(Minha coluna de hoje no TodoDia)
"Maus", obra de arte em quadrinhos de Art Spiegelman, é a única HQ a ganhar um Prêmio Pulitzer. A Cia das Letras relançou a obra completa num único volume a um preço bem acessível - e o livro vale cada centavo. Para quem não conhece, Spiegelman retrata com um realismo absurdo a história de seus pais, sobreviventes de Auschwitz. A base para a história é uma série de entrevistas que Art fez com seu pai, antes do pai morrer. As anotações deram origem primeiro a uma historieta publicada numa revista underground em 1973. Somente em 1980 ele se decidiu pelo formato pelo qual ela ficaria conhecida, retratando os judeus como ratos, os alemães como gatos, os poloneses como porcos. Ele levou 11 anos para concluir a obra, lançando os capítulos na revista que ajudou a fundar, a americana "Raw".
Esse é o método Spiegelman: ele entende e assimila toda história, participa dela, e passa para o papel como forma de expurgar seu inconformismo, sua dor e frustração. A arte de Spiegelman é fruto catártico do seu sofrimento - por isso ele é tão lento e o resultado é tão devastador. Não por acaso, o Wall Street Journal escreveu que "Maus" é "A narrativa mais comovente e incisiva já feita sobre o Holocausto". Assim é também "À Sombra das Torres Ausentes", também editado pela Cia das Letras. Nesta outra obra de arte, Art conta como viu o atentado de 11 de Setembro estando presente, morando a poucas quadras do World Trade Center.
Bem, mas o que pode ser dito sobre judeus morrendo e escapando de campos de concentração que já não foi mostrado pelo cinema ou na literatura? A questão, neste caso, não é O QUÊ se diz e sim COMO se diz. "Maus" abre com uma frase de Hitler: "Sem dúvida, os judeus são uma raça, mas não são humanos". Nos primeiros quadrinhos do primeiro capítulo vemos Art chegando à casa de seu pai e iniciando a entrevista. O escritor quer saber como o pai conheceu sua mãe e ele começa a contar sobre uma garota... Foi uma garota que ele amou e com quem esteve durante quatro anos - mas não era sua mãe. Logo neste ponto, no início, Art começa a desromantizar a história, trazendo-a para muito perto, quase para os dias atuais. "Nós estar muito envolvidos, como os jovens de hoje", diz o pai de Art, tentando explicar esse amor juvenil.
A humanização dos personagens é alcançada independente dos traços, já que todos os judeus, homens ou mulheres, têm o mesmo desenho, a carinha de rato. Não está ali um ator hollywoodiano ou um traço realista ou ainda uma caracterização realista do pai de Art ou de qualquer personagem. São ratos, assim como todos nós somos seres-humanos, independente de diferenças étnicas ou genéticas. Nos sentimos ratos, criamos uma identificação rápida e simples com os personagens - já que entendemos muito claramente o que viveram e o que estão pensando, ao longo do livro, ao longo das quase 300 páginas.

O dia-a-dia daqueles ratos e ratas tentando salvar a pele e se enfiando em buracos e formando fila para chuveiros inexoráveis podiam bem ser eu e você e contradiz, durante todo livro, a epígrafe inicial de Hitler: não são uma raça, não são inumanos, são pessoas sensíveis e normais colocadas em uma situação totalmente alheia às suas vontades que, à parte uma certa resignação, agem instintivamente para sobreviver. Como todos nós no nosso cotidiano absurdo.
E, bem, absurdo é a palavra que melhor define esse "A Queda - As Últimas Horas de Hitler", filme lançado recentemente em DVD e que serve de paradoxo e complemento a "Maus".
Como se fosse "o outro lado da moeda", o filme mostra a invasão de Berlin pelos aliados, o Führer insano dos últimos momentos, a situação completamente fora de controle dos generais e comandantes do Reich. Não sei detalhes, mas o filme deve ter se calçado em ampla pesquisa histórica, então acredito que Hitler deva mesmo ter dito que não se importava com o povo alemão; eles poderiam morrer e isso era mostra de sua inferioridade - já que o exército aliado mostrava mais força e capacidade. O povo alemão não deixava de ser uma raça e, assim sendo, deveria sucumbir diante de outra, mais forte - como manda a regra natural.
O filme me perturbou. Muito se deve a Bruno Ganz, irrepreensível como Hitler. Um personagem obstinado mas ao mesmo tempo sofrido, doente, maltratado pela obsessão. Outra parte da perturbação veio da mostra da grande quantidade de suicídios que o filme mostra; não apenas Hitler e Eva Braun matam-se, mas muitos dos alemães da primeira linha e subalternos. Muitos não se mataram por não haver escapatória, mas sim por ver desmoronar o sonho do Reich, do social-nacionalismo.
Reler "Maus" e ver "A Queda - Os Últimos Dias de Hitler" foram importantes para mim. Lembrei de um grande documentário, "A Arquitetura da Destruição", que mostra a inclinação de Hitler pela política depois de ter sido rejeitado por duas vezes pela Escola de Arte de Viena. Ele queria ser um artista. Na negação, quis transformar o mundo todo em uma obra só sua, onde não existiriam imperfeições. Talvez seu erro tenha sido achar que os judeus - e negros e homossexuais e deficientes físicos - fossem inumanos. Talvez. Mas a guerra e o declínio da ideologia hitlerista serviram, ao menos, para ensinar um pouco mais de tolerância ao mundo.
Ensinou?

(Art Spiegelman, em auto-retrato)
gostaria de ler o "Maus" qualquer dia desses. em inglês ele deve sair mais barato, se bobear. se alguém puder me dizer onde posso encontrar...
Se não me falha a memória (aquela velha louca que joga comida fora e guarda trapos coloridos), o filme A Queda foi baseado numa (auto?)biografia daquela secretária do Hitler que aparece no filme. Bjs
belo texto, adoro e admiro muito o Spiegelman. Belo texto, bia!
Já li Maus, há muito tempo. E o cara tá na Piauí deste mês. Bem bom.
Quase comprei o "Maus" uma vez. A Thania estava do meu lado e me fez desistir, achava que seria muito baixo astral. Sim, seria. Mas ainda tenho vontade de ter esse livro. Um dia eu compro.
Afinal, eu tenho filhos.
Maus não é quadrinho comum, é uma obra revolucionária por que foge dos estereótipos dos quadrinhos E da literatura. É um depoimento em primeira pessoa onde o Art só consegue ambientar a história graças ao recurso dos desenhos. Não creio que ele conseguiria criar o mesmo clima só com palavras.
Roberto Begnini declarou ter-se inspirado em Maus para produzir o filme "A Vida É Bela", que lhe deu o Oscar como melhor filme estrangeiro. Art o criticou duramente, afirmando que Roberto não teria entendido a metáfora do filme e ter transformado o holocausto em um gênero de filme (apesar de muito já ter sido filmado sobre o tema).
Eu gosto, mas com ressalvas.
ensinou bosta nenhuma. ensinou apenas alguns (não todos) a terem mais sutileza na hora da tosqueira.
Caro Beajoin,
Muito bom seu texto abordar, indiretamente, o tema do nazismo, que representa 'uma' das forma mais explicitas (populares) de racismo(no mínimo) moderno, que se tem idéia depois de 45.
Minha família, e seus (meus) sentimentos judeus que não existem mais, talvez fariam elogios, talvez leriam com resignação, talvez fariam algumas correções. Problema deles.
Leio livros sobre a sina de sofrimento dos judeos desde me conheço como 'gente'. Portanto, e por causa disso, o tema me parece enfadonho. Mas não é!
Pelas contas da minha familia 'judia', a 'perseguição' começou antes dos gregos. O anti-semitismo, embora hoje se refira aos judeos, nasceu do preconceitos contra os povos de linguas semitas; árabe, aramaico, hebraico (negros?) e etc, (etc, porque não sou acadêmico)
Embora a cultura alemã se responsabilize pelo termo 'Antisemita' (Antisemitismus) que se refere especificamente ao povo judeo, o sentimento racista já existia, e não só contra judeos. E perciste!
É claro que causa mal estar em pensar no nazismo, e por consequencia no racismo. Mas o mau estar deve permanecer, porque ainda hà preconceitos.
E acredito que a raça negra não se iguale a nenhum povo ou raça e seja superado em maus tratos, dentre todos povos que sofreram, e sofrem, com as mazelas da discriminação.
Qualquer forma de racismo (discriminação) é execrável, mas não há no mundo uma 'raça' que sofreu e sofre, tanto com esses sentimentos , ou falta de sentimentos , que a 'raça' negra. Talvez haja, mas qualquer livro de historia constata que a cor, como avaliação positiva de cultura e portanto, respeito e poder, teve um peso infinitamente grave contra a pele escura, desde muito tempo.
Não o estou julgando por suas preferências culturais, só não creio que o sofrimento, de um povo, qualquer que seja, mesmo com dinheiro, ( poder) para promover seus sofrimentos, seja mais merecedor de debates, resenhas, artigos, filmes etc, que os povos de pele negra.
E hà tantas pessoas dessa raça escura que se expressam, dolorososa e maravilhosamente, em todo o mundo.
Parabéns por ter levantado o debate atravéz da arte de um judeo.
Abrs
Correção: ...as obras escritas por Kafka uns anos depois não seriam SENÃO um aviso...
Sorry :-(
Caracolis. Que puta texto. Eu nunca fui muito de história em quadrinhos, mas essa aí deu vontade de ler. E é verdade, "A Queda" é forte e perturbador. Não cai nem no manequeísmo nem na obcenidade de uma versão "compreensiva" de Hitler. A história que você conta de Hitler-pintor-fracassado me fez lembrar a incrível hipótese do Piglia em Respiração artificial: em 1909-10, Hitler esteve em Praga, isso é fato. É possível que tenha cruzado com Kafka, que morava lá e frequentava a mesma boemia. Se tiver cruzado, com certeza lhe contou os planos para Mein Kampf. Se isso ocorreu, as obras escritas por Kafka uns anos depois não seriam um aviso, uma antecipação do pesadelo. Kafka é o cara que levou a sério e previu Hitler vinte anos antes. QED.
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Puta post. beijo, lindão