"meias vermelhas & verdades inteiras", de marcos donizetti

A primeira coisa a ser dita sobre os textos do Doni é que eles são sensíveis.

Não aquela sensibilidade piegas: uma hipersensibilidade que muitas vezes incomoda; não raro, emociona. Uma sensibilidade que extrapola palavras; parte de cenas, gestos, sons, imagens.

Uma mulher se olhando num espelho, as costas admiradas pelo recente parceiro no sexo. Um carro que cruza um temporal ao som de Sonic Youth. Uma garota de cabelos desgrenhados vestindo meias vermelhas. Gestos, sons, imagens. Com uma telúrica sensibilidade; o olhar de quem emoldura, congela, eterniza, bota em palavras a cena. Embora as palavras, devo dizer, importem pouco.

Parece que os textos de Doni não são feitos de palavras.
São como pinturas - e não retratos, pois não são fiéis demais, não são realísticos demais -, trazem traços mais profundos, claro-escuros, tons pastéis, cores que saltam em momentos especiais.

Isso (o trabalho com imagens estáticas que o Doni transforma em textos) gerou uma insegurança grande nele, autor.

Vejo Doni pensando: "o que foi isso que escrevi? É realmente bom?". Dúvidas de quem escreve, em geral. Mas no caso dele a dúvida se amplia, já que seus textos talvez não sejam contos, não delineiam histórias, não procuram enredos. Snapshots de uma realidade específica - a que fala bem ao universo feminino e às angústias da juventude contemporânea. Especialmente à realidade do sexo - como forma de comunicação e de não-comunicação. É isso "Meias Vermelhas & Verdades Inteiras".

meias vermelhas.jpg

A insegurança do autor entretanto, não é defeito - como bem poderia ser se ele trabalhasse com enredos intrincados. Não: a insegurança forma uma sombra sobre a fotografia que o Doni descreve tornando-a mais interessante, como numa pintura-foto desses novos hiperrealistas, como Ralph Goings.

Sim, Doni não trabalha com o surreal, com o irreal, com o imaginário e, até que ele mesmo diga o contrário, com imagens dos arcanos mentais. O objeto do Doni é o ser-humano, a realidade, a rua, as sensações comuns, os desejos que encaminham destinos para o sexo.

E por tudo isso, ele se destaca no cenário de contistas atuais, tão preocupados com metáforas, hipérboles narrativas, malabarismos verbais desnecessários ou mesmo em construir mundos surreais, enredos intrincados cheios de "pegadinhas".

A "pegadinha" do Doni é nos chamar a atenção para a realidade. Ou melhor: para partes da realidade que muitas vezes passam despercebidas quando olhamos o todo, superficialmente como fazemos sempre, por conta da massacrante rotina do Mundo.

2 Comments

Tá faltando minha cópia gratuita... =)

Ainda é muito estranho (e maravilhoso) ler a opinião das pessoas sobre meu trabalho. Muito legal, mto mesmo!

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em março 11, 2008 4:19 PM.

nelson moraes confere o saldo é a postagem anterior.

um filme invisível é a próxima postagem.

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