(Minha coluna de terça-feira no TodoDia acabou gerando algum bafafá e eu então fiz uma resposta que posto aqui, logo abaixo, e deve ser publicada no jornal na próxima terça. Afe. Pé de pato, mangalô, três vezes nesse final de semana santo, né Idelba?)
Histórias de Onoff
Estávamos entre amigos num fim de tarde em São Paulo, 1989. A amiga Tite servia bolo com calda e apareceram algumas moscas. Foi o bastante para que o tradutor russo Dmitri Onoff lançasse a pergunta: você já viu uma mosca morta no chão? Tanto eu como Tite e os outros amigos respondemos que não. Não, não se vê moscas mortas pelo chão e, pelo contrário, muitas deviam haver - já que existem muitas moscas e o tempo de vida da maioria delas não é de mais que 48 horas. Onoff então perguntou se sabíamos como fazem as moscas quando percebem a proximidade da morte. Respondemos novamente que não. Pois as moscas sabem quando a morte se aproxima e, nesse instante, voam para o mais alto que podem – contou o russo. Chegando a um determinado ponto, visto que seu corpo é de mais de 60% de CO2, elas simplesmente evaporam. Ficamos estarrecidos com o argumento, do qual nunca havíamos ouvido falar. O “vôo mortal dos mosquitos” (ou apenas “the mortal fly”, em inglês), virou motivo de culto em Uqbar, pequeno país próximo à Armênia. Onoff contou que esteve em Uqbar visitando o escritor Paul Bowles e sua esposa quando pôde conferir o procedimento dos habitantes locais. Qualquer um, independente da idade, quando simplesmente achava que a morte estava próxima, subia no monte mais alto (cada cidade ou vilarejo tinha o seu) e ali ficava, aguardando a desintegração. A maioria morria de fato – de inanição, frio ou porque realmente estava na proximidade do fim. Eles imitavam as moscas.
Foi também durante essa viagem que Onoff provou a azeitona asiática. É muito diferente, contou, da fruta que consumimos por aqui. São maiores e totalmente negras, já que só as colhem quando estão bastante maduras. A azeitona preta, ao contrário do que muitos pensam, é apenas a azeitona madura e não uma outra espécie. Pois bem; apesar da azeitona ser de origem asiática foram os europeus quem conseguiram melhor prepará-la para o consumo. Nos tempos atuais, descendentes de espanhóis, portugueses e italianos se estabelecem em países asiáticos com a tarefa de prepararem a azeitona. As famílias dos “azeitoneiros” são algumas das mais ricas da Ásia Menor. Onoff, assim como eu, vê uma incongruência nesse fato. É como se precisássemos importar tecnologia e mão de obra para fazer cachaça, aqui no Brasil.
A tarde estava deliciosa e Onoff nos enchia de histórias e conhecimento. Contou que a Ásia também é a região de origem da laranja – e que a fruta é sagrada por lá. Como todo continente é bastante seco, a laranja é fonte de abastecimento de sais minerais e água para a população. Contam que Buda era capaz de passar dias apenas consumindo laranjas. É por esse motivo que o manto dos monges budistas é dessa cor.
Passados alguns meses da estada de Onoff em Uqbar uma editora francesa pediu para que o iminente tradutor russo fosse até Buenos Aires negociar a tradução de um texto de Jorge Luis Borges. Foi a primeira vez que Onoff esteve na América Latina. Borges o recebeu e levou-o para jantar em uma cantina na rua Florida. No antepasti encontravam-se algumas pequenas azeitonas pretas. Borges impediu que Onoff as comesse – e contou o motivo. As azeitonas pretas argentinas (tão consumidas pelos brasileiros) não são realmente pretas, mas sim pintadas! Como o processo para amadurecimento é árduo eles colhem os frutos ainda verdes e submetem-no a um processo de colorificação. O colorifício é aplicado e a azeitona é vendida – mais cara! – como preta (madura). Onoff ficou estarrecido com a informação – e nós também, quando nos contou.
Papo vai, papo vem, o já famoso escritor argentino confidenciou ao russo que escrevia um livro sobre Buda, em colaboração com Alicia Jurado. Onoff contou então a hsitória sobre a laranja. E a edição argentina do livro saiu com a capa de cor laranja e uma dedicatória a Dmitri Onoff.

Explicando a piada
De todas as colunas aqui publicadas, já há um ano, a que mais me deu feedback até o momento foi a da semana passada. Os retornos foram por e-mails e a maioria indignou-se de algumas coisas escritas. Resumindo, para quem não leu, falei sobre um amigo, tradutor russo que sempre vem ao Brasil, Dmitri Onoff - um grande contador de histórias. Por lidar com o mundo literário, Dmitri sempre mistura fatos da ficção com fatos reais.
Parece bastante óbvio que as moscas não pressentem o momento da morte e não voam em direção ao infinito, evaporando-se em gás carbônico - e esse é o motivo de não vermos tantas moscas mortas no chão. É também óbvio que não existe um pequeno País, Uqbar, "próxima à Armênia", onde os habitantes imitam as moscas e, no pressentimento da morte, sobem até o monte mais alto e lá definham. Essas "informações" estavam na coluna passada e teve gente que escreveu indignada com o desserviço ou estupefatas com o "sensacional".
Escrevi também, através da boca de Dmitri, sobre as diferenças das azeitonas verdes e pretas. É real que azeitona preta é a azeitona madura, embora existam tipos de azeitonas que nascem pretas - especialmente no Egito. E também é real que boa parte das azeitonas pretas argentinas são pintadas com colorifício para obterem a tonalidade. Um dos e-mails perguntou: "o que os argentinos ganham pintando a azeitona verde de preta?" - e eu respondo aqui: a azeitona verde pintada dura mais que a preta, madura. Aumenta o tempo de vida e pode ser vendida mais cara; azeitonas pretas são mais caras. É isso que os nossos hermanos ganham.
No texto tinha ainda uma menção à origem das laranjas e um leitor de Limeira (antiga capital da Laranja), que lê a coluna pelo site já que o TodoDia não vai pro "outro lado do rio", questionou a informação sobre o hábito de Buda se alimentar com laranjas por semanas e se realmente se deve a isso o fato do hábito dos monges budistas serem da cor laranja. Confesso que não sei. A informação assim me chegou e assim divulguei - embora ache uma boa explicação, já que a laranja é realmente originária da Ásia, conforme disse a coluna passada.
A menção ao encontro com o escritor argentino Jorge Luis Borges talvez explique o nome do País onde as pessoas-mosquito sobem os montes para morrer - já que Borges tem um conto, um dos seus melhores e mais conhecidos, chamado "Tlön, Uqbar, Orbis Tertuis". Borges, provavelmente o maior escritor que a América Latina já viu, era hábil em escrever contos ou ensaios misturando realidade e ficção e a coluna da semana passada foi uma espécie de homenagem minha a ele. Pena que poucos (ninguém?) entendeu.
E pena também que uma coluna, ér, despretensiosa como aquela, gere mais repercussão do que outras aqui publicadas, como a da semana retrasada, quando falei sobre um livro de uma autora americanense que foi adotado pela rede pública e só é vendido em um local da cidade, a um preço alto -, e não está disponível nas bibliotecas públicas, como deveria.
É pena também que a metáfora, esse maravilhoso recurso da linguagem que confunde o real ao simbólico, não seja apreendido pelas pessoas, em época de globalização, internet e comunicação fácil. Existe uma tendência quase geral em se acreditar em tudo, ainda mais se o autor do texto tiver algum título, algum pronome de tratamento.
É triste a constatação de que talvez tenhamos chegado a um ponto de tensão que impede a leitura leve. Nesses tempos politicamente corretos, temos que ter cuidado especial com piadas. Mesmo com piadas assépticas. Desacostumados a usar o racional na separação do real do imaginado, o leitor, confortável em sua poltrona, fica esperando a explicação para, talvez, lançar um sorrisinho no canto dos lábios.
Apdeite: Hahahahahah... Sim, estava escrito "despretencioso" e eu corrigi, alertado pelo Nelsão. Foi catiça do Rafa. :>)
Bioca: foda-se a corretitude, viva o bom texto.
Botou a Little Lia pra rasgar meu livro? Pô, aí ela rasgou mesmo, sem metáforas!
Manda a fota, manda a fota!
Eu me lembro desse texto, publicado no JL há uns seis anos. Como se chamava originalmente?
tá massa. achei lindo, tu tá fazendo o certo, botando um pouquinho de diferente (pro bom, pro que vale) no caldo do dia-a-dia da massa. em um ou dois, vai ter dado estalo, vai ter dado risada. é assim, trabalho de formiguinha. do pessoal que precisou de explicação, um ou dois vão estar interessados na resposta e dar três minutos de pensamento pra isso, pronto - já valeu mais um pouco. eu acho que a tua coluna marcou um golaço, e isso inclui a repercussão negativa. o que desacomoda é bom.
só não sobe nas tamanquinhas da erudita se a massa não chegar a Uqbar, né?
:-D
Nós vivemos em uma cultura voltada para o mais baixo denominador comum, onde inteligência e ironia é frequentemente "punida". Como esse pessoal poderia apreciar um conto de Borges, ou um romance de Machado de Assis? Não pode, eis o problema... E o pior é que acham que estão certos, na sua defesa ultrajada do seu direito de nunca caírem na piada.
Mas ignore-os, por favor. Seus leitores com neurônios agradecem.
Não entendi...
(hahahahahaha)
Será o fim da sutileza?
Creio que não: quem entende prefere ficar quieto a estragar a piada.
E pode acreditar, sempre há quem pegue as sutilezas, as referências.
Os leitores
(quer dizer, os que aprenderam a ler fora da internet)
ainda existem.
abração!
Esse tua criação me lembrou muito a primeira edição da revista piauí, onde tinha um guia de viagens pro leste europeu - um país meio louco, texto bom igual ao seu.
Quando li Uqbar fiquei com uma 'mosca' atrás da orelha, rsrs. Já lera esse nome em algum lugar. Realmente o Borges é o bicho.
Viagei nesse teu texto, valeu.
O Keith Richards outro dia teve que ficar se explicando, porque tinha dito de brincadeira que nos bons tempos ele aspirava tudo "aspirei até as cinzas do meu pai". Somente estúpidos poderiam crer que fosse algo além de uma piadinha. Mas o mundo está sempre mais cheios de estúpidos e essa "nãoticia" virou manchete em tudo que é canto, obrigando o belo Richards a vir explicar tudo.
Agora imagina se você não tivesse colocado a dica de Uqbar?
Que coisa... o pessoal se leva muito a sério, né?
Bia, fiquei decepcionada pois eu realmente quis acreditar que a história fosse verdadeira. Não explica mais, tá?
Beijocas
Vim desejar Boa Páscoa para você. Vê se entende a metáfora, pô!
Grande abraço
Eu não!
Como estou sempre em regime de representação e vivo sob a constante 'ameaça' da metáfora e reconheço mantos laranjas, azeitonas pretas, moscas suicídas, Uqbar, Silas Haslam e Deus, considero seu gabarito também como uma peça de ficção, no mínimo
Assim como considero a segurança aérea, ensino público, saúde pública, direitos humanos, política de meio ambiente, etc etc etc, peças de ficção neste brasilzão.
Creio que você está enganado. Não há um povo mais afeito a metáforas que o povo brasileiro. Além do fato de o brasileiro ser um grande gozador (em qualquer sentido).
Acho que você deve encarar a preocupação dos leitores com as azeitonas pretas argentinas e os habitos budistas, como uma colaboração às metáforas do texto.
Eu to com o mesmo probleminha, caro colega. Vamos montar um negócio de explicação de metáforas, alegorias, morais da história e piadas em geral?
Muito boa a coluna, assim como a "explicação". Pena que tenhas sido "obrigado" a escrever a explicação. Mário Quintana (se não me engano) dizia que quando um autor tem que explicar o que escreveu para o leitor é porque um dos dois é burro.
No caso, certamente o burro não és tu...
Acho, falando sério, que o problema é mesmo "preguiça mental", de quem lê e não pensa.
abraço