Tenho visto aqui e ali falarem da "Nova Literatura Brasileira" como se a literatura brasileira tivesse sofrido um colapso em algum momento e deixado de existir, voltando agora com uma geração de novos grandes autores ufa! bons pra caralho. Aí estranhei quando abri o caderno Cultura do Estadão de domingo e dei de cara com um longo artigo do professor de teoria e crítica literária da Unicamp, Alcir Pécora, com a pergunta-manchete: "O que existe de novo no front?", e o olho direto: "Estréias em romance revelam uma produção de conservadorismo pop e realismo marqueteiro". Antes de ler o artigo perguntei-me a mim mesmo: Já acabou a Geração 00?
Pécora lê meia dúzia de novos livros, muitos deles incensados nos cadernos de cultura. Detona "Fugalaça" da Mayra Dias Gomes, filha do Dias Gomes; "A Inevitável História de Letícia Diniz", de Marcelo Pedreira; "Gran Cabaret Demenzial", de Verônica Stigger; "Toda Terça", de Carola Saavedra; "Mastigando Humanos", de Santiago Nazarian e acha que Daniel Galera, de "Mãos de Cavalo", expõe enorme habilidade narrativa, mas é "tudo bem banal". "Se a opção de Galera fosse por escrever não um romance, mas um conto constituído pelo primeiro episódio do livro, teríamos que saudar um texto um texto muito melhor do que o livro acabou se tornando", diz sobre "Mãos de Cavalo". Não li nenhum, mas, como jornalista e escritor, acompanho a cena até onde dá. Recentemente vi esses mesmos nomes em uma matéria da Folha, onde aparecia, inclusive, a amiga Olivia Maia, autora de "Desumano". Vi aqueles nomes, aqueles currículos, e fiquei pensando eles vendiam mais livros com matérias como aquelas. Nem cheguei a perguntar para a Olivia, mas acho que ela não sabe.
Estranhei quando, no dia seguinte, no mesmo Estadão, Caderno Link, a matéria de capa tazia o amigo André "Cardoso" Czarnobai com o título "Internet renova Literatura do Século 21". O Cardoso? O Cardoso que tem o livro mais famoso e não lido da Literatura Brasileira, o "Cavernas & Concubinas", que eu procurei alucinadamente em todos os lugares e nunca achei para comprar. Eu reclamei pessoalmente com ele sobre isso, certa vez e ele: "Uma bosta esse negócio de editora nesse País!". Ele não sabia do livro, não sabia quanto tinha vendido, etc... (Acabo de escrever e vejo que o livro voltou para o Submarino; menos mal).
A matéria, incrivelmente de Julio Daio Borges - e, na hora, lembrei de dois artigos do mestre no Digestivo Cultural: "Publicar em Papel? Pra quê?" e "Não existe pote de ouro no arco-íris do escritor" - que, talvez propositalmente, cita ainda como exemplos de livros "de internet" os fora-de-catálogo, inexistentes, inencontráveis ou míticos "Vida de Gato", da Clarah Averbuck; "O Cabotino", do Paulo Polzonoff; "Perversa", de Ana Elisa Ribeiro; "Morte e Vida Celestina", do Alexandre Soares Silva; "Lugares que eu Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi", de Cecília Gianetti - entre poucos outros encontráveis, inclusive o onipresente "Mãos de Cavalo". Hmmm. Daio Borges podia aproveitar a oportunidade para falar de autores e obras recém-lançadas que podemos achar na FNac ou nos Submarinos da vida, ao invés de enfileirar livros que encalharam e foram recolhidos ou esgotaram em tiragens mínimas. Podia citar casos de e-books (gratuitos, como "Sexo Anal" ou vendidos, como o "Onde Perdemos Tudo", do Alex Castro) ou mesmo, ér, o "Desumano", da Olivia, que está aí nas lojas.
Aí fui ler a Olivia. E dei de cara com esse post.
Quando pensamos que o escritor queria ser lançado por uma grande editora, ele começa a mudar sua posição, considerando fazer a coisa fora do mainstream.
Interessante.
E pesquei um trecho na matéria de Daio Borges no Link em que ele diz: "Hoje, um escritor que nem foi publicado em papel ainda, se souber lidar com o meio internet, pode ter de saída milhares de leitores". Hmmm?
Tem alguma coisa errada na coisa toda. E eu não sei bem o que é.
Quando meu livro foi rejeitado por 16 editoras, achei que ele fosse ruim. Mas quando mais de 50 pessoas - a grande maioria não conheço, não sei quem é - disseram que ele é bom achei que tinha algo de errado. É difícil passar uma semana sem alguém comentar sobre o livro, seja em blogs, sites ou e-mail. (Ainda hoje, Doni, do Hedonismos, escreveu sobre ele) Aí contratei uma agente literária e ela me disse que o livro "fugia dos padrões" e eu fiquei contente - mas não era um elogio. Disse que as editoras querem coisas "dentro do padrão". Ué, disse, mas assim como é que a LITERATURA AVANÇA? Será que devo escrever algo dentro dos padrões? Pra quê? Para ganhar livro com selo de grande editora e nem saber quantos livros vendeu?
Cada vez que penso sobre tudo isso chego à conclusão que os escritores deviam se dar ao respeito e não sair assinando contratos para "sair da gaveta virtual" única e apenasmente. Caralho, quem pensa e escreve as histórias? Será que as editoras não precisam mais de bons escritores do que bons escritores precisam das editoras? Não se pode hoje imprimir na gráfica rápida, on demand, e enviar para quem quiser comprar, a um preço justo? Isso não dá resenha no Estadão? Há vida além dos cadernos de cultura?
É, talvez a Geração 00 tenha acabado.
A geração do sonho de ter um livro publicado por uma grande editora. Pra quê, né Julio? para depois que os livros saírem das estantes, aparecer numa matéria sobre, ér, a "renovação" da literatura no século 21?