macbeth em iracemápolis

No Sábado decidi ir até a pequeníssima cidade vizinha de Iracemápolis conferir de perto o trabalho que o amigo Daniel Martins está fazendo com as crianças de lá. Ele, mestre em literatura e rapaz antenado nas artes, montou um grupo de teatro com atores mirins. Geralmente, esse tipo de iniciativa gera engulhos à intelligentsia que costuma ver coisas assim como "ai, que fofo, gente pobre tentando fazer teatro!".

Quem pensar assim do pessoalzinho de Iracemápolis, definitivamente, não acredita no ser-humano.

Daniel já havia me convidado para a peça anterior do grupo, "O Mágico de Oz". Não deu pra ir. Depois fiquei sabendo que a montagem das crianças era meio psicodélica, com trilha sonora do Velvet, Nick Drake, altas doses de humor nonsense. Quando anunciaram que o próximo espetáculo era "Macbeth", bem, pensei, devo ver isso com meus próprios olhos.

Que bom que assim pensei.

Peguei a galera aqui de casa e fomos para Iracemápolis. A apresentação aconteceu na sede da Associação dos Meninos Patrulheiros, uma casa sem muitos atrativos. Marcado para as sete e meia, amargávamos meia hora de atraso quando Daniel apareceu, esbaforido e tenso, dizendo que a maquiagem estava atrasada...

Eu, Karen, Dudu e Lia estávamos ouvindo as cigarras cantarem na bucólica paisagem iracemapolense, sem saber o que nos esperava.

A noite caiu e fomos conduzidos (um grupo de não mais que 30 pessoas) até uma casa nos fundos. Estava escuro. Bem escuro. E uma criança apareceu, de cajado na mão e fala firme, dizendo que "crianças iriam encenar a mais trágica peça de Shakespeare". Era assustador, mas o texto apontava para os cuidados que temos que ter com a "ganância" - e isso era um ensinamento que crianças podiam transmitir.

Ao entramos, porém, ao som de Laurie Anderson, no mais completo escuro, com lanternas acompanhando nossos passos, vi que a experiência estava mais para Grotowski que Stanislavski: fomos imersos em uma sala negra de alto calor que ia crescendo assim como foi crescendo a ganância do protagonista e a introjeção algo medonha dos pequenos atores em seus papéis/personagens.

Mateus Barreto (Macbeth) e Laine Silva (Lady Macbeth) formaram uma dupla explosiva. Ele, com um tique criado exclusivamente para o personagem, com um puxar de canto de boca em momentos de tensão de fazer um James Cagney suar de inveja e ela com a voz mais alta e imponente da trupe, sem gritar, mas com energia vital explodindo os pulmões, falando no ouvido-esponja do futuro rei da Escócia: "Você vaaaaaai ser rei!" foi de arrepiar - mesmo no infernal calor do pequeno galpão onde estávamos.

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Daniela Soares, Vanessa Tainá e Jamile Pedreira - todas entre 8 e 9 anos - fizeram as não menos importantes três irmãs bruxas do tempo de maneira bárbara. Sobrepondo vozes e falas, elas costuram cenas pulando por sobre cadeiras e mesas de colégio com desenvoltura de atletas e ótimo domínio de cena.

Macbeth_1.jpg

Outro destaque vai para Fábio Vinícius que faz MacDuff, o segundo melhor guerreiro, ciumento e amargo de Macbeth. Como manda a tradição, Fábio é mais simpático que Macbeth e sua atuação não traduz ambiguidade. Talvez seja um papel ainda mais difícil de fazer mas Fábio caminha natural, como uma pequena criança que - ainda não adulta - já viu e viveu mais na dura vida que muitos dos homens que ali estavam o assitindo. Ali ou alhures.

Não podia deixar de falar do simpático bobo-da-corte ("Vale a pena acreditar no homem!")... E nem de Wesley Cedroni, o iluminador de cena. Ele ficava em cima de uma carteira escolar com os dedos em três interruptores, acendendo e apagando as luzes conforme a dramaticidade e o timing das cenas. Ele fez um trabalho bárbaro e profissional ali, com parcos recursos e não mais que 10 anos de idade.

Parabéns ao Daniel e ao seu grupo de teatro.

lia 77.jpg

E parabéns à Lia que, do alto dos seus dois anos de idade, acompanhou a peça toda, suando muito, prestando atenção, sem se incomodar, por uma hora e meia.
Só quis um suco de laranja e uma batatinha frita como prêmio.

7 Comments

Fala, Bia.
Remexendo no seu blog, me animei a fazer um também. É um diário de bordo do trabalho com a criançada. Espero que dê certo (sou meio caipira pra esse tipo de coisa, só gosto de papel).

nucleodevivenciateatral.blogspot.com

Quando puder, faça uma visita! Abração!!


Grande Bia! Obrigado pela "leitura" cuidadosa da nossa peça. Mostrei o texto para os pequenos e eles adoraram. É a primeira vez que alguém analisa a interpretação deles dessa forma, pontuando os detalhes e trazendo novas referências.

Consegui fechar duas datas em Limeira: 29 (Oz) e 06 (Macbeth). Divulgue para os amigos!

ownn que saudade.

Oi Biajoni! VC escreve pra caralh*, hein!
Vim pra dizer que estou muito feliz com as visitas do meu blog que ontem foram 16, e semana passada eram 2, 3. Agradeço por vc ter me dito pra não desistir. Quem sabe amanhã não vai para 20 visitas? hahahaha

Beijooooo!

Lindas fotos!!! Parece que a produção está super bem cuidada. E isso é raro acontecer, quando espetáculo e encenado por crianças, não é? Ai... fiquei com vontade de assistir. Pena que é tão longe!

Hahaha, o Almirante sempre com as melhores sacadas.

Pô, Bia, isso deve ter sido fantástico. No final de semana participei (ajudei) na seleção de uma montagem de peça de teatro numa ONG na zona sul. E consegui a participação de duas pessoas para palestrar sobre dependência química (a ONG no momento trabalha com isso e a peça foi sobre isso também), internações e desintoxicação, volta ao mercado de trabalho e à vida normal e tudo o mais. Rapaz, sem palavras. Minha semana começou muito melhor. O melhor de tudo é que a ONG é católica, 99% do pessoal que freqüenta é católico (dos quais eu acho que uns 80% sejam realmente praticantes), eu não pratico religião nenhuma e fui MEGA bem tratada e acolhida por todos.
O meu final de ano tá sendo muito melhor por causa de tudo isso. Ninguém consegue fazer idéia do que este trabalho está me fazendo bem (em todos os aspectos, mas especialmente no espiritual e mental).
Eu vou ver o link que você colocou no youtube pra peça com a meninada.
Beijos pra família e parabéns pra intrépida Lia, que agüentou bravamente.
;-)

"Fábio é mais simpático que Macbeth e sua atuação não traduz ambiguidade"

Rapaz, canta pra esse Bárbaro Heliodoro subir! Você está resenhando a atuação de uma cri-an-ça!!! Pega leve!

:-)

Excelente sacada a do Daniel.

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em novembro 12, 2008 10:07 PM.

uma segunda melhor - e uma terça também! é a postagem anterior.

nós cagamos para 'limite' - os 25 melhores filmes brasileiros de acordo com biajoni & galvão é a próxima postagem.

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