
Freddy Bilyk, o homem-Barracuda, é um cara esperto e antenado. Ele tem lançado hits pela sua pequena editora e sempre consegue repercussão. O segredo é o seguinte: Bilyk sabe o que pode dar mídia, o que tem grande potencial para sair nos cadernos de cultura. E também o que tem apelo para ser replicado em sites e blogs. Ele sabe que o lance é "cultura pop" - mas tem que ser cultura pop com algum charm, com um toque de classe e sofisticação; cultura pop que não seja muito pop e que seja mais, ér, cultura. Nesse filão, dando uma olhada no catálogo da editora, permito-me citar alguns títulos tecendo breves comentários: "Coração Envenenado - Minha Vida com os Ramones" (Dee Dee Ramone faz sua autobiografia com a ajuda de uma profissional; o livro é 1997, Dee Dee morreu em 2002); "Serge Gainsbourg : Um Punhado de Gitanes" (Curta e essencial biografia do cantor-compositor francês); Confissões de uma groupie (Autobiografia/diário, da groupie mais famosa do mundo, Pamella des Barres); Disparos do Front da Cultura Pop (artigos escritos entre 1976 e 1994 pelo jornalista e escritor inglês Tony Parsons); Radio Guerrilha - Rock e Resistência em Belgrado (História da rádio sérvia B92 contra Slobodan Milosevic) e agora "Kind of Blue – A História da Obra-prima de Miles Davis". Temos aí uma figura central do punk-rock; um bardo da chanson française dos 60s; uma garota ingênua mostrando os bastidores do rock setentista "por dentro"; um sensível crítico inglês falando de música pop, quase essencialmente dos anos 80; o rock como instrumento de mudança social e... bom... faltava algo do jazz, vai dizer?
Oportunamente, Bilyk escolheu o livro que conta a história do maior clássico do estilo. Não é um livro novo, como não são os outros. Mas não fosse a Barracuda é possível que nem esse nem os outros chegariam até nós. Assim, Bilyk é um "oportunista do bem" - para o nosso bem e para o dele.
Quando a biografia de Gainsbourg foi lançada eu fui dos primeiros a comprar, antes mesmo de sair na Veja e em todos os jornais e revistas. Já era fã de Serge há eras. Muita gente que não conhecia mais que "Je t´aime moi non plus" acabou comprando o livro impulsionado pela divulgação - e depois procurando pelas músicas, discos e tudo mais sobre o francês. Os livros da Barracuda têm esse poder de despertar para coisas que não conhecíamos ou que tínhamos ouvido falar por aí apenas. É assim também com o "Kind of Blue" - um livro sobre um disco mais conhecido que ouvido.
Meu tio tinha esse disco e eu não gostava dele; achava estranho um disco ter apenas 5 faixas e também achava-o lento demais, chato demais. Sem saber o que significava "cool", do alto dos meus 12 anos, ainda assim achava aquele disco muito, ér, chique. Aquela capa linda. Aquela orquestra (sim, eu achava que era um disco de orquestra, e daí?) tocando devagar... não gostava, mas achavam, hmmm, bacana.

Quando fui conhecer algo de jazz, gostei de Stanley Jordan e, depois, de John Coltrane. Acho Coltrane legal para se ouvir no carro enquanto se fuma ou em casa enquanto se escreve. Meus discos de vinil do Stanley Jordan eu não comprei em CD. Meio que cansei dele. Não cheguei ao Miles Davis nesse meu pequeno desvio de paladar.
Com o lançamento do livro, ora, "vamos ouvir de novo o disco para ler o livro e vamos ler o livro para melhor entender o livro". Algumas pessoas acham que essas coisas não se complementam. Aprendi que as coisas se complementam sim - e quem me ensinou foi Bertrand Russell. Em "Elogio ao Ócio", o filósofo britânico ensina que "saber a origem do abricó torna o fruto mais doce". E eu acho isso uma verdade, mesmo nunca tendo comido abricó e nem sabendo que catzo é isso.
No caso de "Kind of Blue", o disco é o abricó que se faz mais doce a cada página de "Kind of Blue - A História da Obra-Prima de Miles Davis", do jornalista Ashley Kahn. Certo, tem detalhes demais até para fãs inveterados do disco e do jazz, com mais de 40 páginas finais de bibliografia, discografia e notas. Mas é o trabalho de um fãzaço, antes de mais nada. E, dessa forma, imagine se eu fosse contratado para escrever um livro sobre, ér, digamos, "Berlim", do Lou Reed. Ia ser mais ou menos como esse trabalho do Kahn.
Tem também umas partes chatas, técnicas demais, mas a compensação é a bela edição, recheada por fotos e capas de discos, aquelas coisas maravilhosas que os designers faziam na virada dos anos 50/60. É incrível como ficou tudo brega depois, o flower-power, o Jefferson Airplane, argh!

(Aprendam com o Titio Bia: no primeiro disco de Miles, ele não faz pose de ultracool na capa... Ele apenas está tapando os ouvidos para sentir melhor o som, mais ou menos como faz o Zé Rico, segunda metade da dupla sertaneja que mais vendeu discos no País)
De qualquer maneira, o livro mostra que os músicos de jazz talvez possam ser encarados como precursores do punk, como bem lembrou Gustavo Brigatti, em um de seus poucos momentos de lucidez. Os músicos queriam estar na estrada, tomando venenos na veia, tocando alucinadamente, gravando sem se lixar para os produtores ou gravadoras. Eles não eram realmente grandes músicos como muitos pensam: sobrava sensibilidade no lugar da técnica. E eles tinham um sentimento de grupo muito interessante, muitas vezes com embates de egos, onde o privilégio ficava sempre para a música.
O livro lançado pela Barracuda iluminou algumas idéias que eu tinha sobre jazz e transformou o clássico e mais-famoso-que-ouvido disco de Miles Davis em uma fruta doce e infinita, que se repete ao meu bel querer sempre que o meu dedinho ativa o play do aparelho. Como agora.
Obrigado Bilyk. E, por favor, prossiga.
Por falar em punk e cool jazz (é, você nem chamou atenção pra isso, mas tem cool no meio), você devia procurar os dvds do Chet Baker, Bia. Acho que iria se amarrar.
delicious
Bom post, Bia. anotei as sugestões de leitura.
Miles era um absurdo de bom. e a postura meio punk pode ser melhor entendida neste epísódio. no festival da Ilha de Wight, Miles subiu ao palco, e tocou com a banda um tema por 23 minutos. ao sair do palco depois de deixar a platéia atônita, os produtores do show perguntaram o nome daq música, para creditar no disco ao vivo que seria lançado:
"chamem de qualquer coisa" - respondeu Miles.
"Call it Anything" acabou virando uma das faixas do álbum "Isle of Wight Festival".
* este festival teve - se não me engano - a última apresentação ao vivo de outro gênio, Hendrix.
Mas que honra!!
que MASSA! :-D
vou fazer coro: prossiga, Bilyk!
Este livro eu ainda não li, mas já gostei. ;-)
Por sorte, minha humilde (porém limpinha) coleção de jazz teve início com o "Kind of Blue", e eu nem tinha lido nada a respeito antes. Estava no Japão, estava ouvindo bossa-nova e pensei que estava pronto para cair no jazz. Um amigo blueseiro disse que eu deveria começar com Miles. Fui na loja e passei horas lendo os releases que os japoneses disponibilizam nas capas dos discos.
E tem um filminho com a Julia Roberts que ela presenteia um pretendente dela com este disco. Lembro de ter visto logo que comprei o disco, e vi que foi a escolha certa.
Kind of Blue pareceu o disco perfeito mesmo para iniciar a coleção.
Ouvi e chapei.
Agora precisamos conhecer o abricó.
Poderiamos ficar horas falando dessa seleta coletânea de discos maravilhosos, mas vim trazer um abraço pelo premio que o LORD te dedicou. Parabéns! E e não quebre a corrente!
tiagón, a barracuda vai lançar o livro com a história de "a love supreme".
vivas!
:>)
o disco do dark side of the moon tb é da coleção desse Homem barracuda??
gde abç
Tenho dois cds de Miles Davis em casa ,ambos coletanias com os grandes sucessos, mas nuca fui à fundo sobre a história dele,Muito interessante...
Aqui em casa é o clássico-mais-ouvido que-famoso, atualmente disputando com um disco do Zucchero.
esse disco é uma das obras mais impressionantes que a Música já viu.
fiquei com vontade de ler o livro :-)
mas sabe o quê? queria mesmo era ler a história de A Love Supreme, do Coltrane. porque se o mundo fosse justo tinha ficado uns dez anos em silêncio depois dele.