Sexta-feira santa. Feriado. Final de semana prolongado. Feriado cristão, num país de maioria cristã. Cristãos, pois sim: loucos por uma praia, cerveja gelada, churrasquinho na laje. Estradas entupidas, postos de beira de estrada que vendem bebidas alcoólicas (cúmplices de centenas de mortes diárias), diferenças entre vizinhos por causa do volume do som tocando pagode.
Em Limeira hoje, teve cinco suicídios. Bom, quatro foram confirmados como suicídio, outro pode ser um homicídio. Não faz muita diferença. Quatro suicídios num único dia é muito até para uma cidade de um milhão de habitantes. Limeira tem pouco mais de 250 mil.
Por que essas pessoas se mataram? Bem, o céu estava cinza, as ruas estavam vazias e elas provavelmente não tivessem a mínima vontade de freqüentar a celebração (não se diz "missa" na Sexta Santa, sabia?) católica - ainda mais num dia de imolação e jejum e padres deitados no chão para relembrar o sofrimento de Cristo - às três horas da tarde. Leio num jornal que a espinheira usada para fazer a coroa de Cristo havia sido importada (naquela época, como diziam?) de algum lugar distante. Era tipo "a espinheira que mais dói entre todos os tipos de espinheira para fazer coroas existentes na região!". Manja?
Essas coisas me incomodam - e bem podiam incomodar esse pessoal que se matou.
Pra quê essa merda de feriado? Alguém me diz?
Se não fosse feriado, esse pessoal ia se matar?
Se eles tivessem que levantar e ir trabalhar, estudar, fazer qualquer merda e não se preocupar por qualquer coisa estúpida, esse pessoal ia botar uma corda no pescoço e pular de cima da árvore?
Esse feriado serve para algum tipo de reflexão sobre a intolerância religiosa que dá o tom das guerras todas, do terror, de uma indústria do medo?
Em muitos lugares - e aqui também! - encenam a paixão de Cristo, fazem a Via Sacra ao ar livre, com a entrada permitida para crianças, aquela coisa deprimente do Cristo sendo crucificado, a garotada com cara de assustada. Fazem, a cada ano, a coisa mais ensangüentada, como fez Mel Gibson. Imagino quantas crianças crescem pensando "bem, disseram que aquele cara, aquele tal Jesus, deixou se matar por mim, então eu devo algo a ele e ao pai dele, Deus" - é um pensamento que todos aqui no Ocidente tiveram ao menos uma vez na vida.
Dawkins fala sobre isso, o massacre psicológico que vem acontecendo ao longo dos tempos nas mentes das crianças. Mas ele não fala, em "Deus - Um Delírio", como a inspiração da educação cristã ocidental pode ter incentivado suicídios.
Jesus, pela história que nos é contada, sabia que ia ser morto. Ele se deixou matar. Fez isso para expiar nosso pecado capital. Na cruz, afirma ao Pai que as pessoas que fazem isso com ele - o matam! - não sabem o que fazem. O que mais pode levar um sujeito ao suicídio que a incompreensão?
Todos esses mortos na Sexta Santa devem tem pensado, ato último, que quem ficava por aqui não sabia o que tinha feito.
MARAVILHOSO post, Bia! Assino embaixo. :)
feriado pra que?? quero trabalhar,quero dar lucro,vender minha força de trabalho como dizem os velhos marxistas,quero fazer meu patrão encher o rabo de dinheiro.
Pra que feriado?ora,pipocas.
Adorei esse post!
Bia, ainda vou ler o livro do Dawkins. Tem aqui em casa. Eu me coloco como uma atéia agnóstica. Atéia porque duvido que o ser humano tenha conseguido, a partir desses todos mitos de criação (alguns lindos) que inventou, chegar À RESPOSTA. Agnóstica porque acho que, assim como um cachorro não sabe que porra é um computador, a gente não sabe que porra é A EXISTÊNCIA, por mais malabarismos científicos e espirituais que sejam feitos em prol desse conhecimento. Mas eu respeito os malabarismos. Só que sou pessimista e acho que a humanidade acaba antes de A RESPOSTA. Se é que há A RESPOSTA. Quando ler o livro do Dawkins, faço questão de te mandar minha opinião. Minha opinião atual a respeito de A EXISTÊNCIA é: não duvido nem acredito, muito pelo contrário.
Mas eu gosto de feriados. Adoro ter aquele dia de ficar à toa, ou de ficar ocupada com coisas que não sejam um trabalho institucionalizado, cheio de regras e horários. É sacanagem ter feriado católico? Que venham os feriados evangélicos, os judaicos, os islâmicos, os da umbanda, os budistas! Eu acho que a gente trabalha demais.
Quanto ao suicídio, acho difícil dar palpite a respeito. Quem conseguiu chegar ao fim não pode explicar o que ocorreu, né? Não volta pra contar. Lembra do lugar onde moro? Bom, do prédio mais à frente e mais à direita, uma mulher pulou do sétimo - e último - andar. Morava no sétimo e último andar. Uma semana antes, comentou com a família: eu pensei em pular, mas tinha carro estacionado embaixo e eu não queria dar prejuízo pra ninguém. Segundo contam, ela tinha depressão profunda. Depressão profunda, entende? Assim como um diabético que está em crise e tem de ser internado. Parecia uma questão fisiológica. Outras questões do suicídio podem ser filosóficas, existenciais, religiosas (aqueles homens bomba que acham que vão encontrar as não sei quantas virgens, por exemplo). E quem sou eu pra explicar tudo isso?
Crer em algo é humano, assim como descrer. Eu, diante disso, só torço para que o nosso querido Estado Laico seja democrático e forneça feriados para todas as religiões. Assim vou ter folga, vou ter como passear em vez de trabalhar, e vou poder comer meu churrasquinho de picanha na sexta da paixão. E vou comer e beber com muita paixão.
Portanto, sossega o facho, deixa o povo aproveitar o feriado (com jejum e autoflagelação ou com cerveja e churrasco). Aproveita também (não sei se você trabalha no feriado).
É que nem futebol. Eu não gosto, não dou bola, mas que mal há em alguém direcionar suas dopaminas e serotoninas praquilo lá? Você não direciona isso pra música, pra filmes, para a Lia, para a Belle, para a Karen, para o Dudu, seus pais, para tantas pessoas e coisas que você ama?
Isso é o tal do cerumano! Sossega... Vou chamar dona Marta pra te falar: relaxa e goza.
Beijos pra você, pra Karen, pra Lia, pra Belle, pro Dudu e pra Jesus Cristinho que eu nem sei se existiu mas que me garantiu esse feriado do qual que estava precisando MUITÃO.
um dia ocioso a mais, ateus e crentes se apagam.
mas que uma flagelação no meio do caminho pode incentivar, ah, isso pode!
Um 'pequeno' adendo;
Lemimiski escreveu em ' Coroas para Tarquato' o seguinte: 'um dia as fórmulas fracassam.'
Caro Biajoni,
mesmo se não houvesse esse feriado, ainda teríamos muitos sábados e domingos para praticar-mos suicídio. Não seria por falta de dias ociosos.
Mas e ai, a culpa seria das conquistas das leis trabalhistas, ou da legislação trabalhista?
Por outro lado, o descanso nos finais de semana também não se presta à reflexão sobre uma possível intolerância dos empregadores, ou coisa parecida.
Estou longe de ser cristão, mas sinceramente eu não entendi a relação que vc quer estabelecer entre o feriado de páscoa com os suicídios. Mesmo porque, tirar a própria vida é pecado segundo muitas religiões, entre elas a cristã ( não matarás).
Eu não conheço somente um 'único' motivo para que uma pessoa leve a cabo o experimento de subir numa arvore colocar a corda no pescoço e saltar.
Mas tenho a impressão que a religião seja um fator menor na estatísticas.
Torquato Neto e Vladimir Mayakovsky , e ouso colocar nesta pequena lista, Hitler, todos praticaram suicídio e não ouso chama-los de religioso ou incompreendidos. No caso de Hitler, é preciso analisar melhor os significado para o termo compreensão.
Significativo é que o álcool carrega nos ombros, mais que a religião, o peso da culpa por muitos suicídios. Entretanto Vinicio de Morais era possuído pelo amor à vida, e Santos Dumont não era alcólatra.
...Mas boto minhas barbas de molho, não quero confronta-lo...
Eu ainda não tive oportunidade de ler Virginia Berlim-problemas técnicos-, mas favor, eu te entendo.
abçs.
O que vc escreveu é bem capaz de deixar Deus & Cristo de consciência pesada...
nossa, que brabeira, hein? também acho esses feriados católicos todos um acinte. claro que eu adoro feriados, mas poderiam ser por outro motivo qualquer, sei lá eu...
Algo me diz que você não está de muito bom humor hoje...:-)