há 3 anos, o terrível ataque do PCC e a mais terrível ainda postura do PFL

Esse post faz parte da blogagem coletiva proposta por Alexandre Inagaki, sobre os 3 anos dos ataques do PCC no Estado de São Paulo.

No dia 15 de maio de 2006, uma Segunda-Feira coloquei um texto no extinto blog Verbeat Bombordo sobre os ataques do PCC em Limeira. Foi um post quente e longo, com muitos updates e que culminou com uma rajada de balas na porta da emissora de TV onde trabalhava. O porteiro não morreu porque tinha ido ao banheiro. Abaixo, principais trechos do post, que teve 66 comentários - a maioria, indignados, pois a mídia tratava quase exclusivamente dos ataques na capital.

Na manhã de sábado (13/05/06), minha equipe de jornalismo acompanhava os ataques do PCC e de nanicos simpatizantes, paus-mandados da discórdia e/ou lambaris que aproveitavam o Terror para praticar atos de vandalismo, atentados ou mesmo para assassinar policiais desafetos. A polícia de Limeira estava de sobreaviso, mas não havia sido registrada nenhuma ocorrência na cidade. Um PM de Santa Bárbara D´Oeste, cidade vizinha, havia sido executado com 10 tiros. Na avaliação geral dos jornalistas, deveríamos ficar de sobreaviso sobre as rebeliões nos presídios, cadeias e centros de ressocialização - coisas podiam ocorrer. Mas os ataques a policiais deviam ser apenas "ato de um dia".

A contabilidade em Limeira na Segunda-Feira: 9 mortos; dois policiais, três marginais, quatro pessoas que aparentemente não têm conexão com o crime. Um garoto de 14 anos foi morto na madrugada há poucos metros de casa com um tiro na cabeça. Continua a contabilidade: cerca de 15 pessoas feridas em confrontos, tiroteios, atentados - entre eles, pelo menos 3 gravemente feridos, um policial. Cinco ônibus foram incendiados. Uma granada foi atirada (mas não explodiu) em um centro comunitário, uma bomba caseira atingiu uma escola. As aulas da rede pública foram canceladas.

Metade dos motoristas e cobradores de ônibus não apareceram para trabalhar. Guardas municipais foram recolhidos, deixando sem cobertura os prédios municipais, como a prefeitura. Em alguns desses prédios há agências bancárias.

Fizemos uma reunião na emissora e recolhemos as viaturas adesivadas. A equipe que habitualmente cobre polícia vestiu coletes a prova de bala. Uma ligação anônima ameaçou a emissora: "O PCC vai entrar aí!".

Nunca, em 16 anos trabalhando na imprensa, vi tamanho Terror, tamanha sensação de total e irrestrito perigo e insegurança. O medo, na verdade, começou na noite de Sábado, quando vi o Governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), dizer que "a situação é de controle absoluto". Ele devia saber que nunca é. Ele não devia saber que nunca deve desprezar ajuda, como desprezou da PF ou do exército. Ou talvez ele não devia saber nada; ele é a própria expressão do morto-vivo, um zumbi-mor que abre os portões do inferno para que outros ataquem.

A Folha deu: "Lembo diz que esperava ações há 20 dias". Ele e os assessores esperavam "eventos explosivos" promovidos pelo PCC no dia das mães e, por conta disso, realizou uma reunião com um comitê de emergência na Quarta-Feira, antevéspera do final de semana explosivo. O dito popular ensina que quando não se quer resolver uma situação, promove-se uma reunião.

Como "ação de inteligência", decidiram transferir o Marcola na sexta e, com isso, anteciparam as ações do PCC, marcadas para o domingo. O que era "ação de um dia", virou "ação de um final-de-semana", triplicando o terror e abrindo possibilidades para aproveitadores. Romeu Tuma, senador do PFL, disse que o governador deu alerta para os policiais. "Ou os policiais foram indiferentes ao aviso ou não houve aviso", disse. Tuma, como policial, deveria saber que não houve aviso. Ou os policiais não se preocupam com suas próprias vidas?

Aí aparecem Alckmin e João Carlos Meirelles, coordenador de programa de governo do candidato-chuchu dizendo que a culpa pela violência é do Governo Federal. Caras-de-Pau. Foram eles quem fizeram o programa de governo de Alckmin, com propostas mirabolantes para conter a violência no Estado. E foi Alckmin quem pulou fora do Governo deixando para Lembo, do PFL, figura política e decorativa, como quase todo pefelista.

Também como Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo por conta da saída de Serra. Kassab quer convencer o Ministro das Cidades, Marcio Fortes, que todos os carros que rodam o Brasil deveriam ter chips para poderem ser localizados. Entende que essa medida reduziria a violência. Como a água bateu na bunda nesse final de semana, ele parou de lamentar que a prefeitura não tem dinheiro e disse que vai dar 7 milhões para a polícia da capital.

Na verdade, quem alertou o Estado sobre as ações explosivas foi a Secretaria Nacional de Segurança Pública e parece que os assessores e o próprio Lembo não levaram muito a sério num primeiro momento, deixando o posicionamento para última hora.

No site do PFL, um tal de Aleluia, da Bahia, "líder da Minoria na Câmara dos Deputados", diz que "a violência é conseqüência do desgoverno Lula". No caso específico da explosão de violência desse final de semana, certamente não é culpa do Governo Lula. É culpa primeiramente da omissão e descaso de Alckmin e Serra, mais experientes, que deixaram os cargos para os quais foram eleitos nas mãos de despreparados políticos de carreira que não demonstram qualquer afinidade com o Executivo, com a postura firme e sólida, de responsabilidade intrínseca, que situações que envolvem a vida de cidadãos merece.

Fosse Alckmin o governador, com certeza ele daria maior atenção aos avisos da Secretaria Nacional de Segurança, acionaria o prefeito Serra, não deixaria que as coisas tomassem a proporção que tomaram. E, infelizmente, a impressão das coisas, ao meio-dia dessa Segunda-Feira, é que tudo só tende a piorar.

UPDATE:
14h10 - Piorou. Falo das coisas de Limeira para dar uma idéia geral da região. Os ônibus pararam de circular, o comércio fechou e as faculdades cancelaram aulas - tudo sem previsão de volta. Informação de coxia é que tem policial indo pra casa pra proteger família. Um policial acaba de ser baleado em frente a uma agência do Sudameris daqui.

UPDATE II:
17h30 - Saldo:
Sábado para Domingo:
A onda de Terror provocada pelo PCC atingiu Limeira em cheio exatamente às 21h30 de Sábado. O policial militar Ricardo José Martins Lara, de 37 anos, estava próximo a uma padaria quando foi atingido por disparos de dois homens que passavam pela calçada e que podem ter fugido em uma motocicleta. O PM Lara era querido tanto pelos colegas da corporação quanto pela imprensa. Na seqüência, minutos depois, no mesmo bairro onde o PM foi morto, um jovem de 28 anos, J.S., foi alvejado por vários tiros. Encontra-se na Unidade de Terapia Intensiva da Santa Casa de Limeira. Se sábado para domingo as ocorrências aconteceram sucessivamente, numa onda de violência jamais registrada na história da cidade. Dois adolescentes de 17 anos foram feridos por projéteis no Parque Abílio Pedro; um jovem de 20 foi atingido na virilha enquanto voltava para casa, no bairro Nossa Senhora das Dores. Às 3h50 da manhã de Domingo, dois homens em uma moto Yamaha prata atiraram contra três jovens; apenas R.A.P. de 18 anos sobreviveu. José Lionaldo, 14, e Marcelo dos Santos, 18, morreram no local. Minutos depois a PM registrava a morte de Vilson Basílio da Silva, de 34 anos, encontrado próximo à sua residência, no bairro Profilurb.

Domingo
A população acordou assustada no Domingo. Reações espontâneas e quase inexplicáveis resultaram em cinco ônibus queimados e depredados. Pelo menos um deles foi em reação de familiares e amigos de um dos jovens mortos. No final da tarde, início da noite de Domingo, três jovens atacaram a tiros a base policial do bairro Vista Alegre. Os dois policiais foram atingidos e um marginal foi morto no local. O PM Wellington da Silva, de 26 anos, levou um tiro na perna, foi socorrido e passa bem. Já o colega, PM Rômulo Henrique David, de 23 anos, recém entrado na Polícia Militar, sofreu vários disparos e morreu a caminho do hospital. Os outros dois criminosos fugiram e sofreram perseguição, que teve ápice na rodovia Limeira-Cosmópolis, onde houve troca de tiros. Os dois acabaram mortos. No dia seguinte foram identificados como os irmãos Alex, de 22, e Anderson Rocha, de 27 anos. Também não foi possível identificar o jovem morto durante o tiroteio. Acredita-se que os três tinham ligação com o PCC. Várias outras ocorrências, de brigas, disparos e situações de Terror foram registradas na noite de Domingo em Limeira.

Segunda
Alguns motoristas e cobradores de companhias de viação não apareceram para trabalhar na manhã de segunda, e alguns estabelecimentos comerciais não abriram as portas. Por volta das 10h teve início uma onda de boatos generalizada envolvendo bombas em escolas e bancos, disparos na região central e ameaças de ataques a orgãos de imprensa. Duas ligações à TV Jornal de Limeira ameaçaram invasão e morte de jornalistas. Poucos restaurantes abriram para o almoço e as aulas da rede pública foram canceladas. Às 15h quase todos os estabelecimentos comerciais estavam fechados e a sensação de quem transitava pelas ruas era de total estranheza para uma Segunda-Feira. Os bancos também cerraram portas.

Ligações
Os jovens mortos ou atingidos em Limeira aparentemente não têm ligações com a facção criminosa PCC - Primeiro Comando da Capital. Os incêndios a ônibus parecem ter sido comandados por algum braço secreto da facção, já que testemunhas dizem que menores de idade estiveram à frente das ações. A Associação Comercial e Industrial de Limeira, ACIL, sugeriu que os comerciantes mantivessem as lojas fechadas nesta Terça-Feira e o prefeito Silvio Félix (PDT) não quis se pronunciar pela trágica onda de violência que acometeu a cidade no final de semana. Na virada da noite, a sede da emissora, na Vila Cláudia, em Limeira, foi alvo de meia dúzia de disparos - por sorte, ninguém saiu ferido.

UPDATE DE HOJE, 15/05/09:
O jornalista limeirense Rafael Sereno escreve sobre os presos e condenados em Limeira, em seu blog.

3 Comments

Fala Bia, beleza?

Voltei ao mundo dos blogs, no mesmo Bat Canal..

Abraço!

bom, rogerio, aí precisaria ler o texto para ver se é isso mesmo o que eu quis dizer.
o mais lamentável é uma atuação que leva às mortes, já que há pouquíssimas coisas mais lamentáveis que a morte de inocentes.
mas a história real desses ataques do PCC está longe de ser totalmente explicada.
talvez no futuro.

quer dizer que as MORTES provocadas pelo PCC são menos lamentáveis q a inoperância dos políticos? qual é bia? tu tá apoiando os bandidos, é?

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em maio 15, 2009 1:38 PM.

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