falta higiene

(Minha coluna desta semana no TodoDia)

As pessoas não lavam mais as mãos. Essa é uma constatação. Antigamente, talvez 20 anos, íamos a um restaurante e a primeira coisa que fazíamos era lavar as mãos. Os banheiros dos restaurantes espelhavam a higiene do local: eram limpos, cheirosos, impecáveis - ou não! - e nunca faltava sabonete. Naquela época os restaurantes serviam à la carte e era possível pedir um prato para uma família de três ou quatro pessoas. A salada vinha antes, muitas vezes como cortesia. Hoje vivemos a era do self-service, onde o cliente tem a impressão que a diversidade e o poder de escolha realmente valem a pena e trouxe consigo um problema de saúde pública que ninguém está se dando conta; contaminações desembestadas.
Tudo começa com a ânsia do comerciante em ganhar dinheiro: ele coloca a comida ali e vai repondo-a sem jogar fora a outra que está na cuba há horas. Assim, o risco de contaminação é de 80%. A parte de comida fria devia ter um sistema de refrigeração que impedisse a deterioração das verduras. A parte quente deveria ser aquecida ao ponto do vapor. Não é isso que vemos nos self-services por aí.

Por outro lado, existem os clientes - gente, grosso modo, deseducada que, além de não lavar as mãos antes de se servirem, enfiam as cabeças dentro das cubas, se coçam, conversam alegremente com outros que estão ao lado, assoviam. O jornalista Ivan Lessa diz que o brasileiro tem esse péssimo hábito do assovio, espalhando gotículas de saliva para todos os lados. Não seria diferente nos self-service.

O grande escritor francês Céline usou a inacreditável história do médico húngaro Semmelweis (1818-1865) em sua tese de graduação em medicina. Na metade do século XIX metade das mães e bebês morriam no parto, na França, da "febre puerperal". Semmelweis batalhou para convencer os colegas que o simples ato de lavar as mãos antes do parto podia mudar esse quadro de mortalidade. Semmelweis foi considerado louco. Deve ter gente que, impressionantemente, ainda o acha.

Nós, no Brasil, em pleno século 21, vivemos um período de sombras quando o assunto é higiene básica. Talvez seja por isso que o País é o campeão mundial de contaminação do parasita Toxoplasma Gondii - segundo matéria na revista Piauí. Sessenta e sete por cento dos brasileiros são contaminados pelo parasita que se aloja no cérebro e pode provocar confusão mental, depressões, estados de euforia e até mesmo suicídio. Bem, eu creio que 67% de população contaminada deva ser um caso emergencial de saúde pública, pois não?

Porém o discreto Toxoplasma Gondii talvez não deva ser considerado o grande vilão - ao menos não quando relaciono saúde pública a restaurantes. A contaminação por bactérias e parasitas de quaisquer espécies presentes nos self-services, principalmente por falta de higiene do cliente, associada à preocupação latente com o lucro (comidas mais baratas, qualidade jogada para baixo), reaproveito de alimentos, molhos que deveriam ficar sob refrigeração mas ficam sobre as mesas e são usados de maneira indistinta pelo cidadão que não se preocupa em jogar um pouco de vinagre sobre a salada... tudo, tudo isso, resulta num entupimento de hospitais e numa venda frenética de remédios em farmácias para o que se chama de “distúrbios alimentares, digestivos ou intoxicativos”.

Grande parte dos casos atendidos em hospitais não são associados à comida de rua: self-services, salgadinhos, churrasquinhos de gato da esquina, etc... Mas 90% derivam desse tipo de alimentação, embora o mal-estar - que acaba custando ao bolso do cidadão - seja percebido, muitas vezes, apenas um ou dois dias depois. Mais uma vez trata-se de um caso onde se cada um fizer a sua parte, as coisas podem melhorar. Se todos lavarem as mãos, como começaram a fazer na segunda metade do século 19, já seria um grande progresso. Você lava a sua?

semmelweis.jpg

18 Comments

seu viado, tirou meu comentário sobre cu sujo. que merda. censura fede mais do que cu sujo.

Como disse o Dr. Cláudio, é um post de utilidade pública.
Não só lavo como até hoje, embora meus filhos sejam bem grandinhos, ao sentarmos à mesa sempre pergunto:Já lavaram as mãos?

e vc, Bia, lava a mão antes e/ou depois de mijar???
abçs limpinhos

cara, meu dentista me contou uma coisa espantosa: na índia, onde os hábitos de higiene não são lá muito confiáveis, existe uma contradição que intriga todos os pesquisadores mundo afora. é que a população hindu é a que menos tem cáries do mundo. pode ver nas fotos, todos com o sorriso completinho! tudo isso por conta de que eles têm 2 tipos de bactérias (entre as muitas que vivem em nossas bocas) que entram em conflito, e por isso não se reproduzem, portanto não causando as malfadadas cáries. ISTO É INCRÍVEL!

Eu lavo se eu cozinho.

Biajoni, o hábito de estender a mão direita para cumprimentar alguém diz muita coisa. é resquício da etiqueta medieval. sem papel higiênico, cabia à mão esquerda o papel(sem trocadilho) de limpar o 'serviço'. portanto, seria uma ofensa grave cumprimentar alguém com a canhotinha.
ainda bem que eu , canhoto, não vivi naquela época.

Bia, eu trabalho em um restaurante TOP na Vila Olímpia. Implanto as estratégias de Marketing e vendas, já que não é fácil vender na região. Quando eu digo um restaurante TOP, estou dizendo TOP na qualidade da comida e principalmente na higiene. Quando cheguei lá, fiquei pasma com o investimento dos caras só na cozinha: R$ 200.000,00. O processo de higienização dos pratos custa em média R$ 1.000,00/mês, fora a esterilização dos todos pratos manual com álcool 96º. Um terço do total do investimento foi na cozinha, fora outros MIL detalhes que só trabalhando se percebe a capacidade de fazer algo bem feito. Aí, eu disse que deveríamos vender essa idéia, meu chefe brigou comigo dizendo que isso não era um diferencial e sim uma obrigação. Ele está certo, mas quando eu o convidei para visitar alguns restaurantes na região - foram 4 dias de pesquisas e observação - ele entendeu o que eu quis dizer. Você não pode falar mal da concorrência, mas pode fazer seu cliente entender o que é um bom restaurante e ter nojo da concorrência. As pessoas que converso são de altíssimo nível e até hoje 100% deles ficaram encantados com algo que TODOS os restaurantes deveriam ter. Menos de 1% dos clientes lavam as mãos antes de almoçar. Depois de saber o que é um bom restaurante, se tornam muito fiéis e é preciso somente 5 minutos de conversas informais com eles. Isso quer dizer: não há higiene pq os próprios clientes desconhecem isso. É como a TV aberta, só é um lixo pq o povo gosta de lixo. O povo faz a TV e não o contrário.

seu comentário vem de encontro a uma palestra que vi um tempo atrás onde foi dito que uma câmera escondida (!!!!!) num banheiro de um grande hospital em sampa comprovou:80% de médicos e outros profissionais que usavam aquele aposento saiam de lá sem lavar as mãos!!!!!se os " todo-poderosos" agem assim, imagine os pobres mortais!!!!kkkkk

É isso mesmo, no mundo ninguém mais lava as mãos. Só dentista, quando faz jogo de cena, antes de meter a mão na nossa boca!Mas apesar de no Brasil o povo ter o hábito de banhos diários, as mãos estão sendo relegadas para segundo plano. E não sabem o que é GOSTOSO, quase levando a um orgásmo prazeiroso uma boa e constante lavagem das mãos.Muito boa sua postagem e enfoque do problema.

Comida de self service não tem "alma", além de ser cheia de conservantes e higiene duvidosa. E vou já lavar as mãos que este teclado tá imundo...rs
Bj

bem, eu falo sobre a condição do brasil por não conhecer outras realidades.
:>)

Sigo conselho antigo, que pode até não ser 100%, mas conheço o banheiro de qualquer estabelecimento antes de usar o seu serviço. É por lei que qualquer cidadão pode vir a visitar a cozinha do restaurante se assim o desejar.

Bia, lavo tanto a minha mão que uma época questionei se isso era normal.
Beijus

Concordo com vc, Bia!
Mas não gosto muito de textos assim "no brasil, aqui no brasil"...como se o problema só existisse aqui. Como bem disse o Paulo, em muitos países ditos desenvolvidos, as pessoas nao têm hábitos básicos de higiene, como tomar banho, etc. Mas é só uma ressalva! Adorei o texto! E não vou responder se lavo ou nao a mão...todo mundo diz q lava. Nao sei de onde vêm as bactérias...

Seu post de hoje é um "post de utilidade pública", Bia. Deveria ser replicado em todos os jornais, blogs, cartazes em restaurantes, banheiros públicos, etc. Só poderia ter sido escrito por um "louco", como aquele Semmelweis.

Biajoni, o assunto é bom e necessário. Fêz um golaço!
Abração
PS: te respondendo, eu lavo as mãos.

E isso porque o brasileiro é um dos povos mais higiênicos do mundo. Aqui na França, lavar a mão é quase contra a lei, quem vai no banheiro e passa na pia antes de sair é porque não tem consciência ecológica... Pra piorar, assoam o nariz, passam os dedos na roupa e tá ótimo...

Anos atrás, quando corria-se o risco de uma epidemia de cólera no Brasil, as baianas de acarajé de Salvador se preocuparam com a possibilidade de algum turista morrer com os quitutes soteropolitanos. Solicitaram ajuda à prefeitura em cooperação com o sindicato das baianas de acarajé (na Bahia existe sindicato de tudo). Através de um curso desenvolveram um standard de produção e conservação. Jamais se soube de algum consumidor hospitalizado por um acarajé.
...E acabou dando vontade.

É isso ai!
Eu tenho minha conciência tranqüila. Sigo o exemplo de Pilatos e sempre lavo as mãos.

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em março 10, 2007 12:02 PM.

piada pronta é a postagem anterior.

lindo, lindo, lindo! é a próxima postagem.

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