente faz com a mão em concha, manja? Acho que na história mundial da música é a única vez que alguém bota um assovio desse tipo numa canção!

Aí tem "Songs of Love and Hate" onde ele assume dissonâncias e trabalha mais a música - sob uma voz mais cavernosa que a habitual. As músicas são ainda maiores. "Avalanche", a primeira, seria emblemática. "Diamonds in the Mine", a quarta, seria a mais "visceral" até aí (quase um reagge com final histriônico). Os destaques ficam para as duas últimas, "Sing another song, boys" (com participação das vozes infantis da The Corona Academy de Londres) e a fatídica "Joan of Arc" (que conta com uma mixagem também ousada). "Famous Blue Raincoat", faixa 6, faria sucesso e é também nome do disco que a parceira Jennifer Warnes faria com hits do bardo.

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(Esse disco foi lançado em vinil no Brasil. Dá pra achar em sebos. É Lindo!)

Já mais "sambado", Cohen comete "New Skin for the Old Ceremony". Mais elaborado musicalmente, esse é meu preferido de todos os seus discos de estúdio. É cheio de referências pop, à psicanálise, à literatura... Ele deixa de lado a poesia profunda e faz letras para a música, com refrões, pegada, etc... Já começa bem com "Is This What you Wanted" que tem várias mudanças de andamento. Mas o bicho pega entre as faixas 3 e 6. A 3 é "Lover Lover Lover", onde ele começa expiar culpas familiares para trazer a amante de volta. Hehehe. O que a gente não faz, vai dizer?

Depois tem as canções "Field Commander Cohen" e "Why Don't you Try", quando ele mostra seu lado crooner, que começa a brotar no vozeirão de cachaça e fumo. A segunda canção é quase música de cabaré. A coisa explode na faixa 6, "There is a War", um rock que faria a cabeça de muita gente, como, por exemplo, Michael Stipe, do REM. São três minutos quase punk, mesmo tendo violinos. Hehehe, Rafael Galvão não vai concordar nunca com isso, vai dizer?

sacanagem de bom.jpg
(A música 9 é a uma das mais lindas -e curtas!- de todas: "Who by Fire?", onde ele canta paripasso com Gail Kantor. Essa gravação é definitiva, nem com a Jennifer Warnes ao vivo ficaria melhor)

Bom, aí nesse meio, tenho uma raridade: "Live Songs" que, até onde sei, saiu em vinil apenas na França e reúne algumas músicas ao vivo de apresentações em 70 e 72. A foto da capa é linda, mas não tenho muitas informações mais. É um disco-curiosidade... Mas vale ouvir Cohen solo no violão em "You Know Who I am" e numa versão linda de "History of Isaac". E há uma catártica "Please Don't Pass Me By" de 13 minutos (!).

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(Fodão na capa do disco ao vivo na França)

Já transformado em crooner, temos Cohen com mezzo-vozeirão em hits dançantes em "Various Positions" - que é o que eu chamo de "disco pra transar". Uma das vocalises é a linda Anjani Thomas. Ela abre com ele "Dance Me To The End of Love", trágica, mas quase patética no arranjo de batidinha programada. Não se engane: é um grande disco. "The Law" mostra o petencial vocal de Cohen para o que ele faria depois. Algumas músicas desse disco seriam inseridas no “imaginário Cohen” depois, como "Heart With No Companion", mas nenhuma seria tão regravada e adorada como "Hallelujah". De John Cale a Jeff Buckley, a HUMANIDADE cantou esse linda canção.

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(Nesse meio de caminho ele lançou um disco que foi essencial, "Death of Ladies Man", que é produzido por Phil Spector. Minha cópia sumiu. Não gostava tanto do disco, apesar de "The Guests" e "Memories" terem excelentes letras)

A voz do NÊGO pegou consistência, mas os anos 80, com seus sintetizadores new-wave, foram implacáveis nas MODERNIDADES. Com grandes vocalises como contraponto, Cohen fez um disco fraquíssimo, mas que contém uma de suas melhores letras... É "I'm Your Man".

Eu o acho quase inaudível... Mas não dá pra não se emocionar com a faixa título (quase cabaré, uma das mais vintage do disco) ou com "Tower of Song" (com Warnes no backing). Cohen mostra que até se adequa às modernidades em "Everybody Knows", faixa 3. (Na capa ele aparece de terno riscado, comendo uma banana)

Em 94 é lançado "Cohen Live" que, para mim, é o melhor de todos os discos do canadense. Todas as GRANDES canções estão ali, com arranjos excelentes, com músicos de primeira e um Cohen afinadíssimo, bem-humorado, com um pé na interpretação e outro no personalismo. A versão de "I'm Your Man" é simplesmente maravilhosa.

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Diz a lenda que foi sua mulher à época, a atriz Rebecca DeMornay, quem levou-o para Hollywood. Oliver Stone viu o potencial sonoro/poético de Cohen e usou duas das músicas de "The Future" em "Assassinos por Natureza", sintomaticamente as músicas que abrem e fecham o filme e as duas primeiras e melhores do disco com a trilha, de 92. "Waiting for the Miracle" seria eleita uma das melhores músicas da década de 90 numa votação da Amazon. Música quase não há: há o vozeirão e a poesia de Cohen; como no início.

(Bom, aí a gravadora lançou mais uma "ao vivo", de 1979, legal, mas nem se compara ao de 94)

O último disco de Cohen que tenho é o "Ten New Songs". Eu achei que ele abusou de sussurros e tentou fazer um disco soul para transar. É bom lembrar que no início dos 90 Cohen se internou num mosteiro budista e viveu recluso por quase nove anos, compondo músicas e pintando. A impressão é que perdeu o senso crítico e o tesão que alimentavam sua poesia musical.

De qualquer maneira, esses 10 discos de Cohen que estou te mandando, Guto, dão um panorama bem amplo da carreira do cara - um dos grandes artistas da música mundial contemporânea; grande poeta também. Espero que goste dos discos e que essas notas tenham sido úteis, lindão. Só copiei esses discos pra você pois nenhum está em catálogo no Brasil. Você encontra apenas essa coletânea - que é até legal - no Submarino. Além do último, "Dear Heather", que vc já tem, né?

Biju procê e pra Mônica.

;>)

Posted by biajoni at novembro 14, 2005 2:24 PM

Comments

Pô, Bia, andei baixando umas músicas duns negócios que vc gosta, tipo o Cohen, o Lou reed e o Nick Cave, e até uns Velvet Undergroud. Parece tudo a mesma coisa: um cara triste de voz sobria cantando dentro de um barril...hehe.

Não vá me excomungar, Guei!

Posted by: MarcosVP at novembro 17, 2005 2:17 PM

Tô doidinho para mudar e ganhar uma "Photo by Machine". Só que o cigano não dá as caras por aqui...
Agora falando sério, Leonard Cohen é massa.

Posted by: Zé at novembro 16, 2005 5:59 PM

Eu gosto da trilha sonora do Assassinos por Natureza e lá tem duas músicas dele!
Muito boas... Reza a lenda que o Renato Russo queria te ruma voz igual a dele!

Posted by: Maitê at novembro 15, 2005 9:18 PM

Esse é o Biajoni que eu conheço e reconheço! Belo post sobre este que é um trovador medieval que caiu em uma dobra do tempo. Beleza.

Posted by: Flavio Prada at novembro 15, 2005 3:34 PM

Santa ignorância, Batman.
Nunca havia ouvido falar desse cara. tou baixando as músicas agora mesmo.
Valeu pela dica...
vc tbm ganha oito por cento, como o Alex Castro? rs...
Abração.

Posted by: Beto Lins at novembro 15, 2005 11:31 AM

Bia, eu tenho a edição americana do álbum de estréia do Cohen. Tem todas as letras. Se você quiser, manda um email pra mim que eu passo no scanner e te envio, ok?
Grande abraço!

Posted by: Ricardo Montero at novembro 15, 2005 2:19 AM

Caralho, viu? Eu ouço o Cohen e gosto. Agora, depois de ler seu texto, saquei muito mais. Pena esse post ter demorado tanto a ser publicado por causa desses desencontros que a vida apronta.

Sabe o que senti ao ler? Que esse texto serve para ser dito, e não só lido. De repente valeria a pena você fazer um podcast, podcasting ou sei lá que nome a coisa tem com esse texto. Quem sabe, né? Já pensou essa voz mela cueca e calcinha falando do Cohen? Ia ficar muito legal.

E eu adorei mesmo pegar o pacote hoje. E adorei também o desenhinho da meinina de cabelo azul que amava a natureza.

Biju, bijão, beijoca.

Posted by: Mônica at novembro 14, 2005 11:32 PM

Parece que esse Live Songs saium em 73 no Reino Unido também.

ó: http://musicbrainz.org/album/b0c4ec1f-ab7a-450c-ac8e-a7cc3a7da49a.html

Posted by: marcos at novembro 14, 2005 9:15 PM

Dez discos? Minha nossa! Ainda bem que não houve pirataria. Detesto.

Vais estar em Sampa sábado, na Oca, às 18h? Gostaria de ver se teus óculos azuis foram comprados no mesmo camelô em que o Tiago comprou os dele.

Posted by: Milton Ribeiro at novembro 14, 2005 5:58 PM

Eu também quero agradecer bastante. Me deu uma coisa boa quando peguei hoje o pacote... Parecia milagre. hehehe

Beijão. E, se o Guto tivesse dois etc... eu deixava ele dar um pra você. ;)

Posted by: Mônica at novembro 14, 2005 5:22 PM

Putz, Bia. Não tenho nem como agradecer. Presentaço. E ainda tem esse post. Achei que teria que me enfiar na internet para pegar as informações e você entregou o pacote completo. Brigadão mesmo. É aquela história, se eu tivesse dois...

PS. Ainda não ouvi tudo, mas os dois primeiros são muito legais, o "Songs of love and hate" também. O "I'm your man" é esquisitão mesmo.

Tenho "Dear Heather" e o "Field Commander Cohen", um ao vivo de 1979, tem "Lover, Lover, Lover". Foi lançado no Brasil, mas está fora de catálogo.

Posted by: Guto at novembro 14, 2005 4:14 PM

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