minhas palavras sobre borges & a loteria em babilônia

Creo que soy incapaz de pensamientos próprios. – Borges, Revista Vision, n. 52, 10 de março de 1979 in “Dos Palabras antes de Morir"

Borges não era criativo.
Tá, agora me atirem pedras, crucifiquem-me no palco da intelectualidade.

Me sinto tranquilo para falar de Borges como se sente um amigo a falar de outro, muito próximo, nem que seja para confessar segredos dele, desses que se fala de alguém depois da morte. Eu olho para esses livros, para esses contos, e vejo milhões de informações... Vejo a agulha de costura de Borges criando furos e vagas, passando pela sua cultura para dar forma à idéia que ele queria transmitir naquele momento. Esse era um grande problema para Borges: ele tinha muita informação, era difícil pensar sobre qualquer coisa sem criar uma referência. Se escrevesse hoje, Borges seria craque no hiperlink. Aliás, corria o risco de ser ilegível, tal o número de hiperlinks.

Quando perguntado sobre qual seu conto preferido, indicava sempre “A Intrusa” e “O Sul”, contos baseados em histórias que ouviu, contos bem lineares, quase sem referências. A primeira história, da intrusa, ele ouviu da mãe, e recriou. No prólogo de suas obras completas, quando escreveu sobre a coletânea “Artifícios”, publicada junto com “Ficções”, onde se encontra “O Sul”, ele, chateado por considerar este conto “talvez o meu melhor conto”, previne que é possível “lê-lo como direta narrativa de fatos novelescos e também de outra maneira”. Quase uma besteira. Admirador de Kipling, Borges gostava de narrativas diretas e esses são seus dois contos mais diretos, portanto preferidos. Quando diz que pode ser lido “de outra maneira” só quer colocar a pulga atrás da orelha dos que gostam de caçar referências, ver pêlo em ovo.

Borges queria poder imaginar histórias diretas e puras – mas, malditas informações que rondavam sua mente! Não conseguia escapar da metáfora, do oxímoro, da metafísica, do exemplo, da ironia, do contraste, da alegoria... Se pensasse em retomar uma sugestão de Gurdjieff já pensava num Spinosa, num Voltaire e até talvez num Buda e num Kafka – sim, referências distantes umas das outras que ele via como integrantes do grande véu da REALIDADE LITERÁRIA. Para ele, criado por mãe católica, pai protestante, não existia Deus – mas ele bem o respeitava como grande criação literária.

Assim chegamos à “Loteria de Babilônia”, que se quer analisar. Pode ser uma grande brincadeira de Borges, como Kafka inventando um Deus ex-machina. Não é a toa que se encontra uma “latrina sagrada chamada Qaphqa”.

No prólogo de “Ficções” das suas “Obras Completas”, Borges destaca quase negativamente “A Loteria em Babilônia” dizendo que o conto “não é totalmente isento de simbolismo”. Simbolismos vazam por seus parágrafos, referências que remetem até a Joyce (que ele achava um chato): temos inicialmente a descrição de quem seria o narrador, que já teria sido isso e aquilo e portanto talvez tivesse vivido várias vidas (uma conotação espiritual), temos referencias a símbolos e nomes talvez obscuros (conotação hermética), uma quebra do espaço-tempo contínuo na relembrança de Pitágoras e um avanço ao evocar o “antigamente” (“questão de séculos, de anos?”), vemos uma referência extraterrestre na nau que já vai partir ou mesmo na gerência misteriosa da Companhia... e por aí vai até mesmo ao romper a barreira da metafísica colocando sob responsabilidade (já que o narrador pode estar mentindo ou exagerando) da Companhia talvez os “matizes da ferrugem”. Essa costura de referências não resultou sequer em uma história. Borges deve ter ficado constrangido quando lhe elogiavam “A Loteria em Babilônia”.

Borges bateu a cabeça numa parede ao subir uma escada e, na seqüência, escreveu uma série de contos que considerou, posteriormente, os melhores. “A Loteria em Babilônia” foi escrita depois de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertuis”, “Pierre Menard, autor do Quixote” e “A Biblioteca de Babel” - todos “contos de referências” muito melhor resolvidos, inteligentes, legais. Incomodava Borges a idéia de ter tido tão poucas idéias geniais e de ser mau poeta. Talvez se espantasse de ver pessoas estudando seu continho complicado, etéreo e hermético mais de cinqüenta anos depois. Talvez ele considerasse as suas duas palavras antes de morrer:

- Me arrepiendo de todo lo que he escrito.

Bem, ele não precisava se arrepender de tudo – isso é fato.

*A propósito da discussão no chapa Idelber.

12 Comments

Eu acho o Borges um verdadeiro pé no saco! Pronto, atirem-me mísseis e gilhotinem minha cabeça na praça dos eruditos.

Na verdade, sempre achei Borges um pé no saco! Pronto, atirem-me mísseis e guilhotinem minha cabeça na praça dos eruditos!

Cara, na Flip teve uma overdose de Borges, e eu nada conheço dele, ainda. (VERGONHA) Mas acho que, apesar de tarde, ainda é tempo de corrigir este erro.

Fiz uma resenha no meu blog também: http://grandeabobora.com/?p=1192

Fiz uma resenha no meu blog também: http://grandeabobora.com/?p=1192

'Quando diz que pode ser lido "de outra maneira" só quer colocar a pulga atrás da orelha dos que gostam de caçar referências, ver pêlo em ovo.'


Pôxa Biajoni, eu juro que depois de ler seu texto, eu corri, peguei um ovo, olhei para ele durante alguns segundos , e acredite, não vi graça.
Tá bom, eu detesto ovos. Nada me entedia mais que aquele formato oval.
Além de serem chatos, eles têem aquela forma oval mas são chatos, a única coisa que ocorre quando me deparo com um, é quebra-lo para ver dentro. Ou quando o ovo vem com alguma pena colada na casca e ai fico pensando na galinha.

Mas vai ver que é culpa minha.Por saber que a galinha bota ovos e também achá-la sem graça, fico tentando justificar essa total falta de graça na careca de um ovo.

Polêmico, hein seu Biajones? :)

Mas vai ver é isso mesmo.

Agora, "O Sul" é imbatível. O personagem principal inclusive também bate a cabeça, vai ver em alusão a experiência de Borges que você descreve. E se ele tiver escrito o conto antes de bater a cabeça tanto melhor. :)

poxa, vários.
:>)

mas o tlön e o aleph são imbatíveis, né? a primeira página do aleph vale muito.
;>)

a intrusa é ótimo, fiz até uma versão para esse conto, no passado:
http://proteus.limeira.com.br/tiroequeda/noticia.php?nnot=1080

:>)

E qual é o preferido do Biajoni?

Ok, agora entendi o teu comentário.

Mas, olha, como eu não conheço a obra de Borges direito julguei q a confusão seria proposital.

"Deve ser", ainda diz um lado do meu cérebro. O outro quer dormir :D

OBS: esse teu captcha é quase impossível! Eu me sinto em Blade Runner tentando respondê-lo...

Adorei o texto. E concordo com você: acho esse conto muito mal resolvido e bem abaixo dos grandes momentos de Borges.

Uau. Obrigado mesmo :-)

Mas agora você se obrigou a escolher o conto da semana que vem, né não ?

"O sul"?

:>)

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em setembro 18, 2007 9:46 PM.

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