"...
Eu escrevo com o corpo
Poesia não é para compreender mas para incorporar"
Manoel de Barros
Essa é uma resenha do livro de poemas de Caco Ishak, "dos versos fandangos ou a má reputação de um estulto em polvorosa" (7Letras) - mas não podia começar sem evocar Manoel de Barros e sobre como fiquei fã da obra deste poeta pantaneiro. Em 1990 participei da mostra Artes e Ofícios da Poesia, no MASP, e um dos vencedores na categoria Vídeo (em que eu concorria) foi "Caramujo-Flor", de Joel Pizzini - adaptação de tecrhos de livros do poeta, com Ney Matogrosso e Rubens Corrêa e música de Tetê Espíndola. Um filme lindo - e assim que o vi fiquei com aquela expressão besta no rosto, sem entender aquela poesia cheia de imagens estranhas, palavras ainda mais estranhas, incompreensíveis até, uma música de impacto apaixonante e de certa rejeição para os ouvidos. Ao sair da sessão, estava à venda o novo livro do poeta: "O Guardador de Águas" e eu comprei. É o melhor livro de Manoel de Barros e guarda proximidade, não por acaso, com "O Guardador de Rebanhos", obra-prima de Pessoa sob o heterônimo Alberto Caeiro. Manoel de Barros não é um guardador de águas: as águas são seus pensamentos. Os pensamentos se liquefazem em palavras, oxímoros, neologismo ou mesmo simples criações desconexas de palavras, frases insensatas, róis, recolha de objetos e abjetos que porventura ali estejam no chão:
"o artista recolhe neste quadro seus companheiros pobres do chão: a lata a corda a bôrra vestígios de árvores etc.
realiza uma colagem de estopa arame tampinha de cerveja
pedaços de jornal pedras e acrescenta inscrições produzidas em muros - números truncados caretas pênis coxas (2) e 1 aranha febril
tudo muito manchado de pobreza e miséria que se não engana é da cor encardida entre amarelo
e gosma"
Existem muitos exemplos desse tipo de poesia na obra de Manoel de Barros, como quando ele diz que "Tudo aquilo que a nossa / Civilização rejeita, pisa e mija em cima / Serve para poesia" ou "O poema é antes de tudo um inutensílio". Mas mais que denegar grandes coisas à poesia, deixando o que é "reles de chão" para o ambiente poético, o poeta quer reciclar "as palavras que estão em estado de lixo" em beleza verbal, fonética, literal.
"A imarcescível puta preta
que me arrastou na adolescência
me ensaurou de sua concha"
Essa introdução foi necessária para criar um paralelo com a poesia de Caco Ishak. Meus ouvidos estavam desacostumados à dissonância poética; fazia tempo que não apanhava o "Gramática Expositiva do Chão", compilação da obra de Manoel de Barros até "O Guardador de Águas" (e depois desse livro ele fica chato e repetitivo), quando recebi o pequeno mas recheado volume (51 poemas) de "dos versos fandangos". E assim que comecei a lê-lo, tive uma primeira reação de confusão. Como quando bate a primeira sensação de um entorpecente.
"queres ver o tosco, meu chapa?
a bisca nasceu já madrugando
as fichas sempre caem quando expectativas
acabam
nunca o uno útil ao agradável
soou-me tão perfeito aos ouvidos
embora tenha de com isso
arcar com o necessário"
Mandei um e-mail para o autor, dizendo que tudo estava muito confuso. Comentei com minha mulher que eu lia o livro e ficava confuso. O livro estava batendo estranho na minha mente, com frases como "meu argumento é tua tosse" ou "sobrancelhas apenas prolongam o dito" ou "não me surpreendo com o descaso das paredes".
Demorou um pouco para entender que Ishak recolhe também coisas do chão, estabelece fios de amarração entre o que percebe ao seu redor em listas, descrições indiscretas, relatos nem sempre lineares, discursos entrecortados de frases ouvidas - ou seja - faz também ele sua coleta disléxica e a tem como matéria de sua poesia. Diferente do pastoral Pessoa ou do líquido Barros, Ishak trabalha com "coisas" sólidas & cosmopolitas, soando algumas vezes como um beatnik, evocando a confusão da modernidade e a cultura pop - essa última, de leve. Um exemplo é o "poema-em-pedaços" chamado "desfaireuoliariza isso, mulher", que diz no começo:
"comecei uma frase
e tentei terminá-la sem antes
passar pelo miolo
antecipei-me mais do que devia
e me faltaram os predicados"
e segue:
"[a vaca] rumina seus prazeres faça sol ou neblina"
e
"recobro o hábito e / descasco o maço"
Nesse sentido, o livro de Ishak poderia ser um "Guardador de Escombros Modernos" ou um "Guardador de Pedaços de Si e de Outros neste Louco Mundo Globalizado" embora nenhum desses dois títulos fiquem muito longe de "dos versos fandangos ou a má reputação de um estulto em polvorosa". Assim, a pedra no rio de Manoel de Barros pode ser uma seringa plástica jogada numa sarjeta; o sapo mimetizado numa árvore pode ser uma garrafa de vinho tinto barato pela metade; a espera pela chuva vespertina no pantanal pode ser a espera pelo toque do telefone de um amor antigo... Na verdade os objetos não são tão importantes (e para Barros, quanto menos importantes, melhor!): apenas figuram e flutuam no universo de climas & intenções dos dois poetas. Ou dos três, se contarmos Pessoa.
Recomendo o livro do Caco, especialmente para quem gosta de Manoel de Barros.
Eles perseguem a mesma poesia, embora Ishak seja um pouco mais ocre.
Puxa, Biajoni, semana passada, numa conversa com um amigo bibliotecário, acabei por conhecer uma revista, chamada "Leia" (já gostei, um dos poucos imperativos que obedeço), de 19-e-vovô-de-patinete. Pois bem na primeira que li havia uma entrevista com o Manoel de Barros, na qual ele relatava uns trechos de diálogo com o G. Rosa. Puxa, homem, aqueles trechinhos tinham tal coerência se comparado à incoerência que são as ladainhas de 'bom-dia' e 'oi, tudo bem' nossas, que exultei, fiquei bem mesmo. E, quando cheguei em casa, pus-me a comtemplar minha parede com um pedaço da poesia-pedaço dele (sim, escrevo nas paredes): "Encoste um cago ao sublime. E no solene um pênis sujo.".
...Enfim..., decidi vender meu rim pra comprar o livro do Caco Ishak. Pede uns 50% no lucro, Biajoni. Culpa sua.
Abraço!
Até!
tava sem net, vi agora. só dá mentiroso nessa verbeat, deusulivre.
MASSA a resenha. bom ver Manoel de Barros!
Caco é muito foda. os textos dele me dão vontade de retomar os saraus poéticos que eu e o Gejfin armávamos nos botecos aqui de POA só pra ler os textos dele.
e os da Bruna Beber. que é a musa poética do Bereteando.
esses poetas novos tão de pé na porta! :-D
(lembrando aos amigos leitores que el Caco é colega do condomínio, lá no /cacoishak)