o enigma da pedra

A reedição de "Fup" no Brasil, revelando uma horda de fãs (muitos escritores), com total êxito (números apontam para 30 mil exemplares vendidos), fez com que Jim Dodge, o autor, viesse para a FLIP - que podia se chamar "FLUP", segundo alguns, em homenagem à pata, personagem principal que dá nome ao livrinho. Livrinho pois são poucas páginas que contam a história do relacionamento entre um jovem órfão e seu avô mais a tal pata. É leitura leve e rápida, de grande fluidez, com final psicodélico. Dodge é um hippie. Mas provavelmente o hippie com maior capacidade narrativa entre todos os escritores hippies. Não é "Fup" que o coloca neste posto. É "O Enigma da Pedra" ("Stone Junction", no original), sua obra mais ambiciosa, já lançada no Brasil com uma horrorosa capa pela José Olympio. Sebos virtuais colocam o preço de 50 reais em exemplares dessa edição nacional, de 1995. Comprei dois deles em sebos de Limeira por R$ 8,00 cada, depois de pechinchar um pouco. Um dos exemplares eu dei para o brou Fábio Shiraga, por ocasião de seu aniversário. O outro, li.

E que livro!

Primeiro é preciso ressaltar o grande trabalho de tradução de Mauro Pinheiro. Profissional - você vê a coisa fluir como se um velho hippie contasse a história. Dá pra sentir o sabor. Veja esse trecho:


"Ele teve dois momentos de sorte seguidos. O primeiro foi uma bala que raspou seu lábio inferior, tão perto que fez uma bolha de água, mas não chegou a romper a pele. O segundo foi um velho enrugado seguindo na direção do estacionamento, alheio à luz persecutória do holofote e aos estampidos dos disparos, tão distraído no meio daquilo que quando Shamus encostou o revólver na nuca do velho e disse "Entre no carro e caia fora", ele virou-se e disse, aturdido, "Catapora?"

Vai dizer?

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Mas, bem, qual a história de "O Enigma da Pedra"?

É a história da educação e do descobrimento de Daniel Pearse.

Ele nasceu de pai desconhecido, tendo como mãe a jovem adolescente e impetuosa Annalee. Mal nasceu e já está dentro de um caminhão, fugindo com a mãe. Fugindo, ambos, de um destino que a sociedade iria impor a eles de maneira muito cruel. Espíritos livres, não poderiam viver adequadamente entre os comuns. São, então, adotados por uma sociedade internacional de marginais, magos e foras-da-lei chamada de AMO (Alliance of Magicians and Outlaws). De plena concordância com o filho, Annalee decide não manda-lo à escola - ele aprende a ler, escrever e sobre tudo o mais em casa; um velho rancho que serve de abrigo a vários integrantes da AMO. Vai também, é claro, aprendendo sobre "o que não deve". Nesse início de aprendizado temos personagens lindos e cativantes, como o descendente de índio Johnny Seven Moons (personagem que já havia aparecido em "Fup"). Num dia de chuva no verão, Johnny, que era hóspede no rancho da AMO, tirou a roupa e convidou mãe e filho para fazerem o mesmo... Saíram todos correndo, nus e de mãos dadas, numa das cenas mais bonitas do livro.

Um desses hóspedes do rancho foi Shamus, por quem Annalee se apaixona. Daniel gosta dele e gosta de ver a mãe passar algumas noites no quarto de Shamus. Ela diz ao filho que o ama acima de tudo, mas que gosta muito de estar com Shamus - ele a faz feliz. Daniel concorda em dividi-la com ele.

Por uma série de fatores, mãe e filho ficam longe de Shamus por um tempo. Annalee e ele voltam a se encontrar um tempo depois: ela enta numa biblioteca e o vê folheando um livro:

"Shamus fechou o livro que estava examinando e o devolveu à estante sem dar por sua presença. - Eu tenho amado você e sentido a sua falta a cada minuto nesses últimos dois anos - sussurrou ele, olhando para os livros - e estou com medo de olhar para você, medo de que não seja você, talvez uma alucinação desesperada, um sonho ardente"

Sacou?
Já viu um trecho mais lindo que esse?

Bem, tem alguns ainda mais tocantes que esse. O meu preferido, na verdade, seria muito extenso para ser colocado aqui. Mas num aniversário de Daniel, em que ele passa sozinho com a mãe em um grande barco ancorado, ele pergunta sobre seu pai. Quem seria? Annalee perde o controle, eles brigaram, desfiguraram o bolo: ela não sabe quem era. Ela teve muitos homens entre os 16 e 17 anos... Senta ao lado do filho e vai contando pra ele suas transas, devagar, "com todo homem de carne e osso ou de sonho que ela conseguia lembrar ou inventar, heróis, poetas, fora-da-lei, loucos. Daniel ouviu atentamente e, quando ela acabou, ele fez algo que encheu os seus olhos de lágrimas: partiu um pedaço de bolo desfigurado e ofereceu para ela".

Assim caminha a história de Daniel Pearse, criado entre libertários e marginais, anarquistas e usuários de drogas, mas sempre gente que não quer o mal do outro. Ou quase nunca.

Tragédias acontecem em sua vida, ele acaba caindo sob os cuidados do Grande Volta, um grande ex-mágico, pessoa importante na AMO. Ele passa por treinamentos, ele tem uma missão, ele acaba tendo contato, no terço final do livro, com "a pedra": um diamante estranho e enorme, do tamanho de uma bola de boliche. Nesse último terço as coisas vão ficando estranhas, o LSD vai batendo nas tampas de Jim Dodge, mas não importa: a conclusão é linda e redime quaisquer falhazinhas desse entrecho dinâmico "um jovem criado para uma missão".

No meio disso tudo vemos a educação de Daniel Pearse progredir com ensinamentos de um velho e bem-sucedido jogador de pôquer ou de um jovem especialista na arte da maquiagem. E sabemos também de um problema específico de Daniel - e só isso já o tornaria um grande personagem -: ele não consegue transar duas vezes com a mesma garota. Nunca. É só uma e nunca mais.

Posso dizer que o ritmo de Jim Dodge impede que a gente perca o interesse e sempre cria painéis de fundo para personagens. Ficamos intrigados com narrativas que parecem deslocadas da trama, mas que desenham perfeitamente personagens e estados de espírito. Uma dessas cenas é quando o Grande Volta, um senhor bastante seguro de si, vê uma jovem ruiva de 10 ou 11 anos, "aquela idade estranhamente mercurial de pré-pubescência feminina que na verdade varia dos três aos 35", tentando acertar bolinhas dentro de aquários num pequeno parque de diversões. Volta quer ajuda-la, dar dinheiro, fazer com que ela ganhe um peixinho. Ele se lamenta breve e insensatamente por não ter tido filhos. Até que a menina erra suas útimas bolinhas e "disse 'Merda' rapidamente, como se a rapidez tornasse aquilo mais aceitável". Volta dá dinheiro a ela e ensina como ganhar. Ela ganha o peixe, mas não quer levá-lo com ela. "Minha mãe diz que é uma grande responsabilidade tomar conta de uma outra coisa viva". Volta fica com o peixe.

Uma cena que dava um livro inteiro, quase.

Assim é esse cativante e originalíssimo romance. Não tem mais pra vender nas lojas. Procure por aí, pois vale qualquer centavo de quaisquer 50 reais que você venha pagar.

E aposto que você jamais vai adivinhar o final.

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Post-Scriptums:
- Pynchon é um dos maiores fãs desse livro, tendo escrito: "Aqui encontramos a ficção americana em toda sua dimensão, fartamente imaginada e profundamente sentida, exuberante pelo seu senso de humor fora da lei e sua mágica franqueza".
- Reza a lenda que Dodge escreveu esse livro dentro de uma rotina auto-estabelecida, trabalhando nele cinco horas por dia durante um ano.
- Não me conformo de não terem feito um filme de "Stone Junction" até hoje. Seria um grande filme nas mãos de alguém como Terry Gillian.
- A ilustração desse post é de João Maio Pinto. Não conhece o cabra? É interessante!

6 Comments

Poxa... fiquei com muita vontade de ler... me empresta o livro?

Um pouco Aghata Chistie com alucinaçoes de chà batizado, um pouco J.K.Rowling "avant le lettre" com diarréia figurativa. Eu o vi como um comentàrio caleidoscòpico onde entra desde o resultado do poder de quem tem poder sobre os que nao tem poder nenhum atè a relaçao entre as diversas esferas do saber, passando pela eterna dicotomia entre real e virtual vista a partir da otica da era prè-internet.

ótimo, 24 reais é um bom preço, juju.
compre logo, vc vai amar.
:>)

Bia, fiquei na maior vontade de ler esse livro... puxa, deve ser muito bacana mesmo...

fui procurar e encontrei aqui (ainda nao comprei): http://www.estantevirtual.com.br/mod_perl/busca.cgi?alvo=autor+ou+titulo&pchave=%22jim+dodge%22&estante=%28todas+estantes%29&tipo=simples

vou ver se consigo! Beijao
Juju

Gosto quando está inspirado... o livro é muito legal mesmo, adorei os trechos que você leu pra mim, beijo.

Vou ver se começo a leitura do Enigma logo mais!

Tô precisando urgentemente de boa leitura mesmo.

Abraço, guei.

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em agosto 2, 2007 12:50 AM.

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