"Incompletos" é o livro de contos de Albano Martins Ribeiro, o Branco Leone. É um livro de contos incompletos, já que os contos começam e acabam de maneira abrupta. Parecem fatias de um pão de forma - e temos a impressão, lá pelo meio do livro, que as fatias vão se juntar e formar um único pão, como se as fatias fossem episódios de uma história. Nesse sentido, o livro é incompleto: não forma um único pão; ficamos com as fatias ali apenas... e uma ampla sensação de incompletude, a rechear um ou outro sanduíche.
Um conto ou outro tem pontos de contato, formando alguns desses sanduíches. O recheio é um patê onírico, nos sabores "fluxo de consciência" e "problemas da urbanidade". Outros contos, além de desconexos em si, são também desconexos entre si e podem ser servidos como aperitivos de sonho, com patê de fumaça de cidade grande.
Deve haver algum motivo para a maioria deles começar com "Ele" ou "Ela"...
"Ele disse...", "Ela veio...", "Ela tirou...", "Ele tombou...", "Ela disse..." ...
Talvez seja o fato de Albano falar de pessoas e precisar ficar apontando para elas, numa necessidade de torná-las real para si e para nós, leitores. Talvez por serem todos, esses personagens de "Incompletos", fantasmas. Personagens que podem (e eu acredito nisso!) de fato existir realmente mas são tão, hmmm, incompletos & malucos & neuróticos que parecem seres que andam encostados nos muros chapiscados da cidade a ralar os cotovelos como se aquilo não doesse. Não dói em fantasmas, me disseram.
Aliás, não são apenas os inícios dos contos que começam com "Elas" e "Eles"; mas boa parte dos parágrafos do livro. Pode ser também uma maneira de Albano se descolar dos personagens, dizer que eles e elas são assim, mas não ele. "Olha lá que povo doido", diz Albano. E nós ficamos mesmo assombrados como o povo do livro é doido, tão parecido com todos nós. E com Albano.
No fragmentado espelho da realidade que é o livro, resta-nos a prosa fluída e única de Albano, como se fosse pequenos travellings subjetivos... Um detalhe é apontado aqui, outro ali. O clima de sonho passa por David Lynch e Tarkovski com doses cavalares de urbanidade. Faltou aqui algum despudor... Senti falta de um personagem dar um tapa na bunda do outro, algo de uma violência mais real e sexual. No mundo incompleto de Albano, até o sexo parece não se completar. O papel verde que encapa a edição, esconde a brunette que ergue a blusa e expõe o púbis peludo, desenho de Eduardo Schaal.
Parece que os contos também são encapados, mas o tom do celofane que embrulha o pão de forma fatiado é igualmente verde; a cor da esperança.
É isso: um livro instigante e original, que nos deixa com a sensação de seus personagens em vários momentos (ou seja: consegue fazer com que nos identifiquemos com eles). Não sofre das modernidades mais modernas nem dos umbiguismos da geração internet e, ainda assim, tem um gosto de novidade. É de leitura fácil, sem termos que pretendem demonstrar a erudição do autor - e isso é uma grande qualidade.
O Albano está a um passo do ápice.
A metáfora do páo de forma era exatamente o q eu estava procurando... estou me sentindo menos incompleto... ;-)
"Ápice" parece uma coisa que espeta. Não quero machucar o pé quando chegar lá. Mesmo assim, obrigado.
hmmmm, não li o tolkien, mas acho que não é não.
:>/
Sua resenha me lembrou um livro de contos do Eric Neponucemo,em que parece que chegamos no meio da história e que ela ainda não acabou,mesmo que vc tenha acabado de ler.Dá uma aflição interessante.
"Personagens que podem (e eu acredito nisso!) de fato existir realmente mas são tão, hmmm, incompletos & malucos & neuróticos que parecem seres que andam encostados nos muros chapiscados da cidade a ralar os cotovelos como se aquilo não doesse. Não dói em fantasmas, me disseram".
Bem que eu gostaria de ter escrito isso.
Estilo é tudo! Mas é para poucos.
Bia, só você resenha assim. Empresta o livro para mim?
Ou seja, é tipo o Contos Inacabados do Tolkien?