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junho 23, 2005

a total certeza de nada em sampa - parte 2

O real relato do encontro de blogueiros na Vila Madalena - Parte 2

(leia a parte um aqui)


PARALELISMO, FALTA DE FOCO E SEXO ANAL

A chegada de Donizetti e do Homem-Baile (acompanhado da Mulher-Baile, que deu um baile no marido - desculpem o trocadilho tosco) trouxe à baila um assunto espinhoso e delicado: aquilo na capa do disco "Todos os Olhos", de Tom Zé, seria mesmo um cu?

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A questã ancestral começou a ser debatida e confessso que me exaltei. Pessoas mais qualificadas que eu já disseram que não. De qualquer maneira, achei propícia a hora e o assunto para distribuir entre os presentes alguns exemplares do meu livro (ainda não lançado, eram apenas cópias toscas impressas artesanelmente) "Sexo Anal - Uma Novela Marrom". Foi o que fiz.

O constrangimento foi geral. Num canto, Deus parecia me repreender, mas logo Priscila chegou com um chope e uma dose de cachaça Seleta e Ele abriu um sorriso de esquecimento e bebedeira delicioso. Aproveitei meu momento.

Alguns dos presentes estavam acompanhados de seus pares e o livro, de título grosseiro e conteúdo idem, que era passado de mãos em mãos se mostrou alvo de conversas e discussões paralelas que me deixaram intrigados... Queria participar de todas elas, ver o que falavam, defender minha OBRA. Eu me comunicava com um povo aqui, com um povo ali... Risinhos de escárnio e marotos se misturavam. Duas grandes blogueiras que estavam acompanhadas puseram-se a ler e eu fiquei um pouco envergonhado. Idelber me puxou para um canto e me ofereceu cachaça.

- Relaxa, Bia.

(Era uma piada interna!)

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Roberta Febril, no meio da confusão, acabou ganhando dois exemplares - com autógrafos diferentes e tudo! Foi quando chegou o Marmota e o livro tinha acabado.

- Conta a história aí pra mim, Bia -, pediu aquele que, às vezes, é uma PEDRA.

Comecei então, fora do meu controle nervoso, a contar e gesticular sobre a trama frágil do inconsistente livro. Minha pantomima foi chamando a atenção e, quando vi, todos olhavam em minha direção. Eu estava joelhos, língua para fora como se lambesse um guaxinim, com os óculos enfiados no ouvido esquerdo.

Levantei com um toque nos ombros. Era Deus.

Pedi licença para os presentes. Ele queria falar comigo.

- Escuta, Bia...
- ...
- Você está chamando muito a atenção...
- ...
- Você não pode estar no mesmo ambiente que Deus e chamar mais a atenção que Ele, vai dizer?

Considerei.

A INVASÃO DOS KENJIS KAMIKASES

Segurei meu tchan, depois dessa comida de toco de Deus.

Respirei fundo, procurando por Brigatti que tinha me abandonado, tinha me deixado passar pelo ridículo de fazer meu stand-show achando que fosse Seinfeld. Às vezes eu tenho A CERTEZA que sou Seinfeld.

Virei meu pescoço procurando o terrível amigo e tive uma visão estranha: o local estava tomado por nipo-brasileiros! Para todos os lado que olhava via olhos puxados e pessoas falando sobre ninjas, sukiaky, a maneira certa de cortar o salmão e o "Império dos Sentidos". Um cara do meu lado contava que fez dois anos de nunchaku! O cara com a Bibi ensinava Idelber a fazer origamis. Lá no canto, um japa estranho, lia um livro do Reinaldo Azevedo. Ele parecia ser o Grande-Japa-Controlador-De-Todos-Os-Japas - o Deus-Japa que faz todos os japas se parecerem e fazer as mesmas coisas. Era Kenji-san!

O Todo-Poderoso chegou-se para mim.

- Fica frio. Se eu estou aqui você acha que o Deus-Japa também não ia querer vir?

Zen, Kenji-san fazia tipo de "adolescente fissurado por trens" quando, na verdade, tem a intenção de dominar o mundo discordando de todo pensamento ocidental. "Vou ficar longe desse cara", pensei. Foi quando Kenji-san veio correndo, e se jogou contra meu peito se transformando imediantamente numa borboleta azul e num exemplar do "Buda" de Jorge Luis Borges e Alicia Jurado.

- Você foi provocar ele...!, disse o "meu" Deus.

UMA MELECA DE NARIZ QUE NÃO SAÍA POR NADA!

Tarde da noite, idéias atrapalhadas, chega Alex Castro. Os flashes espoucavam alucinadamente: ele é mesmo uma celebridade!

Visivelmente chateado comigo, passou não dando bola e foi se encontrar com Idelber e Ina. Nem cumprimentou direito nosso amigo Nababu (que também tinha vindo do Rio de Janeiro), que ficou puto e comentou comigo:

- Queria que o cu do Alex pegasse fogo.

Castro chegou acompanhado e acompanhado ficou durante toda a noite, não dando um dedo de prosa para mim. Segundo Deus eu não devia me preocupar.

- Muita gente acha que o Alex tem complexo de Édipo, síndrome de Sísifo ou é muito narcisista. Mas não é nada disso. É que ele tem certeza de que é Eu!

Eu ri.

A idéia do encontro partiu de mim, é verdade, mas foi Alex quem botou pilha. Ele queria conhecer algumas pessoas antes de encarar o doutorado nos EUA. Depois da bebedeira no Canto Madalena ele iria conosco para Americana onde pretendia fazer uma pesquisa sobre a influência da flexibilidade do rabo da lagartixa na literatura caipira. Não podíamos ficar brigados; eu tinha que tentar uma aproximação, dizer que não o pegamos na rodoviária por um desígnio de... de... Deus!

Foi o que fiz, falei com ele.

- Quero que Deus se foda!

Dênis-Deus ouviu! Um calafrio percorreu minha espinha começando pela terceira cervical e acabando no períneo.

- Num fala isso não, Alex! Deus te fode!

O carioca não deu atenção.

Duas pequenas chamas brotaram dos olhos de Deus - mas ele não pôde falar comigo ou fazer qualquer coisa naquele momento pois estava num canto atracado com Priscila - a quem ele chamava de "Minha Rainha" (sic).

Fiquei sentadinho num canto, falei um pouco com Alê Félix na esperança de que ela dissesse que queria me dar uns 50 mil dólares pelos direitos de "Sexo Anal" mas isso, claro, não aconteceu. Se tivesse acontecido é claro que eu não estava aqui, perdendo meu tempo, fazendo esse relato... Estava no Hawaii com duas nativas me chupando os glóbulos!

Enfim, como dizem os franceses...
Deus passou por mim para ir mijar.

- Vou foder esse Alex. Primeiro ele vai ficar com uma caca de nariz tão entalada que não vai conseguir tirar por dois dias!
- Caralho!
- O outro castigo eu não posso te falar!

Bati o olho em Alex e ele estava com meio dedo mindinho dentro da narina esquerda. Marmota tentava ajudar, mas a caca realmente estava entalada, parecia ter sido colada com Super-Bonder.

Eu tinha medo de pensar sobre qual seria o outro castigo.

DANÇA.jpeg

UMA SATISFAÇÃO ESPECIAL

Eu já tinha visto um coroa num canto, camisa azul, jeitão de playboy.
Mas fui saber que era Iraldo, do blog Escrúpulos Precários, bem depois. Mas ora, sou fã do homem, fiquei lá papeando um pouco quando, subitamente, todos começaram a fala em ir embora...

PÃO COM MANTEIGA NO CU É ROLA

Alguém teve a excelente idéia de tomar café em alguma padaria - "para fechar a noite". É assim: as pessoas não se contentam em extrapolar o horário; elas querem foder de vez a condição física.

Nessa altura estava Deus a falar indecências no ouvido de Priscila, Brigatti a bocejar pelos cantos reclamando saudades da namorada e Alex pedindo para chupar os dedos dos pés da garota que chegou com ele. Achei o quadro bastante estranho, muito mesmo. Mas minha razão parecia ter abandonado meu corpo. Era como se ela tivesse apanhado as malas e tivesse mudado para uma região do interior de Minas, para uma cidade chamada Salinas.

Aí, exatamente nesse momento de saída do bar, Alex Castro botou suas malas no carro de Brigatti. Nem eu nem Deus vimos.

Fomos então para a padaria. Alguns comiam lanches, outros salgados madruguentos e outros ainda, como eu, arriscavam pedaços de bolo com café. Teve um camarada que pediu pão com manteiga na chapa - mas me recuso a lembrar do sujeito.

Uma aflição grande se abateu sobre Briga. Ele queria ir embora! Ele precisava ir embora. Ninguém sabe direito (nem ele) o que aconteceu. Ele tinha uma necessidade física de ir embora. Isso já aconteceu antes conosco, sempre quando ele tinha vontade de cagar. O cu dele é caipira: só caga em casa. Mas não parecia ser isso... Não existia um argumento lógico para irmos. Eu não pensava sobre isso, sobre ir embora ou não. Na verdade, eu pensava em NADA.

Deus estava com a mão dentro do sutiã de Priscila - a imagem era bem interessante:

- Bia... Vamos embora, larga o Alex aí.
- Que isso, Deus, digo, Dênis - posso te chamar de Deus? - não podemos fazer isso com Alex...
- Podemos sim... Ele mandou eu me foder... E ele vai para os EUA; precisa aprender a se virar!
- Mas Deus... É... é... muita crueldade!!!
- Você precisava ter visto quando eu matei todo mundo com o dilúvio! Aquilo sim foi crueldade!

Concordei com a cabeça.

FOI ASSIM - OU NÃO

Saímos de fininho, deixando Alex lá. No banco de trás, Deus foi malhando a Priscila que só exclamava "ai meu Deus, ai meu Deus!".

Deixamos a moça e, num segundinho, estávamos em Americana. Quando fui tirar minhas coisas do carro, vi a mala de Alex.

- Bia... Desliga o celular. Não atende ele não. Vai dormir! Lá pras duas da tarde você liga... E pede pra ele vir pra cá...
- Puta sacanagem com o rapaz, hein Deus!
- A gente só aprende pelo amor ou pela dor, Bia.

Mais um chavão desses e eu vomitava.

Os olhos de Brigatti estavam tão fundos que fava para colocar um repolho grande em cada um e eles se manteriam lá ainda que ele plantasse bananeiras.

Dentro da minha cabeça, 32 mil, quatrocentos e doze lambaris brincavam de esconde-esconde.

O sol raiava.

Deus colocou a mão no bolso da calça e, dali, tirou uma espécie de isqueiro negro, quadrado e comprido. Subitamente Deus ficou a cara do Paulo César Pereio. Ele pediu para que eu e Brigatti olhássemos fixamente ali, para o isqueiro - e, de repente, um flash! E tínhamos nos esquecido de tudo... tudo o que se passara das sete da manhã de sábado até aquele momento, seis da manhã de domingo.

Tudo apagou. Eu apaguei. Dormi.

Acordei agora à pouco, liguei para Alex. Ele estava no ônibus, de volta para o Rio. Pedi para que ele descesse e voltasse para cá. Disse que tudo bem. Parou na Dutra, atravessou a rodovia e começou a dar sinais para os ônibus que passavam. Ele estava na cidade de Aparecida do Norte, exatamente defronte à Basílica. Deus era cruel mesmo, pensei. As pragas do Egito eram fichinha perto de estar em plena Dutra, virado na noite, pedindo para que um ônibus parasse... PELO AMOR DE DEUS!

O fato é que... sim... eu me esqueci de tudo... mas, ao mesmo tempo, tudo o que escrevi aqui me parece tão nítido, tão nítido! Parece que Deus me deixou com a história para que contasse. Obrigado, Deus!

Ou ele quer que me ridicularizem ao ponto de ninguém mais acreditar em coisa qualquer que eu escreva... vai saber como são esses desígnios tarados do criador?

Posted by biajoni at junho 23, 2005 11:40 AM

Comments

Ei, trem! Isso aí tá bom demais, seu nojento! Eu devia ter lido antes, peste! Você escreve bem demais mesmo, danado!

Posted by: Mônica at agosto 16, 2005 2:02 AM

Nossa, que fôlego, hein?
A história ficou ótima. literatura fantástico-cômica, se é que essa definição existe, da melhor qualidade.

Posted by: Beto Lins at junho 26, 2005 10:45 PM

Genial, Bia! Parece que eu estava lá vendo tudo isso acontecer!

Posted by: Viva at junho 24, 2005 11:39 AM

Passei mal de rir, este foi o MELHOR relato dessa noite de todos os tempos da última semana! Só tem uma coisa: Deus mente. EU não estava lá.

Posted by: christiana at junho 24, 2005 2:19 AM

Demorou, sim. Mas a meleca saiu. Deve estar embaixo da cadeira até agora.

Posted by: Marmota at junho 23, 2005 7:16 PM

Atesto para os devidos fins que o relato acima é baseado em fatos reais, e um retrato fiel do que realmente aconteceu naquela fatídica noite. Parabéns pelo poder de síntese, Bia.

E fica a pergunta: quando será a próxima?

Posted by: Iraldo at junho 23, 2005 6:28 PM

Bia... Deixa essa história de cru pegando fogo pra festa junina de amanhã...

O que eu fiz foi imitar o podcast do Alex em que ele explicava que a frase "Me dá uma Coca por favor!" ficava menos grossa através da entonação.

O que eu fiz foi berrar a referida frase várias vezes, sem entonação. A minha voz quase acabou.

Posted by: João M. at junho 23, 2005 5:24 PM

Você ainda está de ressaca desde sábado? Ou evitou isso matendo-se bêbado?

Viagem.... ah o meu André muito mais interesssante e divertido do que outros Andrés não maja nada de origami não :P

Você esqueceu de dizer a sua frase célebre lá proferida quando o Alex chegou: "Eu amo esse cara, se tivesse dois cus dava um para ele." :D

Fui.

Posted by: Bibi at junho 23, 2005 4:09 PM

O Diabo é Deus de porre...

Posted by: Ricardo Montero at junho 23, 2005 3:59 PM

Parece até um filme.

Posted by: Simy at junho 23, 2005 3:48 PM

Eu confirmo a história toda! Tb ouvi a Priscila chamando o "Enrique Iglesias" de "Meu Deus, Meu Deus"...

Posted by: Donizetti at junho 23, 2005 1:56 PM

Só tenho uma coisa a dizer: assim é, se lhe parece.

Posted by: Roberta Febran at junho 23, 2005 12:02 PM

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