Depois de “Ficções”, Borges seguiu escrevendo contos fantásticos que reuniu posteriormente em “O Aleph”. “O Aleph” é o título de um dos contos. Algumas vezes eu me pergunto por que Borges não deu a essa reunião o título de “Ficções II” ou “Mais Ficções”. A escolha pelo nome do conto para o volume talvez apontasse que ele era o seu preferido... Mas, nas entrevistas, o autor sempre apontava “O Imortal” (conto que abre o volume – lembremos de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertuis”, que abre “Ficções”) e “Emma Zunz” como os seus preferidos. O livro não deveria ter um desses dois nomes?
Talvez “O Imortal” soasse grandioso demais, prepotente, e Borges tinha esse rasgo de humildade. E “Emma Zunz”... bem... “Emma Zunz” não era bem uma “história de Borges”; e isso também podia incomodá-lo. A história de “Emma Zunz” foi contada a Borges por Cecília Ingenieros. Mas não só por isso: elementos destoavam do habitual borgeano; sexo, mulher, assassinato! E ele trabalhou muito nela antes de achar que estava bem finalizada.
Era um tema violento e agressivo para Borges. Era o “Psicose” de Borges – e ele não podia escrever “colorido”, tinha que optar por um "preto-e-branco" que não chocasse demais a audiência. É um conto noir, de estilo, que sempre me chama a atenção os sobrenomes dos personagens.
Como achar um nome e um sobrenome para um personagem?
Em “Emma Zunz” como não pensar em uma guerra entre judeus com seus Tarbuch & Loewenthal?
Como não pensar nos sobrenomes das amigas de Emma: Urstein e Kronfuss?
Estaria vendo, debaixo da superfície, um tiquinho de crítica à “capacidade judaica de prosperar”?
Lembremos por um momento que “O Aleph” guarda também o conto “Deutsches Réquiem”. No Epílogo do livro, o autor diz, de maneira enfática demais, que “Na última guerra (o livro é de 1949), ninguém pôde sentir mais que eu a tragédia do destino alemão; ‘Deutsches Réquiem’ quer entender esse destino, que não souberam chorar, nem sequer suspeitar, nossos ‘germanófilos’, que nada sabem da Alemanha”.
(Uma coisa legal seria comparar os dois contos, a personagem de Emma com o narrador de “Deutsches Réquiem”, Otto Dietrich zur Linde)
Mas tudo isso é besteira, no final, perto do que o conto é: um ótimo relato de vingança, daquelas que se come fria.
Em “Emma Zunz” Borges é novamente o narrador onisciente, talvez um pouco divino. Um pouco, pois têm coisas que ele diz não saber ou não ter certeza, tal como o nome Fein (ou seria Fain?). Outras, intui: “Tenho para mim que pensou uma única vez e que neste momento correu perigo [...]”. Faz diferença esse bocadinho de dúvida, já que toda história é motivada por um segredo que apenas Emma conhece. Emma e nós, leitores, já que o narrador nos conta. Bem, talvez ele também não esteja muito certo sobre tudo.
A questão principal do conto, para mim, está na motivação do crime. Emma é cerebral e fria ao arquitetar o plano mas, no final, acaba cometendo o assassinato por outro motivo: para fazer valer todo o sacrifício que sofreu para executá-lo. O fim tinha que justificar os meios. A morte de Loewenthal expiou o pecado que ela própria cometeu enquanto colocava em prática seu plano macabro. Como disse Rousseau: “Se a razão faz o homem, o sentimento é que o conduz”.
(Esse post é a propósito do Clube de Leituras do Idelber, e vc também pode participar, já que ler e discutir Borges é sempre ótimo)
Biajoni, gostei da sua leitura. Só não entendi porque você diz que “Borges é novamente o narrador onisciente”. Nada no conto diz que Borges é o narrador, não é? Só porque é um narrador impessoal e onisciente (ou quase, como você bem ressalta), isso não permite dizer, me parece, que esse narrador seja o próprio Borges.