Já me deitei. O enfermeiro dorme na minha alcova, numa cama próxima à porta. Deu-me já a última injecção do dia - e só amanhã de manhã, às nove horas - primeiro decreto do ditador que me quer salvar - volto a picar-me. Raras vezes, no meio da noite, eu sentia o termocautério da falta de morfina; e quando tal sucedia - era sempre na noite de domingo para segunda-feira - ou seja, quando, esgotada a reserva de sábado, eu sabia que só na manhã seguinte a poderia obter, legalmente... Nessas madrugadas de pesadelo, erguia-me, com bravezas de esfomeado que se revolta, e deambulava pela cidade, alvoroçando os outros morfinómanos conhecidos, esmolando-lhes umas pepitas de tóxico.
Precisamente por eu saber que estou agora sujeito a um regime severo, inviolável - é que a falta da droga começa a aguilhoar-me...
Só amanhã! Só amanhã! Remexo-me no leito - e sofro, como um enterrado-vivo, a estreiteza do ataúde, ou como um alienado furioso o apertão da camisa-de-forças. Se não tivesse sido hoje; se eu gozasse ainda a autonomia do meu morfinismo - bastava estender a mão, tactear o tampo da mesa-de-cabeceira - e logo encontraria a agulha, a seringa, o frasco da droga...
A chuva continua a fustigar as vidraças - e eu enervo-me, na insónia, prelúdio de outras mais - oh! , quanto mais! - asfixiantes do que esta! Vasculho, na memória, reminiscências amáveis - como um convalescente, saturado de tédio, busca na biblioteca livros amenos, romances de Edgar Wallace ou de Rafael Sabatini.
Recordo então uma página de J. Cocteau - o admirável reformador do teatro francês, dramaturgo e publicista, que trouxe para a mise-en-scene e para a literatura o lápis e paleta de Picasso. Cocteau, opionómano, resolvera curar-se e internara-se nessa Lourdes de todos os que aspiram, fumam, bebem ou se picam com estupefacientes, que é Saint-Cloud.
Na vizinhança do seu quarto existia uma morfinómana mundana. O seu isolamento não era absoluto - porque os médicos tinham transigido com um fox-terrier - que vivia na sua alcova, e que ela estremecia mais do que ao amante que lhe custeava o luxo das toilettes e da cura (a cura era também um luxo, para ambos, porque é chique e caro ser-se tratado ou tratar alguém em Saint-Cloud).
Uma tarde, às quatro horas, Cocteau foi sacudido por uma grita histérica. Era a sua vizinha de quarto que ululava como uma fêmea plebeia - ante as contorções agónicas de um filho. Nela, o instinto maternal despertara na adopção do cachorro - que embalava, desde miúdo, com as fantasias de criança mimando uma boneca. E o fox-terrier, envenenado com guloseimas e carícias para racionais - estrebuchava num ataque - como se se debatesse já com a morte.
- Este mártir está sofrendo há mais de uma hora! - informou a dama, borrifando o bicho, que acalentava ao colo, com o duche lento das lágrimas. - É preciso que lhe anestesiemos a agonia!
E numa brusca resolução - desarvorou, corredor fora - seguida por Cocteau que não sabia ao certo o que ela pretendia. Ao chegar ao gabinete do médico de serviço, entrou, suplicando-lhe, numa veemência ruidosa, que estancasse o tormento do moribundo.
- Não sou, positivamente, a pessoa melhor indicada para a atender - visto que não me formei em Veterinária... - retorquiu o médico. - Mas, em suma, dentro dos recursos da minha ciência, farei o que puder .
- Queria que o doutor lhe désse uma injecção de morfina... - explicou a dama, esganiçando-se num choro convulso.
O clínico cedeu - talvez comovido ante a teatralidade daquele pranto. Encheu a seringa e despejou-a na carne do fox-terrier. O cão, ainda não recebera metade do líquido, já se aquietara, num alívio, como se o tivessem arrancado à bocarra de um lobo. Adormecendo a seguir, recolheu ao quarto, ao macio colo da dona - talvez invejado por Cocteau que não perdia um detalhe do episódio.
...No dia seguinte, pouco antes de soarem as quatro horas - a hora em que o cão fora injectado na véspera - Cocteau surpreende-o a arranhar a porta do médico de serviço, a suplicar, em ganidos ansiosos, que a abrissem. Estava esplêndido, mas queria que lhe dessem outra picadela de morfina...
Dizem que a morfina bestializa os homens! Neste caso humanizou o cão. E nesse instinto de fraternidade maçónica que estreita todos os toxicómanos - senti um arrepio - pensando no pobre bicho - sofrendo já a falta da droga - tal como eu...
* O jornalista português Reinaldo Ferreira era viciado em morfina. Sobre ele e o livro de onde esse conto foi retirado, falei lá no meu outro blog.
Muito bom o texto. Quero ler o livro acima citado.
Gostei da primeira picada qdo tinha 18 anos, no hospital, num pós-operatório da coluna lombo-sacra... dez anos se passaram e hj uso uma bomba de infusão de fármacos que periodicamente é reabastecida com aproximadamente 12 vidros de morfina.
Hoje odeio a morfina, tenho pavor da morfina e não a suporto mais! Gostaria q existisse um meio de retirar esse implante (foi colocado por causa de dores alucinantes e crônicas)e nunca mais ouvir a palavra morfina. Entretanto as dores não medeixam em paz e abstinência dessa droga causa um sofrimento sobrenatural.É horrível.
Bem, é isso!
Biajoni!
Puxa Vida!
Eu li esse livro! Foi um achado!
Estava lá, perambulando pela biblioteca de Mogi das Cruzes, quando vi o título 'Memórias de Um Morfinómano', de um tal Jornalista X, Reinaldo Ferreira, do qual nunca tinha ouvido falar. Mas que delícia foi lê-lo!! Fodástico!
Abraço!
Realmente muito bom.
Nossa!
Muito bom o texto, surpreendente a história do cão!