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junho 23, 2005
a total certeza de nada em sampa - parte 1.
O real relato do encontro de blogueiros na Vila Madalena
De minha cama eu consigo ver a calçada da rua. Abri um olho para conferir a hora e percebi alguém sentado na calçada. "Um velho indigente", pensei. Virei para um lado, para outro, não consegui mais dormir. Eram sete da manhã, sábado.
Contrariado, levantei. Lavei o rosto, escovei os dentes, desci para preparar o café e alimentar Nicolau Sevcenko, meu cão. Passei pela janela e observei melhor o velho; ele estava em pé agora, olhava fixamente para dentro de casa através do vidro da janela - não tenho venezianas. De roupão, saí e Nicolau veio me encontrar... o velho aproximou-se do portão. Tinha uma cara estranha, conhecida. Busquei na memória, mas não encontrei. Passei por ele, servi a comida, brinquei um pouco com Nicão e, na volta, o velho estava com as mãos no portão.
- Posso ajudar?, perguntei.
- Eu quero ir.
- Como?
- Eu quero ir com vocês para São Paulo, para o encontro na Vila Madalena.
O velho tinha uma voz firme que não casava com o resto: cerca de um e setenta, braços finos, rugas espalhadas pelo redor dos olhos, uma vasta barba branca... Era o sábado do encontro de blogueiros na Vila Madalena, o amigo Gustavo Brigatti ia passar em casa por volta das três da tarde. O encontro havia sido amplamente divulgado na blogosfera e aquele velho devia ter visto... E devia saber onde eu morava... E estava se convidando para ir junto... Será?
Olhei fixo em seus olhos. Ele podia ser um leitor do meu blog. Ele podia ser algum blogueiro até. Porra, eram sete e meia da manhã! De onde veio esse cara? O que fazia ele ali naquele horário, de onde viera? As idéias estavam bem confusas em minha mente. Não podia dizer nem que sim nem que não, assim como me sentia intimidado por aquela presença estranha, ali, segurando com mãos velhas as grades do meu portão vermelho.
- Mas... mas... quem é o senhor?
- Eu sei que você vai achar estranho...
- ...
- ...mas eu sou Deus.

Minha cabeça rodou. Era um pirado, sem dúvida. Um cara dizendo ser Deus estava ali querendo carona comigo para um encontro de blogueiros? "Biajoni", disse eu pra mim mesmo, "você definitivamente TEM que parar de beber!". Pensei em rir um pouco, mas o cara podia até mesmo ser um maluco perigoso - eu moro do lado de um hospício.
- Mas Deus... o que você, digo, o Senhor, quer fazer num encontro de blogueiros?
- Ah, não sei... eu já estive em todos os lugares do mundo, em vários eventos importantes... Mas nunca estive num encontro de blogueiros!
As coisas que ele falava faziam sentido, formavam idéias claras... Ele parecia, sem dúvida, estar falando a verdade.
- Esse não é o primeiro grande encontro de blogueiros?, perguntou.
- Acho que é... sim... mas nem sabemos quem vai estar lá, se vai estar todo mundo...
- Creia em Deus: vai estar todo mundo!
Pronto: eu tinha um Deus que tratava de si na terceira pessoa - era tudo o que eu precisava: um Deus ególatra que bem podia ser blogueiro.
- Como é que o Senhor sabe que vai estar todo mundo lá?
Ele fez cara de escárnio, como se soubesse de tudo. Achei-me idiota por ter perguntado.
Num átimo pensei que seria muito, muito estranho chegar no encontro com aquele velhinho. Se o apresentasse como Deus aí sim toda minha credibilidade iria por água abaixo - o pessoal nunca acredita nas histórias que eu conto, apesar de todas serem absolutamente verdadeiras! Imaginei-me chegando e... "vim com Deus, ele precisava de uma carona!".
NEITHER GOD NOR THING
- Olha..., continuou o Todo-Poderoso, eu posso adquirir a forma que você quiser... Você pode me apresentar como um amigo de infância... eu posso ficar parecido com o Alexandre Soares Silva...
- Não!, gritei. Acho melhor não!
Abri o portão e convidei o velhinho para entrar. Ainda que fosse um demente não parecia representar qualquer perigo.
- Eu falei que podia parecer com o Soares Silva porque ele é um sujeito calado e está me devendo uns favores... Ele me sacaneou num livro... Podia ir como ele e, sei lá, tomar uns chopes e fazer uma imitação de Carmem Miranda...
- Deus...
- ...
- O Soares Silva É a Carmen Miranda.
- Ah é... É verdade!
Botei a água pra ferver. Ele sentou num pufe calado, como se tivesse ficado aborrecido por ter tido uma idéia ruim. Tranquilizei-o.
- Bom, você poderia ir como Rafael Galvão...
- Não... O Rafael chamaria muito a atenção, as pessoas iriam querer falar comigo pensando que era ele e eu não saberia como falar sobre filmes antigos ou gravações obscuras dos Beatles... Talvez quisessem falar comigo sobre essa discussão dele com o Pedro Sette Câmara e, pra ser sincero, estou acompanhando de longe. O indivíduo já me encheu o saco quando escreveu sobre o movimento negro numa universidade aí...
- Entendo...
- Queria ir como alguém que ninguém conhecesse... E se eu for como o xy7htk?
- Nem sei quem é!
- Por isso mesmo!
- Não, Deus... Acho melhor o senhor ir como um amigo nosso daqui, alguém como... como... o Dênis!
Era uma boa idéia.
O Dênis é um grande amigo meu e de Brigatti, aqui de Americana, sósia de Enrique Iglesias, grande catador de mulheres, sujeito mediamente calado... O Dênis ia conosco, mas as mulheres não o deixam em paz e ele decidiu que era bem melhor ficar em Americana num sábado, rodeado de mulheres, do que viajar 150 km para encontrar um povo que ele nunca viu... Quem pode tirar a razão do Dênis?
- Eu sei quem é o Dênis, disse Deus.
- ...
- Ele também me deve uns favores: eu deixei ele passar duas vezes na fila da beleza.
- Então vai de Dênis!
- Ok!
- O Senhor precisa pegar autorização com ele - ou algo assim?
- Não. Fica tranqüilo que eu me viro com a parte burocrática.
- Beleza!
Mal acabei de falar e aquele velhinho no pufe, num puf!, virou o Dênis!!!
- Jesus!, exclamei.
- Num blasfemeia, retrucou Deus.
A água fervia, Nicolau olhava em silêncio, certo de estar diante da Maior Divindade de Todos os Tempos, eu pensei em abusar do Senhor pedindo alguns favores, tipo "mata esse, dá os números da MegaSena, três centímetros a mais seria ideal... etc...". Mas Deus leu meus pensamentos...
- Olha Bia - posso te chamar de Bia? - o fato de você me dar essa carona, de me levar nesse encontro, não vai te trazer nenhum benefício... muito pelo contrário... Depois do encontro eu vou ter que apagar a tua memória... E a do Brigatti!
Puxa! Mais essa? Como é que eu poderia escrever sobre o encontro depois, tendo a memória apagada? Por outro lado, como podia negar um favor Àquele-Que-Tudo-Vê-E-Que-Comanda-O-Universo?
Servi o café.
- Cafézinho fraco, hein?, reclamou Deus.
Tive a certeza de que o Homem era pessoa difícil.
PETER FONDA E QUE SE FODA
Estava papeando com Deus, ele me contando sobre a chatice do céu, sobre o Espírito Santo que vive a voar, empuleira-se nos móveis e suja-os, quando Brigatti chegou.
- Ô Dênis, seu GUEI!, resolveu ir?
- Ér...
- Bom, Briga... Esse não é o Dênis...
- Hahaha... É, não é não... Esse aí é Deus! Hahaha...
O insolente jovem fazia pouco, mas acertara na primeira.
- Briga - posso te chamar de Briga? - eu sou Deus... Vocês me dão uma carona?
- Hahaha... Deus... Essa é boa!
Um segundo de silêncio se fez.
- Vou provar que sou Deus.
- Hahaha..., o cabeludo tinha espasmos de riso.
Brigatti estava com uma camiseta da Harley Davidson.
- Durante três anos, no final da década de 60, eu fui Peter Fonda!
Brigatti se calou.
- Eu queria viver algumas daquelas aventuras e tomei o corpo de Peter Fonda emprestado. Você quer saber algo sobre Fonda?
- Ãhn... quero... Fonda, digo, o Senhor, fumou maconha com Nicholson naquela cena de "Easy Rider"?
- Fumei.
Pronto, Brigatti estava crente.
Apanhei minhas coisas e ganhamos a rodovia. Deus fez um passe e o ponteiro indicativo do combustível mostrou que o tanque estava cheio.
- Mas não vou pagar a conta nem o pedágio: isso aí é com vocês.
Tínhamos combinado de passar na rodoviária apanhar Alex Castro. Chegamos a Sampa e peguei o caminho para a estação - era eu quem dirigia, apesar de ser Deus quem me guiava.
- Posso pedir uma coisa?, perguntou Deus.
- ...
- Não pega o Alex não...
Poxa, já tínhamos combinado de apanhar nosso amigo... Como Deus podia pedir algo assim?
- O Alex é muito libertino. Tou meio puto com ele... Mas não é por isso que eu quero que vocês deixem ele lá... É porque ele vai para os Estados Unidos em breve e tem que aprender a se virar sozinho. Deixa ele se virar sozinho; vamos ver se ele chega à Vila Mariana...
Os argumentos de Deus sempre são muito bons. Então deixamos lá o Alex - seguimos para o bar, o lindo Canto Madalena. Apertamos, eu e Brigatti, a tecla FODA-SE.
CHEGAR CEDO É SE EMBRIAGAR PRIMEIRO
- Posso pedir uma porção de bolinhos de arroz com carne seca?
Esse era Deus querendo abusar.
Dissemos que sim, né?
Os chopes chegavam e todos nós, os três, bebíamos alucinadamente. Deus demonstrava uma sede absurda.
- No céu só tem chope Schin... Eles ganharam todas as licitações até hoje, eu sempre suspeitei que tinha cambalacho. Agora vão fechar a fábrica. Graças a Mim!
Os chopes Brahma desciam como água benta.
E eis que então aparece uma garota. Uma bela garota de óculos. Abre um sorriso e se aproxima de Dênis-Deus. Ele sorri de volta.
- Oi Dênis, há quanto tempo!
Beijam-se.
Dênis tinha dito a essa amiga que ia estar no bar no sábado e, quando desistiu de ir, esqueceu de avisar. Era Priscila. Deus-Dênis fez uma piadinha com o nome dela e um filme antigo com gays que cruzam um deserto. Todo mundo ficou meio constrangido.
Ela se juntou a nós nos chopes e iniciou conversa com o cara que achava ser o amigo antigo. Eu e Briga temíamos sobre o que podia acontecer. Uma hora e cerca de meia dúzia de chope cada um e a mente começava a mostrar alterações... Deus vestido de Dênis era só simpatia para com Priscila.
DITADURAS E DITAS DURAS
Chega Idelber Avelar, junta-se a nós. Deus aproxima-se do meu ouvido.
- Achei que ele fosse mais alto e tivesse parado de fumar.
O cara fuma Carlton, como eu. Além de ostentar barba, usar gírias antigas como "bicho", "cara", "meu", "brasa", gostar de Velvet Underground, ainda fuma Carlton? Agora é que vão dizer que somos gêmeos!
O primeiro assunto, até à guisa de INTRODUÇÃO do nobre blogueiro, vindo diretamente das alterosas, foi as ditaduras na América Latina. Deus não participou, ficou ouvindo as lembranças de Prisicla, do tempo em que moravam em Itu e tudo era grande.
Bom tempos!, exclamou Deus.
Chega Alexandre Inagaki. Deus levanta-se para cumprimentá-lo.
- Corre uma história por aí, Ina - posso te chamar de Ina? - que quando o adolescente atinge certa idade o pai o toma pela mão, leva-o até um computador conectado na internet e diz: "mocinho, chegou a hora de você ler o Inagaki"! Você é o cara que desvirgina blogueiros!
Inagaki riu, algo constrangido com a comparação. Mas eu, Briga e Idelber concordamos com Deus - então o dono do "Pensar Enlouquece" ficou lisongeado com a piadinha do Dênis.
Pensei em passar a chamar Deus de "Dêusni" - num trocadilho que seria uma piada interna entre eu e Brigatti -, mas Deus mirou meus olhos e antes que eu falasse lançou-me um olhar de reprovação. Senti como se minhas bolas entrassem para dentro da pélvis. Foi horrível.
- Bia, você acha mesmo que o "Fantasma do Paraíso" é o melhor do DePalma?, pergunta-me Ina.
- Ah, Ina...
- Você é idiossincrático...
- Bom...
- Fala sério!
- É uma escolha afetiva, vai dizer?
E ficamos por um bom tempo falando de filmes obscuros, diretores de fotografia russos, grip-men austríacos e mulheres do cafézinho de Bauru. Foi quando aconteceu.
Um turbilhão de mulheres começou a entrar. Muitas mulheres. Mulheres blogueiras e não blogueiras. Mulheres de todas as formas, gostos, tipos, tamanhos. Parecia um milagre e eu olhei desconfiado para Ele. Ele fez cara de impressionado e olhou para o próprio pau (ou seria o pau do Dênis? Não sei). Priscila ficou meio chateada. Idelber levantou atiçado. Ina lambeu os beiços nipônicos.
Brigatti acendeu um charuto. Todos sabem que quando o Briga acende qualquer coisa é porque está aceso o suficiente para fazer uma cagada qualquer.
Posted by biajoni at junho 23, 2005 11:52 AM
Comments
Deus EXISTE!
eu sabia...
Posted by: FêB at outubro 18, 2005 6:44 PM
Meu Dênis, digo, Deus, que pusta post !!!!! Foda, cara. Muito foda.
Posted by: Renato K. at junho 27, 2005 3:01 PM
Ainda bem que você foi ao encontro. Como é que ficaríamos sem a versão verdadeira?
Posted by: tesco at junho 24, 2005 6:40 PM
Olha, eu não fui lá, mas depois de ler isso foi como se eu tivesse ido. Inveja ! :)
Posted by: smart shade of blue at junho 24, 2005 6:15 PM
ô rapazes, eu não fui.
deus me perdoe.
meu filho embarcou para a europa e eu passei o dia no aeroporto.
peninha.
Posted by: franka at junho 24, 2005 3:11 PM
Nobre Biajoni, linká-lo foi antes, um prazer meu. Quanto ao seu Uno 88 batido a álcool, eu, como proprietário de um Gol 92 batido à alcool, e que por vezes eu chamo de machão - desde que eu comprei, ele só me fode - me solidarizo convosco. Só não deixo ninguém falar mal dele. No máximo, se alguém reclama que ele está batido, eu replico: "stirred! not shaked!".
É uma idéia...:-)
Abraço.
Posted by: MarcosVP at junho 24, 2005 10:46 AM
Sempre apareço por aqui, mas hoje é a primeira vez que comento. Só posso dizer uma única palavra: SENSACIONAL. Beijocas
Posted by: Yvonne at junho 24, 2005 6:59 AM
Protesto! "Cara" e "bicho" eu uso, "meu" de forma nenhuma e "brasa" eu nem sei o que significa!
Posted by: Idelber at junho 24, 2005 5:26 AM
Charlie e Andy Kaufman, Cortázar, David Lynch...nenhum deles é páreo para a mente do Bia Jones!
Posted by: Patrícia at junho 24, 2005 3:55 AM
Chatona, EUUUU???
Que que eu fiz, Bia???hahahaha
E o melhor meeeeeeeeesmo é o relato de tudo isso! =D
Posted by: Lucy In The Sky at junho 23, 2005 7:31 PM
Bia, se rolar um encontro dos blogueiros brasileiros nos Estados Unidos, a gente paga a sua passagem.
Posted by: Leila at junho 23, 2005 5:58 PM
Que merda eu li a parte 2 primeiro. Eu queria ter estado lá, todos vocês devem ser lindos pessoalmente. Bjus. Principalmente o Rafael Galvão.
Posted by: Simy at junho 23, 2005 3:46 PM
A sua sorte é que Deus irá te perdoar, afinal de contas, essa é a profissão dele.
Posted by: Roberta Febran at junho 23, 2005 3:23 PM
Bia, eu jamais poderia ter entrado de ferias sem ler isso! Um classico do realismo fantastico!
Posted by: Lucia Malla at junho 23, 2005 1:39 PM
Pelamordedeus, Bia!!! Genial, genial!!!
Bjo, criatura!
Posted by: Cipy at junho 23, 2005 1:23 PM
Se Deus é por nós, quem será contra nós? :)
Posted by: Rafael at junho 23, 2005 12:05 PM