Uma das idéias mais claras que tinha enquanto escrevia "Sexo Anal" era que os personagens não seriam descritos psicologicamente; eles deveriam ter a profundidade que suas ações indicassem. Toda vez que sentia uma vontade, como narrador, de explicar determinado comportamento com uma análise psicológica, eu matava essa vontade. Embora essa estratégia fosse apontada como uma qualidade do romance (lembro que o Guto foi um dos que escreveu sobre), notei que alguns aspectos que eram muito claros para mim não foram transmitidos aos leitores. Nem sempre a idéia que um ator faz de um personagem é a idéia que o leitor tem dele. Isso amplia leituras mas, para o escritor, traz algum desconforto. Ou melhor, a mim traz algum desconforto. Resumindo: acho que faltou, em "Sexo Anal", indicações mais claras sobre as motivações - ou o "estofo" - dos personagens.
Quando pensei em escrever uma continuação de "Sexo Anal" - motivado por um e-mail do Glauco Mattoso -, não quis fazer um "Volume 2". Os personagens já haviam sido expostos demais. Trabalhar com o "segundo escalão" do livro foi minha primeira idéia. "Sexo Anal" tem cerca de 20 personagens, então alguns podiam bem servir a uma continuação. Inicialmente escolhi Valéria, a estagiária do jornal, que devia ter sido promovida ao lugar de Virgínia, a "heroína" do primeiro. Localizando a trama novamente no jornal, não tinha como não resgatar o jornalista policial Geraldo Assis. Geraldo era um personagem ambíguo (como todos em SA): competente, com faro e paixão pelo jornalismo policial, ao mesmo tempo gostava de abusar sexualmente dos presos; tinha certo gosto por travestis, embora fosse casado e tivesse uma filha. Não queria colocar Assis como protagonista da trama, não gosto de livros com protagonistas claros, prefiro as tramas plurais. Achei que pudesse ser divertido ter uma vilã, uma antítese de Virgínia - igualmente loura, mas (mais) fatal; igualmente confusa com os sentimentos, mas mortal. Comecei a pensar em alguém, na vida real, que pudesse se encaixar ao menos fisicamente no perfil. Encontrei - e essa pessoa escolhida trouxe consigo uma das tramas policiais do livro: concessionárias de automóveis que usam peças usadas, retiradas de carros roubados em desmanches clandestinos. Vi que o assunto tem pertinência, a caça a desmanches via concessionárias está se intensificando.
Fiz um primeiro esquema no papel, com 5 personagens, cruzando informações sobre eles - e considerando mais aspectos psicológicos. Pensei em um começo de impacto, para segurar o leitor. Comecei a escrever, primeiro com um tema que envolvia tráfico de drogas e, sessenta páginas adiante, vi que não estava funcionando e joguei tudo fora - exceto o começo impactante. Esperei seis meses para retomar, aí com a idéia do desmanche em primeiro plano e... uma idéia envolvendo operação de mudança de sexo.
Li algumas matérias sobre as facilidades da operação atualmente... E as primeiras 100 páginas desenvolveram-se rapidamente. Com uma vilã e o entrecho sobre mudança de sexo, o título "Buceta - Uma Novela Cor-de-Rosa" apareceu naturalmente. E aí eu parei de escrever o livro de novo. Torturava-me a idéia de outro título chulo.
A parada, porém, foi boa para, mais uma vez, reestruturar o livro em minha cabeça. Durante uma crise renal que durou mais de 70 dias, pude mudar o começo, criando um vínculo com SA e um núcleo gay na trama. A história desse núcleo é interessante: quando saiu SA muita gente achou que era um livro gay - não é. Aí achei que seria divertido que um livro chamado "Buceta" tivesse sexo homossexual masculino.
Desde o início, naquele primeiro esboço com 5 personagens, quis um escrivão de polícia calado, um observador da trama, o comentador das ações. Que ele fosse um elemento externo, vindo de outra cidade, outro estado, com outros olhos, podia ser interessante. Inspirei-me em Rafael Galvão e dei o nome dele ao escrivão - igualmente amante de Beatles e gago.
;>)
Não queria que a ação se alongasse por vários dias, afinal estamos em tempos de "24 Horas". Mantive a dúzia de personagens, esquentei a ação para 3 dias e tive um livro 25% menor que SA, mais ágil, mais vibrante. E, incrivelmente, com muito menos sexo que SA.
Esse é o livro que lançamos na FILC e está a venda n'OsViraLata, com prefácio de Pedro Doria - obrigado, Pedrucho.
Tenho que agradecer ao Rafael, ao Alex (que fez um domingo feliz, me ligando no meio da tarde, para dizer que tinha gostado do livro), ao Renmero, ao Pedro Novaes e ao Thiago Berlim que leram antes e deram importantes dicas e toques. E ao Branco, claro, que acredita e confia no que escrevo - e fez uma edição super legal, pequena, cool, do livro.


Um obrigado especial ao Doni, ao Marmota, à Pat Carvoeiro, à Juju - que se abalaram de Sampa para o lançamento em Campinas - e à Fal e sua simpática senhora mamã and falmigas e ao público presente no debate da FILC, no lançamento. A Vivien Morgato que apareceu com i filhão. E sem esquecer e já esquecendo - talvez por já ser irmão, do Fábio Shiraga que fez fotos e levou equipe de vídeo de Paulínia para registrar o evento. Luv ya gueis!
E a todos que lêem esse blog ou não lêem e estão no twitter ou não estão, amigos online ou offline, povo que me apóia ou pelo menos não me atrapalha, gente que sabe que continuamos amigos mesmo eu estando tão ausente, trabalhando tanto, tão fora das coisas todas da rede. Não achei que fosse botar um terceiro livro na praça, em quatro anos. É uma boa média, vai dizer?
E um beijo pra Karen, que me apóia nessas maluquices todas (menos nos nomes dos livros).
;>)
Pô, comprem o livro. Acho que pode ser bem divertido.