O debate caloroso no meu post “O Futebol é o Criacionismo dos Esportes” mostra que eu estou certo - o tal esporte é pior que religião. A discussão fugiu do tema central do post ("torcer é ridículo") quando o Doni fez o comentário dizendo que “Gostar de futebol, ou do Senna, ou de bolinhas de gude... São questões afetivas. O torcedor sente pelo time uma forma de amor, e não há qualquer forma de racionalizar isso, de encontrar um ‘sentido’”. Sim, é possível gostar de futebol como se gosta de lazanha ou de filmes trash. Isso é uma coisa. Outra coisa é ser irracionalmente apaixonado pelo time, torcer às lágrimas, perseguir ônibus – e esse tipo de Torcer me incomoda mais. Mas não apenas esse.
Se eu pudesse resumir, diria que “a intensidade fanática intrínseca e pessoal deveria ser inversamente proporcional ao nível de esclarecimento do, ér, torcedor” – o que não acontece.

Dawkins conta, em “Deus, Um Delírio” que tem amigos cientistas que acordam no domingo de manhã e vão com as esposas às missas, aos cultos, cumprindo um ritual religioso & social tradicional. Isso é uma coisa, Dawkins não pode recriminar. Alguns desses cientistas são indefinidos, tentam não pensar cartesianamente sobre religião. Outros são ateus não declarados, posam de cristãos em suas comunidades e eu acho que não são mais ou menos hipócritas do que aqueles católicos liberais que dizem às esposas que vão pescar no final de semana para se enfiarem num bordel qualquer. O problema, diz Dawkins e eu concordo, é o cara ser cientista, trabalhar com a ciência mais científica, ter um esclarecimento absurdo sobre as coisas todas, e... fazer uma oblação sobre a Caim & Abel ou as Sete Pragas do Egito. Eram sete ou dez? Sei lá.
Então, é difícil para mim que o escritor e quase-psicólogo Doni ou o inquieto e antenado Tiagón, conhecedores dos arcanos mentais, dos processos culturais semiológicos e etc..., se mostrem tão apaixonados por futebol ou por times específicos. Dói para mim que tratem do assunto como “algo irracional” pois, novamente citando Dawkins, mas também Hitchens, a desculpa de uma tradição ou de um conhecimento secular transmitido por ancestrais, acima do substrato da cultura, de um nível superior ou sobrenatural (o que podemos tranquilamente chamar de “lenda”) é o que vem motivando As Guerras. Assim como homens-bomba acreditam cegamente que virgens aguardam no paraíso de mármore – e não adianta nossa razão dizer que esse tipo de coisa não existe! -, pessoas vestem camisas com designs & cores berrantes e símbolos de clubes com patrocinadores e choram & gritam e se descabelam por causa de um Clube de Futebol.
No Rio, Tati Gejfin me chamou de imbecil insensível e eu fiquei me perguntando se Não Torcer por um time me faz um sujeito pior que o flamenguista que vive sob o inflexível égide “uma vez flamengo, sempre flamengo”. Quer dizer: você não muda de time. Os jogadores não têm nenhuma fidelidade, pulam daqui para lá, para quem paga mais. Mas aos torcedores é exigida uma fidelidade acima da religiosa – de religião as pessoas mudam, de vez em quando, até para arejar um pouco as idéias sobrenaturais, vai dizer?
Nos comentários lá, o amigo Flávio Prada apontou a cultura de rebanho do Futebol e isso é tão claro que me impressiono com quem debateu e/ou rebateu com ele. As pessoas, de maneira geral, escolhem muito pouco sobre suas vidas e com futebol é assim, claro.
O debate - se houver - deve estar relacionado a O Quanto Nos É Permitido Sermos Passionalmente Ridículos e Manipulados Sendo Inteligentes. Algo como acreditar que os ossos de dinossauros foram projetados e enterrados por Deus Todo Poderoso para que tivéssemos a impressão que existiu uma Pré-História.
(O título desse post é do Helder)
As dicotomias nos remetem a idéias ou atividades antagônicas enquanto que estão em jogo situações dialéticas no seu sentido lato. Um pouco filosófico demais mas falamos da característica de todas as coisas de serem o que são e seu oposto ao mesmo tempo. A famosa imagem da cadeira que é arvore ainda ao mesmo tempo que é uma não arvore já que é cadeira. Mas é cadeira sendo não cadeira enquanto árvore. Digo isso ilustrando o movimento do racional e do emocional em nós. Não existe oposição, existe interação permanente. O problema é quando perdemos o controle de ambos, o que ocorre sempre assim, o controle se perde sempre da ambos que vivem em simbiose, nunca de um aspecto somente.
Tudo isso para colocar em discussão a dualidade sempre mais presente em um mundo, como me faz lembrar o professor Galimberti, onde a técnica se sobrepõe aos valores que se desenvolveram por séculos. A diferença é que enquanto os valores humanos tem graus infinitos e tonalidades, a técnica é sinônimo de resultado, o preto no branco. O homem projetado e educado com base ao valores e conceitos ( política, ética, identidade, religião, história e muitos outros) se vê as voltas com um mundo que lhe exige racionalidade absoluta e nada mais. O frio maquinar dos números, é isso que o mundo da produção de massa nos exige. De nada valem as infinitas horas de fruição da música e a leitura dos clássicos e dos não clássicos que nos ensinavam a organizar ou antes, reconhecer os sentimentos e dar a eles um nome. A educação emocional e sentimental não tem o valor que já teve. Isso leva à pobreza do espírito e dà espaço as explosões dos sentimentos que estão todos là, não catalogados, confusos, sem nome. E como dito no inicio, nos afasta também e paradoxalmente da racionalidade. Uma perda total, uma trombada de frente.
Nesse cenário, um elemento de reforço é a indústria de produção cultural, que avança exatamente no sentido de formar mentes dessembilizadas mas com pulsão suficiente a ponto de consumir a catarse como produto de primeira necessidade. Claro é que se eu não me nutri de uma educação dos sentimentos em modo racional, serei como obrigado a remeter essas energias em algo que me alivie essa dor de viver. E quando a oferta de derivativos é generosa como nos dias que correm, não serve mesmo pensar muito, embarcamos e ponto.
Até aqui, como antes, não faço julgamentos, somente tentando equacionar a partir de fatos. Porque o esporte, o futebol em particular que é o objeto aqui, tem também todos os elementos para uma boa educação dos sentimentos. Ocorre de tudo em um campo. A estratégia, a injustiça, o erro, a vitória, infinitas situações. Evidente que é educativo e promotor de comunhão. O dano começa a se produzir quando a dimensão mítica se sobrepõe ao prazer da fruição consciente e motivada. Me projeto no deus, que nao são outros que rapazes que sabem bem bater na bola, e lhes dou o estatuto de meus libertadores.
Eu morei em uma república com um sujeito que torcia pro Santos. Um dia ele ouviu um jogo pelo rádio, deitado na cama. O Santos deu de 5 a zero em sei là quem. A partir daquele dia, ele estava mais do que convicto, que devia ouvir os jogos do Santos, deitado na cama pra ajudar o time. O mecanismo que fazia com que esse cidadão, pudesse acreditar que o seu gesto influenciaria um time de futebol em ação a quilômetros de distancia é que é perigoso. Não ficou nisso, as vezes as sobreposições de horários faziam com que certos jogos fossem transmitidos em replay. Ele ouvia até o replay deitado, mesmo quando não estava em casa. E sou eu que sou doente? ;-)
Beijos a todos.
super debate.
:>)
"Ser-Humano, Um Delírio" é um EXCELENTE título.
Tiagón manda bem... A natureza humana está muito além da racionalização e muito acima do "gostar ou não de futebol". Fico pensando num post chamado "Ser humano, um delírio".
Talvez seja uma coincidência absurda que eu não tenha religião (nem acredite em deus) nem time de futebol (e ache um tanto quanto idiota assistir jogos de futebol & torcer, embora jogar seja legal)
Talvez seja outra coincidência que a maioria das pessoas com quem eu mais me identifico também compartilhem dessas duas características...
Mas é muito provável que não seja.
bueno.
"a intensidade fanática intrínseca e pessoal deveria ser inversamente proporcional ao nível de esclarecimento do, ér, torcedor – o que não acontece."
quer aplicar lógica cartesiana ao humano? errado. não preciso dizer isso. Nelson Rodrigues foi um torcedor notável.
quantos homens "inteligentes" (esse teu 'nível de esclarecimento' é muito matemático pra mim) não se tornam idiotas diante de uma mulher? ou perderam tudo no bingo? e antes que pense em evocar o sentimento de rebanho pra diferenciar as metáforas, digo que é exatamente isso o que me parece que deveria estar sendo tratado, e tu apenas tangencia - de que forma o futebol se encaixa na dimensão humana. o futebol, as mulheres, os vícios e paixões que 'desarmam' um "homem esclarecido".
e aqui eu nem elevo essa paixão à religião, nem à arte, nem nada; é um vetor. não acho que futebol, pra existir, precise de "fanáticos" - pelo contrário, nenhum fanatismo presta. o exemplo que eu melhor posso conhecer é o meu: nunca achei razoável gastar 150 reais numa peça de roupa. minha camiseta é a de 1995, que uma ex-namorada deixou de herança. vou a campo e ouço jogo em casa, mas deixaria de ir a uma final de campeonato porque nasceu o filho de um amigo. faço parte de um rebanho - mas ao menos um que eu escolho. e me dá algo em troca.
mas no final, em que tu repete o post anterior e te eleva etnocentricamente sobre a multidão, a dúvida se resolve:
"O debate - se houver - deve estar relacionado a O Quanto Nos É Permitido Sermos Passionalmente Ridículos e Manipulados Sendo Inteligentes."
esta questão foi redirecionada para "Debate sobre a Natureza do Ser Humano".
Ao final do post você nos propõe um caminho para o debate que é uma antítese a Dawkins.
Um recurso um tanto quanto Barroco; confrontar para evidenciar um dos conceitos envolvidos, já que não o obteve na possível força individual da exposição isolada.
E é notável que você estabeleça os parametros das relações entre o que deveria ser e o que é da mesma forma; definindo o adjetivo 'fanático' (“a intensidade fanática...) numa escala de graus. Entre os pouco fanático ou os muitos fanático, contrastando o adjetivo com ele mesmo só dependendo de uma boa ou má sintonização. E, resumindo sem querer resumir, você diz; “a intensidade fanática intrínseca e pessoal deveria ser inversamente proporcional ao nível de esclarecimento do, ér, torcedor”. O que me leve a crer que existam fanáticos melhores que outros.
Assim sendo, é claro que você não é pior que o torcedor flamenguista. Entretanto não é melhor. E creio também que um não seja mais lúcido que o outro. Imbecis jamais.
De qualquer forma, acho que torcedores de times de futebol se encaixam , em espirito, melhor na hipocrisia da maioria dos cristãos que se enfiam em bordéis do que na dos cientista ateus.
O curioso é que o comentário do Donizetti, além de me despertar para o termo fanatismo, quando afirma; "...Agora, culpar o objeto me faz lembrar do cara que chega em casa e pega a mulher dando para o vizinho no sofá... e vende o sofá! Parar para pensar no pq de a mulher ser uma vaca? Por que, se podemos culpar o sofá?) , me lembrou que o Flavio Prada usou o mesmo argumento no post anterior sobre o futebol, só que numa argumentação contrária:
"Defender o futebol como remédio social é admitir que existe uma doença. Eu particularmente quando estou mal, tento me livrar das causas do mal e não adorar o remédio..."
Abraços.
Pensando bem, você tem razão. Um exame de consciência mais acurado me condena. Minha paixão pelo Santos beira o fanatismo. É mesmo quase uma religião. Nem posso dizer que sou incapaz de enfiar porrada na cara de alguém se falar mal do Santos. Uma constatação pra lá de dolorida. Mas já há um avanço em se perceber ridículo. (cristiano)
Ai, como é bom não torcer pra nada! Se eles soubessem...
Já que falamos em psicologia... Percebe a necessidade de haver uma dicotomia? religiosos x cientistas, torcedores x quem detesta futebol, gays x héteros... O problema não é o esporte, ou a religião... Mas a tendência que o homem tem ao fanatismo. Ligada a ela, intimamente, há a tendência à "cultura de rebanho" (que existe em N outras situações). Sua própria necessidade de apontar o dedo para o torcedor e dizer "não te entendo!" é sintoma disso tudo. Não podemos culpar o futebol, ou a religião. Não existissem, teríamos os fanáticos por, sei lá, música! (ops, já temos, e eles também se atacam). Estudamos, em psicologia, o que nos leva a esse fanatismo, a essa paixão cega... Agora, culpar o objeto me faz lembrar do cara que chega em casa e pega a mulher dando para o vizinho no sofá... e vende o sofá! Parar para pensar no pq de a mulher ser uma vaca? Por que, se podemos culpar o sofá?