os melhores discos de lou reed comentados entre sua longa discografia [ou] um texto que você só pode ler num blog, ainda mais se esse blog for o meu

O Rafael Galvão fez um post comentando a discografia solo do McCartney. Sugeriu que eu podia fazer o mesmo com Lou Reed, pós-Velvet. Em tempos em que você pode achar & baixar tudo na internet, vai aqui o que vale a pena - com as devidas considerações sobre tal extensa discografia.

O primeiro disco solo de Reed levou seu nome mas, felizmente, sua imagem não estava na capa. Ele chamou Tom Adams, artista que fazia capas de livros policial e de mistério, de Agatha Christie a Raymond Chandler, para desenhar uma jóia num ovo falso, no meio da rua, entre beija-flores, prédios e um pintinho sinistro. O nome de Reed aparecia com flores vermelhas, meio fúnebre - uma capa esquisita para um primeiro disco. Havia ali uma pretensão artística. O disco não é bom: as faixas que se salvam são rescaldos do Velvet, incluindo a melhor: "Love Makes You Feel". Reed parecia querer enterrar um passado, sem saber que rumo novo (o ovo) tomar.

O segundo disco é o histórico "Transformer" (1972), produzido e co-engrendrado por David Bowie em Londres, um clássico lindo, quase perfeito, que Reed nunca conseguiu superar ou igualar.
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O terceiro é "Berlim" (1973), também clássico, mas por um motivo específico. Foi um dos primeiros discos conceituais da história do rock. E ia além no "contar da história": misturava referências pessoais de Reed, citava de viés John Cale, Nico, Andy Warhol, e, principal, contava de maneira vagarosa uma história de amor, dor e morte que não parecia ter saído do mesmo cérebro que havia acabado de fazer "Transformer". Reed estava taciturno, amargo e sombrio. É um dos grandes discos de todos os tempos, que permite uma primeira experiência exasperante na audição e as reouvidas são difíceis e dolorosas.

Nesse clima foi gravado "Sally Can't Dance", de 1974, que pretendia ser um "Transformer II"- mas não colou. Apesar de contar com a antológica e sempre citada (mas longe de estar entre as minhas preferidas) "Kill Your Sons", o disco é fraco.

Teve aí um disco ao vivo, o bom "Rock'n'Roll Animal", com solos de guitarra . E nem podemos falar do disco seguinte, "Metal Machine Music", álbum duplo cheio de chiados, já eleito e reeleito o pior disco já gravado.

Chegamos ao que pode ser considerado seu quinto disco, "Coney Island Baby", despretensioso e gay ao ponto de poder, sim, ser considerado um sucessor de "Transformer". Mas não havia ali a mão de Bowie e os arranjos das músicas são pobres, salvando apenas a faixa título; uma música de recordação e memória que remete a James Joyce.

Na seqüencia, mais um disco ao vivo, celebrado como um dos melhores já gravados, mas que eu acho bem ruinzinho.

Reed, em 76, estava meio inebriado pelo fusion, pelo novo jazz de Miles Davis, tentou fazer um disco com metais e cometeu "Rock'n'Roll Heart".O próprio nome do disco parece querer dizer que ali não tinha jazz, não tinha blues, não tinha experiência. Mas o disco é só um equívoco geral de tentativas. Salvam-se a faixa título e a climática "You wear it so well", estranhamente uma das minhas músicas preferidas de Reed.

Nesse momento, alguém diz a Reed que o negócio dele é falar das ruas, é ser mesmo O marginal e ele faz "Street Hassler" (1978), um disco que é sempre colocado entre os seus melhores mas do qual eu não sou capaz de pinçar uma só música sequer.

Vai daí, grava "The Bells", um disco fraco que tem a pior música já gravada por Reed (tirando as do disco MMM), "Disco Mystic". Ao menos "The Bells" tem "Stupid Man" e "City Lights"- duas pequenas grandes canções dentro de um álbum sofrível.

E Reed cruza então os anos 80 com um bom disco, "Growing Up In Public", em que pelo menos metade das canções se salvam - especialmente o humor de "Power of Positive Drinking". Um disco despretensioso, como deveria ser todo bom disco de rock.
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Reed comete então o seu terceiro grande disco: "The Blue Mask" (1982). Ele havia acabado de romper com o travesti Rachel e encontrava seu lado viril, erudito e poeta - embora possa haver uma grande contradição entre esses três termos. "The Blue Mask" tem sua mais radical experiência narrativa até então ("The Gun"), trazia à baila a questão das drogas ("Waves of Fear") e fazia a crônica de seu tempo ("The Day John Kennedy Died"). A "mulher" também aparecia como musa - e não só era evocada como (a)clamada ("Heavenly Arms").

Em bom momento, aparece o "disco de motociclistas" de Reed: "Legendary Hearts". Creio que seja um dos discos menos citados do compositor e um dos menos resenhados de sua longa discografia. Mas eu o considero entre os melhores. A faixa título, "Pow Wow" e a pequena "Rooftop Garden" estão entre as-minhas-preferidas-de-todos-os-tempos de Reed.

Estamos em 84, ele lança mais um disco fraco ao vivo, da Itália e "New Sensations", um disco que parece melhor que é, com faixas que funcionam melhor ao vivo, como lançamentos futuros fizeram crer. A faixa título é presença quase constante nos shows de Reed; uma música que permite pegada & improviso. Deste disco, para mim, a melhor faixa é "Doin the Things That We Want To".

As coisas estavam aparentemente bem, quando um dos seus piores discos é lançado: "Mistrial" (1986). Lamentável. Esperamos 3 anos para que Reed, em 1989, nos entregasse sua quarta obra-prima, "New York": outro disco conceitual - que usa a premissa de Tolstói, que diz que "basta você falar de sua aldeia para falar do mundo". Reed fala de sua aldeia, a globalizada Nova Iorque, para falar do mundo todo. Um disco que só não é perfeito para mim porque tem "Last American Whale", música que eu acho um grande porre.
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John Cale se reaproxima de Reed durante a morte de Warhol; pensam em um musical temático,surge "Songs for Drella", lindo, mas creio que não palatável para neófitos.

Os efeitos negativos das drogas fáceis nos anos70 e 80 começam a ceifar vidas nos anos 90 e Reed fala da morte de seus amigos em mais um disco temático, "Magic and Loss", bom, acima da média, mas que, como "Berlim", não é para ser ouvido a todo momento e em qualquer lugar. "What's Good" e"Sword of Damocles" são as minhas preferidas.

O próximo disco é uma reunião de canções esparsas, sem tema definido, "Set the Twilight Reeling", disco muito acima da média em que se destacam "NYC Man", "Trade In" e o humor de "Hookywooky". Sua musa agora é Laurie Anderson, a nova mulher.

A crítica adora odiar "Ecstasy", de 2000, citando a pílula usada em festas. A capa e encarte do disco mostram que Lou Reed está falando de outro tipo de tesão. Fazendo uma referência a um filme antigo de Warhol, ele aparece com a cara retorcida em diversas fotos como se estivesse, bem..., tendo um orgasmo, recebendo um boquete.
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Ele faz isso no disco: goza da sua boa vida, das ocasiões fortuitas, ri das desgraças, bota um toque sardônico na questão conjugal e arrisca uma guitarra rollingstoniana no meio - talvez para afirmar que ainda é rock'n'roll e gosta disso.
Para mim, "Ecstasy" é a quinta obra-prima de Reed.

Depois veio o fraco projeto "The Raven", relendo Allan Poe e "River Hudson Meditations" que é o "Metal Machine Music" dos neo-vegans. Tomara que não demore mais dois anos para Reed lançar mais um bom disco de rock.

O problema da alta produtividade acaba sendo esse: entre cinco ou seis obras-primas choram 20 discos medianos. Pelo menos a gente tem do que se ocupar e escrever. Vai dizer?

*40 melhores músicas dos 20 discos oficiais de Reed - fora "ao vivos" e coletâneas - em ordem cronológica:

1 - Love Makes You Feel
2 - Walk On The Wild Side
3 - Satellite of Love
4 - Perfect Day
5 - Berlin
6 - The Kids
7 - Sad Song
8 - Ennui
9 - Sally Can't Dance
10 - You Wear It So Well
11 - Rock'N'Roll Heart
12 - Coney Island Baby
13 - Stupid Man
14 - City Lights
15 - My Old Man
16 - The Power of Positive Drinking
17 - The Gun
18 - Waves of Fear
19 - Heavenly Arms
20 - Legendary Hearts
21 - Pow Wow
22 - Rooftop Garden
23 - I Love You Suzanne
24 - Doin The Things That We Want To
25 - New Sensations
26 - Romeo Had Juliette
27 - Dirty Blvd
28 - Sick of You
29 - Strawnman
30 - Faces and Names
31 - I Believe
32 - What's Good
33 - Sword of Damocles
34 - NYC Man
35 - Trade In
36 - HookyWooky
37 - Modern Dance
38 - Tatters
39 - Baton Rouge
40 - Edgar Allan Poe

*Bonus Track: Hop Frog

3 Comments

Ops, Dirty está lá em 27º. Ao vivo ou não, furo meu.

Eu quase levei uma cusparada de Lou Reed no Knitting Factory. Excelente.
Sai dalí com o firme propósito de eleger Lou Reed prefeito NY. Jamais ouvi um candidato que se iguale a Lou Reed no que diz respeito a reverenciar NY.
Desconfio de sua lista, ah essas listas, por não incluir Dirty Boulevard cantada ao vivo.
E o que dizer então de Pale Blue Eyes?
Ok, esta última era do Velvet. Mas funcionou. Muuiiito..
Traduzindo as expressões das pessoas ao final daquele espetáculo:
O coroa é brasa, mora!
Mas não sou especialista na fera. confio em você.
Transito mais tranquilo pelos obras do maca, pelo post do Galvão. Os coroas são brasas, mora!
Grande post, Biajoni, e muito boas as dicas.
Valeu

biaaaa


meu tu nem deves lembrar mais de mim né... não posto mais no meu blog há eons e agora... vida novom blog novo. Sim eu sou a lisa ladinha que nunca te mandou os cds do gomez (nunca imaginei que isso ia ser ponto de referencia - nao me odeie.) a pior parte eh que agora eu to em NYC e os cds estao no armario onde ficam meus livros...
A parte boa é que daqui ha 6 meses eu posso mandar tudo e mais o novo..
tudo bem meu filho?
saudade!!!!
troquei de computador mas carreguei o sexo anal comigo!
bjooo

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em outubro 1, 2008 3:35 AM.

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