(Minha coluna da semana passada ontem no TodoDia. Ganhei o livro "Linhas Tortas" do grande Branco Leone.)
"A Constituição Brasileira tem um buraco.
É possível que tenha muitos, mas sou pouco exigente e satisfaço-me com referir-me a um só. Possuimos, segundo dizem os entendidos, três poderes - o executivo, que é o dono da casa, o legislativo e o judiciário, domésticos, moços de recados, gente assalariada para o patrão fazer figura e deitar empáfia diante das visitas. Resta ainda um quarto poder, coisa vaga, imponderável, mas que é tacitamente considerado o sumário dos outros três. [...]
Está aqui um deputado que é um poço de manha, papagueador quando parola com o eleitorado, mudo na Câmara, gênero peru; ali está um presidente de estado que outra coisa não tem feito senão apregoar pelas trombetas oficiais as maravilhas que ninguém vê, mas que ele teve o louvável intuito de realizar; temos acolá um advogado ventoinha, equilibrista emérito, camaleão legítimo; vem depois o comerciante voraz, enriquecido com os favores clandestinos, negociatas escusas e contrabandos; mais distante, avulta a majestade rotunda do industrial insatisfeito, empanturrado pelas propinas que a guerra lhe meteu no bucho.
Todos eles são mais ou menos chefes. Não se sabe bem do que, mas certo é que o são. Graúdos, risonhos, nutridos, polidos, escovados, envernizados, lá estão inchando, inchando. São os grossos batráquios da lagoa republicana. Muitos, menos volumosos, coaxam pelos cantos, chefinhos incolores, numerosos, em chusma, minúsculas pererecas em poças d'água. [...]
São, a um tempo, intendentes ou prefeitos, juízes, promotores, advogados e jurados, conselheiros municipais, comissários de polícia e inspetores de quarteirão. Realizam a pluralidade na unidade! E ainda há quem duvide do mistério da Santíssima Trindade.[...]"
Esse é um trecho de um artigo de Graciliano Ramos, publicado no "Jornal de Alagoas" em Março de 1915 - portanto, há 92 anos. O artigo está compilado no livro "Linhas Tortas", lançado pela Record, que reúne textos de Graciliano para jornais até 1952, um ano antes de sua morte.
O que fica claro, em primeiro lugar, é a coragem dos jornais da época de publicar textos como esse. Não só do começo do século passado, como também no período de caça aos comunistas na década de 30; período de guerra mundial, nos anos 40 e mesmo dos literariamente profícuos anos 50, quando Graciliano não se intimidava de criticar severamente alguns escritores, inclusive alguns amigos. Sobre a literatura, inclusive, o escritor não se furta em afirmar que existem "donos" dela no Brasil, deixando claro quem são eles. Claro, existem nesses textos a coragem de Graciliano, mas temos que admirar a audácia dos jornais, que hoje andam tão bunda-moles, tão precavidos, sempre com medo de ferir suscetibilidades ou de "tomar processos".
Em segundo lugar, nos textos de Graciliano constatamos uma inalteridade das coisas: nada parece ter mudado, seja políticamente, seja no campo das artes. O trecho destacado acima serve de exemplo. Se eu ou alguém escrevermos algo com a contundência desse artigo de Graciliano, certamente não seremos publicados. Sorte que ele escreveu e podemos transcrever e evocar sempre um caráter histórico que possa justificar a publicação. Os ofendidos, que procurem o jazigo do escritor no Cemitério São João Batista, Rio de Janeiro.
Graciliano é o "ó com cur" da literatura nacional
na minha modesta opinião
Bia, daí a gente conclui que o que mudou, mudou pra pior, não? Os dominantes, iguais (senão piores!), e os jornais mais bunda-moles (bundas-moles?). Graciliano, hoje, se quisesse uma escrita eficaz, "de resultados", escreveria com a espada. A pena não tá com nada.
Gente! Esse Graciliano é, também, profeta?