Inusitadamente, Gustavo Brigatti me convida prum programa cultural. Da última vez quase deu briga, vocês devem se lembrar.
O convite era para a pré-estréia de "Homem-Aranha 3", meia noite.
Eu já sou um homem velho e costumo vestir meu pijama de usinhos amarelos e minhas pantufas lá pelas dez da noite, no máximo. Dirigir até o outro lado da cidade, pegar um cinema de Shopping lotado para ver um filmequinho não é o que eu chamo de "diversão". "Diversão", pra mim, é bebericar um Santa Carolina Carmenère na cama com a Karen, isto sim.
Mas, ora vejam, senti um certo tom de desespero na voz do nobre amigo. Como sua esposa trabalharia até mais tarde (jornalista, quem mandou não estudar!), talvez ele buscasse mesmo um apoio para suportar tão sufocante sacrifício para uma Quarta-Feira. Eu o ajudaria.
Falei com Karen que apoiou: "Vai sim, vocês precisam ficar um pouco sozinhos". Senti na frase algo que talvez pudesse ter ressonância na saga que nós dois recentemente encetamos.
Assim, fui.
Passei apanhar o bonitão e logo estávamos entornando chopps com o amigo Beraldo (sim, sim, um Geraldo com B) enquanto esperávamos o sinal de abertura da sala. Da sala, não: das salas. Três salas do Tívoli Shopping, em Santa Bárbara, iam exibir a pré-estréia. A garotada começou a chegar, alucinada. Pessoas nem tão jovens assim também. E nós. E eu. Mais velho que eu só uma velhinha insana que estava acompanhando a netinha talvez como forma de alguma compensação sentimental.
Era tarde para pessoas velhas estarem nas ruas. A possibilidade de pneumonia era grande.
Tínhamos tomado chopps e coragem suficientes para encarar as filas - e para lá fomos. O Gustavo tinha carteirada, essa coisa que os jornalistas têm mas se negam a chamar de JABÁ. É jabá, mas tem que chamar como "incentivo para divulgação", nomes empolados de um tucanês que já invadiu a imprensa faz tempo.
Usamos a carteirada do Gustavo e aí nos foi aberta uma opção: ou veríamos o filme com legendas numa sala hiper-lotada ou podíamos optar pela versão dublada numa sala um pouco, hmmm, menos cheia. Gustavo, Beraldo e a namorada do Beraldo queriam assistir ao filme na sala com legendas, ora vejam. Eu contestei: um filme de ação se pode ver muito bem com dublagem; é até melhor pois dá para prestar mais atenção às cenas.
Eles acabaram concordando e pra lá fomos.
Nem bem conseguimos uma fileira de quatro poltronas, aparece a Solange, a esposa do Gustavo. Ela saiu do jornal e correu para lá, disse que não perderia a estréia por nada deste mundo. É mole? São essas coisas que se faz por amour.
Pois bem, a sala ia lotando, a molecada gritando, fazendo aquele alvoroço que eu fazia toda vez que ia ver a reprise de "O Campeão", no Cine Cacique. Ou quando fui na estréia de "Conan - O Bárbaro", alguns anos depois. Normal, vai dizer?
Mas o filme começou (com 20 minutos de atraso) e, ai, a molecada nã parou de gritar. Era aparecer o Tobey Maguire ou a Kirsten Dunst e o pessoal gritava. E quando apareceu o Homem-Aranha, ah, aí foi um delírio.
Foi aí que o Gustavo e a Solange levantaram e saíram. Foram embora! Me largaram lá! Acreditam?

O Gustavo me liga hoje: "ah, o pessoal tava gritando, assim não dá!". Ué. Mas filme do Homem-Aranha, você queria que o pessoal fizesse cenho de cincoentão assistindo "Morangos Silvestres"?
A experiência do cinema - e isso eu digo sempre nos meus cursos -, é se deixar levar pelas emoções que os filmes causam. Chorar e rir quando quiser, gritar, uivar, bater palmas, pular na cadeira. Ver um filme como Homem-Aranha 3 é como ir ao Hopi-Hari e andar na montanha-russa. Tem que ser essa experiência catártica. Até quando é cinema profundo e nos faz doer a alma.
Sair da sessão por causa da algazarra da garotada é se privar de uma experiência coletiva; é deixar passar a oportunidade de gritar um "pega ele, Aranhão!" sem que ninguém olhe de atravessado para você, achando que você é um bestinha com Síndrome de Peter Pan. Sair da sessão pode parecer algo muito intelectual, mas é o contrário.
Algumas pessoas saíram e talvez a algazarra estivesse demais. Algumas pessoas saíram por causa do sono. Eu fiquei até o fim, gritei, curti e fui embora com um sono dos infernos, dormi mal, acordei mal e a viagem a Sampa pela manhã foi quase insuportável.
Talvez não devesse ter ido. Mas como dizia o grande filósofo Vicente Matheus, "Quem sai na Chuva é para se Queimar".
APDEITE: Ah, sim, o Alex tem um post sintetizador sobre.