Foi por acaso: resenhei o novo livro de Alex Castro para a Revista Amálgama e ele, ao mesmo tempo, escreveu sobre "Buceta" em seu blog. Eu disse que gostei do livro dele e ele disse que gostou do meu e ambos ficamos incomodados com a mesma coisa: a linguagem. Eu acho que a voz da narradora em "Mulher...", uma dentista, é desnecessariamente rebuscada - o livro é narrado na primeira pessoa; ele acha que minha narrativa tem muitos lugares-comuns.

Quando escrevi "Sexo Anal", dei nomes de pessoas que eu conheço aos personagens para que pudesse ouvir suas vozes enquanto escrevia. Não havia ali nenhuma voz que eu não pudesse ouvir. Se as pessoas falam de maneira parecida é porque pertencem mais ou menos à mesma classe social. Jornalistas trabalham com jornalistas e falam como jornalistas. Malacos lidam com malacos e falam como eles. A voz tenta dar essa veracidade ao personagem, o livro se pretendia realista. Para contar a história, precisava de um narrador contido, não totalmente onisciente, talvez um jornalista que conhecesse as histórias e os personagens e estivesse reunindo tudo ali, naquele livro. No caso, adotei minha voz como narrador, escrevendo mais ou menos como falo, permitindo apenas em alguns momentos que cores literárias invadissem o preto-e-branco realista do livro.
Já quando fui finalizar "Virgínia Berlim", adotei o tom intimista que a história pedia, a narração na primeira pessoa. Eu tinha ali um escriturário que não podia contar a sua história evocando grandes imagens ou fazendo considerações profundas sobre a vida, etc..., já que era apenas um cara sem formação, um simplório. O vocabulário não poderia ser extenso. E tem mesmo alguns vícios de linguagem (ele diz alguns "E." entre frases, como fazem algumas pessoas; às vezes solta uns "putz", que alguns acharam sem propósito) que pretendem tornar o personagem mais real para o leitor. (Esse livro vem com um CD de trilha sonora e algumas pessoas disseram que não era crível que um cara como o narrador "escutasse" aquele tipo de som - mas em nenhum momento eu disse que ele "escutava" aquelas músicas: as músicas tinham a intenção de comentar os acontecimentos - ou não-acontecimentos - do livro)
Em "Buceta" novamente busquei vozes que eu conhecia. Ao contrário de "Sexo Anal" fiquei mais preocupado com a trama policial que com os diálogos naturalistas - e, talvez por isso, algumas pessoas tenham gostado mais desse do que do outro. Mas também nesse havia a preocupação de tornar os personagens reais, palpáveis, por mais incríveis que eles podiam parecer.

Eis aí a grande diferença: enquanto eu quero tornar meus personagens reais, Alex quer que o leitor experimente a sensação de realidade através da escrita. Ele quer uma identificação (ou não) mais profunda, pela escrita, na reflexão que se pode fazer entre o que se lê e as imagens que a mente forma.
Eu escrevo para o leitor entender (quase) imediatamente. O texto do Alex demanda um certo tempo, uma decantação. Mas em ambos os casos, creio, seja possível um grande prazer na leitura em si. Não há na escolha para a linguagem, nesses dois casos, nada que a desabone - já que fazem parte, conscientemente, da opção estética de cada autor.

Bia! Foi massa o nosso encontro, véio! Confere aí:
http://samuelquintans.blogspot.com/2009/07/grande-encontro.html
Abração
Samuca!
hahahaha, cagaram pro nosso debate!
Bom mesmo é conversar com os autores bebendo muitos chopes. :-D
Prazer imenso, Biajoni.
Abração