Começa hoje na Cinemateca e no CCBB, em Sampa, a maior e mais completa retrospectiva do cineasta José Mojica Marins. São 25 filmes, incluindo um inédito, recuperado depois de 27 anos, "A Praga". Haja coragem para encarar os pornôs e faroestes vagabundos que ele, ér, "dirigiu". Mas os filmes de terror, especialmente os "Filmes do Zé do Caixão", são um primor de criatividade, primitivismo, força bruta latente. Acho que foi o Carlão Reichenbach que disse que o Zé é um "animal de cinema". É!

Estive algums vezes com o Zé. A primeira vez foi interessante, ali por 1993. O Zé aplicava um golpezinho inocente - e talvez ele até acreditasse nisso!: visitava cidades do interior procurando locações para uma superprodução chamada "O Portal do Olho do Inferno", ou algo assim. O filme nunca saiu do papel. Nessas visitas ele era sempre paparicado pelas autoridades (especialmente secretários municipais de cultura), pela imprensa e por fãs. Ficava graciosamente hospedado em bons hotéis, comia em bons restaurantes e, possivelmente, ainda levava alguma graninha...
Por volta desse ano, 93 (minha memória está cada dia pior), ele veio a Americana meio para que para fazer as pazes com a cidade. Na década de 70 o diretor tentou rodar uma de suas "cenas de cemitério" de maneira furtiva, na calada da noite, no cemitério da cidade. O muro era bem baixo, a equipe pulou para dentro e começou a rodar rapidamente, quando alguém descobriu e ligou para a polícia. A equipe profana teve que sair correndo, alguns equipamentos foram destruídos pela liga das senhoras católicas!
Americana é uma cidade violenta.
Então a volta de Zé tinha um sabor de conciliação - embora boa parte das boas velhinhas da liga das senhoras católicas já tivessem ido ao encontro do Criador.
E alguém marcou uma entrevista especial com ele na emissora de TV onde eu trabalhava. A entrevista, de uma hora, seria conduzida pelo jornalista (e meu mestre) Walter Bartels. A gravação seria às quatro da tarde. Lá pelas duas caiu a maior chuva, o carro do Walter quebrou, ele não chegaria a tempo. Tínhamos que arrumar outro entrevistador. Os poucos que estavam na casa não se julgavam preparados para a entrevista. Ninguém, exceto eu, tinha visto um só filme do cara! Sobrou pra mim!
Com 23 anos e uma gripe ferrada, aceitei gravar "no pau" (sem possibilidade de edição), a entrevista com o temido Zé do Caixão, aquele estranho homem que assustava minhas noites de sexta-feria na TV Record com seu programa de contos de terror.
Ele chegou no horário, vestido do personagem, unhas enormes.
Tinha um negão de segurança e uma loira baranga metida num vestidinho a tiracolo.
Fiquei com mais medo da loira.
Simpaticíssimo e fumava Minister. Serrei um cigarro dele.
Baixinho, mais baixo que eu, um sujeito quase de meter dó.
Rolou uma empatia e a entrevista foi ótima, um sucesso, toda cidade viu.
E todo mundo veio falar da minha voz fanhosa, nariz entupido por causa da gripe.
Não passou muito tempo eu estava trabalhando em Limeira e ele apareceu lá com a mesma conversa de Americana. Lembrou da entrevista. Repetimos a dose, desta vez uma entrevista menor e que, aparentemente, era entre dois amigos. Não era, mas fluiu legal. O Zé tem uma qualidade especial para entrevistados: ele acredita piamente no que diz, até quando diz uma barbaridade. É péssimo entrevistar alguém em dúvida.
É bacana entrevistar o Zé, mesmo com os "praticamente". De cada três palavras que o Zé fala, uma é "praticamente".
No Caderno 2 de hoje o Ignácio de Loyola Brandão fala sobre o Zé e destaca uma cena de "À Meia Noite Levarei Sua Alma", uma das minhas cenas preferidas e que sempre cito em meus cursos para ilustrar como os tempos mudaram. É a tenebrosa cena em que o Zé aparece comendo uma costela de porco em plena Sexta-Feira Santa. Aquilo era arrepiante para a época, hoje é pra dar risada.
:^)