"Watchmen - O Filme" é a melhor adaptação de uma HQ para as telonas. É um grande, grande filme.
Há mais de 20 anos esperamos a adaptação da série criada por Moore/Gibbons e já ficamos empolgados com a possibilidade de Terry Gilliam abraçar o projeto, mas a espera valeu a pena e o über-nerd Zack Snyder fez a coisa certa. A coisa certa, no caso, é ter sido o mais fiel possível com os quadrinhos, mas sem se render à veneração, ao literatismo e tomando uma liberdade que - creio - foi difícil, mas era necessária: mudar o final.
Não é uma grande mudança, mas suprimiu toda parte do navio, do seqüestro das pessoas, do mega-monstro que se materializa em Nova Iorque. O monstro, que funciona bem nos quadrinhos, seria um item fantástico demais no filme, já que o tom usado por Snyder é de realismo.
O mais genial neste realismo do filme é que ele se passa numa realidade alternativa; Nixon está em seu terceiro mandato e os EUA venceram a guerra do Vietnã. A Guerra Fria com a União Soviética ameaça mandar o mundo pelos ares, os super-heróis tiveram uma aposentadoria forçada por conta de uma lei, o mundo dos anos 80 são piores do que realmente foram - imagine isso!
Colocar dentro desse universo paralelo um bando de homens fantasiados de super-heróis é uma missão complicada, e muitos juraram que qualquer tentativa de fazer um filme como esse resultaria em pastelão. Mas os personagens são muito bem construídos por Moore - e Snyder respeitou isso. Sentimos a angústia, a confusão e até o constrangimento dos personagens e algumas situações.
A abertura do filme, com a morte do Comediante, e a sequência dos créditos já mostram que é filme de gente grande. Nesses poucos minutos, em outra liberdade do roteiro, entramos na realidade paralela do roteiro, ficamos sabendo sobre Nixon através do aparelho de TV que o Comediante assiste, temos a sequência dos créditos que faz a transição entre os anos 40 e os anos 60 e entra pelos anos 70 até chegar nos 80 quando a ação se desenvolve. Vemos os Minutemen, equipe de justiceiros de rua, e ficamos sabendo sobre como surgiram e desapareceram os Watchmen - sabemos um pouco mais sobre isso lá pelo meio do filme. Toca "Times They're A Changing" do Dylan, na abertura. É uma música acertada para a abertura. Mas a música é o grande erro do filme, falo adiante sobre isso.
O trabalho com as cores no filme é maravilhoso, a quantidade de informações por quadro é fantástica, cheguei a pensar em Peter Greenaway enquanto assistia. E nos quadrinhos, claro. O ritmo respeitou os flashbacks e alguns personagens e seus destinos foram suprimidos, creio, pela duração final: 163 minutos. Embora eu tenha certeza que ninguém ia reclamar se o filme tivesse uns 10 minutos a mais e nós pudéssemos ficar sabendo o que aconteceu ao Coruja original ou o que o Jornal New Frontiersman fazia. O velho Coruja aparece apenas ocasionalmente e não sabemos qual o seu fim. O New Frontiersman aparece só no final, ninguém sabe nada sobre o jornal - mas, não sei se todos sabem, o jornal existe na internet.
O trabalho dos atores também é magnífico, todos estão muito bem em seus papéis, muito parecidos com os personagens da HQ - exceto Veidt, que no gibi é mais bonito, imponente, ganha cara de fuinha no filme, sujeitinho apático.
Os destaques são, claro, o Comediante e Rorscharch, vividos com intensidade por Jeffrey Dean Morgan e Jackie Earle Haley. Já estão aventando a possibilidade de matarem Jackie Earle Haley para ver se ele ganha um Oscar.
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Billy Cudrup foi boa decisão para o Dr. Manhantan e ele fica andando pra lá e pra cá sem roupas e eu bem quero ver quando o filme sair em DVD e a garotada fã do Homem de Ferro tirar o filme achando que é algo como A Liga da Justiça e dar de cara com o pau daquele cara azul... Entra a mãe na sala:
- Que isso, filha?
- É um super herói, ele tem super poderes!
- Tou vendo!
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Ah, sim, Malin Akerman está uma maravilha, onde é que essa garota estava?
A Malin protagoniza a cena de sexo do filme, onde, pelo que me lembro, devia tocar Billie Holyday, mas toca Cohen, "Hallelluiah". Ficou feio. Ficou satírico, não funcionou. Assim como não funcionou "Sound of Silence" no enterro do Comediante. E muito menos a "Cavalgada das Valquírias" na cena do Dr. Manhatan no Vietnã - referência evidente demais à "Apocalipse Now", do Coppola.
Sim, a trilha é sofrível, "All Along the Watchtower" com o Hendrix está no lugar errado, Janis Joplin não tem nada a dizer ali... Zack Snyder não é Tarantino, tem só cultura nerd, o que exclui música. Tarantino é um nerd de antes da internet, colecionava discos. A trilha é tão sofrível que está recebendo uma ou duas estrelinhas na Amazon.
Mas não atrapalha o geral: o que a HQ conta, está ali. O espírito está ali, a história (única HQ a figurar na lista dos 100 melhores romances do século da Revista Time) está ali, todo potencial do cinema contemporâneo está ali. Não há mais barreiras, Hollywood só precisa mesmo de boas histórias, histórias interessantes.
Watchmen é uma das melhores já escritas e, agora, já filmadas.