(Roteiro da minha palestra de encerramento do 1o Salão do Livro Infantil de Limeira. Preparei um discurso para crianças, com muitas piadinhas... Mas tinha mais adultos. Bom, eles riram e acho que gostaram...)
Meus pais não eram de ler livros, mas sempre tinha jornais em casa. As primeiras coisas que lembro de ler de fato e me impressionar eram sinopses de filmes na programação de TV do jornal. Eu adorava aquilo, lia todas as sinopses. Assim nasceu meu gosto por sinopses: já pensei em lançar um livro só com sinopses de filmes e livros. Imagina quanto tempo seria poupado, do escritor e do leitor. Em três linhas resolveríamos a história. "Ladrão internacional rouba ex-chefe nazista. Gangue do chefe o persegue. Ele acaba se apaixonando pela esposa do chefe". O que acontece no meio do filme ou do livro, ou no final, todo mundo sempre sabe. No meio, é aquela correria, aquele monte de mal entendido... No fim, o mocinho fica com a mocinha. E fim.
Meu avô sempre gostou de ler e tinha um baú na casa dele com um monte de livros velhos. Eu gostava dos livros mesmo sem ter lido. Eu ficava olhando os nomes e as capas e imaginando as sinopses das histórias. "Recordação da Casa dos Mortos" de um tal Dostoiévski... "O Primo Basílio", de um tal Eça de Queiróz. Eu gostava desse nome, "Primo Basílio". Queria ter um amigo que chamasse Eça para poder dizer "Eu gosto do Eça à beça!". Na verdade, pegava esse livro, ficava olhando para o nome e pensava: "O quer será que o primo Basílio fez? Deve ter sido alguma vingança com a família que lhe deu esse nome esquisito..." Nessa mesma coleção do meu avô encontrei um livro que me chamou a atenção e que eu levei para casa e li e reli e me encantou. Não foi exatamente dos primeiros que li, mas um dos que mais me impressionou: "Os Heróis" de Charles Kingsley. (link para download do livro em inglês)
Eu conhecia alguns heróis, mas não aqueles do livro. Eu conhecia alguns heróis do Gibi. Meu pai tinha um tio mecânico de automóveis que tinha toda a coleção dos Gibis. Quando estudava de manhã e não tinha nada para fazer à tarde, pegava minha bicicletinha e ia até a Oficina do Fleury; sentava lá no fundo, e ficava lendo as aventuras de Flash Gordon, O Príncipe Valente e Nick Holmes - o meu preferido.
Quando estava aí para completar meus 12 anos, foi lançado no Brasil os gibis "Heróis da TV" com os heróis Marvel. Eu nunca soube por quê o gibi tinha esse nome, "Heróis da TV", se não passava desenho de nenhum deles na TV. Enfim. Eu comecei obrigar meu pai a comprar. E tomei contato com todos esses heróis maravilhosos do Stan Lee, um verdadeiro construtor de mitos modernos.

No colégio, não sei por que cargas d'água, me botaram para tomar conta da biblioteca. Não lembro se foi um lance voluntário, mas quando vi tinha que estar na biblioteca duas vezes por semana no período da manhã - eu estudava à tarde, nessa época - e registrar se alguém chegava para retirar um livro. Poucas vezes chegava alguém. E como não tinha nada pra fazer, ficava lendo umas coisas lá.
Também no colégio eu tinha uns amigos que gostavam de ler de verdade. A gente ia até a biblioteca municipal e ficava lá por horas pesquisando livros, lendo, retirando volumes que nunca foram abertos. Mas era uma aventura! E pegava bem aparecer com livros grossos em casa. Lemos algumas coisas interessantes como as versões resumidas de Moby Dick, Dom Quixote ou O Conde de Monte Cristo. Lembro de ter lido uma versão quadrinizada bastante boa de "Hamlet" de Shakespeare. Quando li o original, me bateu a nostalgia: preferi a versão quadrinizada!
As professoras de português, a Dona Vera e a Dona Marlene, nos davam bons livros (tirando o "Iracema" do José de Alencar - que eu de-tes-tei!). Começamos com a famosa Coleção Vaga-Lume, cujo "Mistério do Cinco Estrelas" é o meu favorito, até alguns outros infanto-juvenis, como "O Gênio do Crime", do João Carlos Marinho, meu infanto-juvenil preferido de todos os tempos, um livro que influenciou muito minha geração de trintões metidos a escritor. Nos sentimos todos verdadeiramente homens e leitores depois de "Dom Casmurro", do Machado; e de "O Cortiço", do Aluísio de Azevedo. Esse sim, era um livro QUENTE!
Uma minha tia, a mais nova de quatro irmãos, foi fazer Letras e estava sempre com livros em casa. Sempre tinha uma coletânea do Drummond, do Quintana... Ela também tinha aquela coleção "Para Gostar de Ler" e eu lia - não para gostar, nunca achei que fosse gostar, mas, quando vi, já estava gostando. No meu aniversário de 11 anos, e em todos os outros posteriores, ela me deu um livro. Foi um dos livros que mais me deu prazer. Foi "Memórias de Um Cabo de Vassoura", do Orígenes Lessa.
Nesse período eu não sei quem foi que me deu, algum parente ou amigo de meus pais, um livro que eu também amei: "O Menino do Dedo Verde" do Maurice Druon.
Um tio sempre gostou de ler e a casa dele sempre teve prateleiras cheias de livros. Tinha uns livros bem estranhos ali, de uns autores que nunca tinha ouvido falar e com títulos bem malucos. Um deles era "O Templo de Satã", de Stanilas de Guaita. Eu sempre folheava aquele livro com um medo do cão! Tinha uma receita para fazer uma pessoa! E tinha umas frases que, se você falasse em voz alta, podia morrer instantâneamente! Nunca falei. Acho que por isso que estou aqui vivo até hoje.
:>)
Eu achava que meu tio era alguma espécie de bruxo. Uma vez pedi um livro para ele, de presente. E ele me deu as "Histórias Extraordinárias" de Edgar Allan Poe. Aquilo sim me deu medo. A história do gato preto é uma das minhas preferidas até hoje.
Nessa época, dos 13 ou 14 anos, alguém me emprestou "O Exorcista", do Peter Blatty - que está totalmente esgotado no Brasil. Eu li in-tei-ri-nho! Não sei como! - até hoje tenho arrepios de pensar. Uma vez estava lendo o livro na cama antes de dormir e a cama tremeu! Eu juro!
Um dia minha mão pegou um ônibus e encontrou um livro lá. Era "O Tocador de Tuba", do Chico Anísio. Ela chegou em casa com o livro, ninguém sabia que o humorista era escritor. Eu falei: "Deixa eu ver isso aí!" - como se fosse um grande conhecedor de literaturas. Em quinze minutos tinha lido o livro. Um livro saboroso, delicioso, injustamente fora de catálogo há muito tempo, cheio de causos nordestinos transbordando humor.

Nesse período época eu me achava algum tipo de intelectual, já que eu gostava de ler de verdade enquanto meus amigos continuavam afirmando que ficar correndo atrás de uma bola era uma coisa muito melhor para se fazer. Bobagem. Você vai correr atrás de uma bola hoje e vai correr atrás de uma bola amanhã e a cena vai ser sempre você correndo como um idiota atrás de uma bola. Eu lia uma página nesse minuto e, no outro, estava vivendo outra aventura.
Era outra cena, outra situação. Podia estar no nordeste com o Chico Anísio ou no Egito com um pesquisador de demônios; podia estar nas terras míticas com Jasão e os Argonautas ou vivendo o drama realista de um menino com o dedo verde: onde ele tocava, nascia uma planta. Podia estar acompanhando o terror de um homem perseguido por um vingativo gato preto ou desvendando um crime com Sherlock Holmes.
Tudo era muito divertido. E tudo é muito divertido, pois a capacidade humana de criar, reinventar histórias e contá-las não tem fim. Eu gosto e lê-las e de criá-las. Acho que nossa vida fica muito melhor com elas. Talvez sequer existisse razão na vida sem elas.
:>)
Nossa, Biajoni,
que bacana, até senti cheirinho de naftalina e de vovó fazendo bolo de milho, rs...
Nossa, admito que boa parte desses livros eu não li. Mas também detestei (todo mundo odeia!) Iracema. Aos 12, o livro que mais me marcou foi um de contos do Machado de Assis, principlamente 'Uns Braços', que me deixou doida! Aquilo, na época, me pareceu tão voluptuoso que nem parece ser o mesmo conto quando leio hoje! E O Pequeno Príncipe também foi um marco! Uum pouco mais tarde, decorei sem querer poesias do Castro Alves, que sei até hoje, pra declamar na janela da salinha de aula. Fiquei sendo a louca da sala... E me lembro que na mini-bibliotequinha (micro!) da escolinha onde estudava havia 'O Menino do Dedo Verde', mas nunca tive vontade de ler pois cismava ser a história de um menino com maus hábitos e o dedo cheio de meleca (até hoje não sei se se trata disso). Era a doce imaginação infantil...
Dá até suspiro...
Abraço!
Deus, Heróis da TV número 1! Eu achava que era o último brasileiro vivo a ter uam cópia em bom estado desse gibi! Ótima edição também... Surfista Prateado com arte do Gene Colan, Thor com Jack Kirby e, a não ser que eu esteja falando merda, a história do Punho de Ferro era com desenhos do novato John Byrne...
Deu saudades.
PS: curto seu blog.
Ah... chorei tanto com o "Menino do dedo verde"... eita final triste!
Biajoni, coincidência: fiz um post segunda-fira agora com esse mesmo tema. Lógico que o teu está muito mais completo, mas o contexto é o mesmo.
Ainda bem que vc parou com aquela coisa gay do teu passeio por S.J.Rio Preto e região. Gostei não.
Abraço grande
Eu adorei o "Gosto do Eça á beça". Eu me lembro de ter lido A Profecia, acho que com uns 14 anos. Foi assustador hehehe.
Bia..
Eu nunca tive coragem de responder o que vc me respondeu num comment meu sobre um post do Raulzito. (tvz pq eu tenha demorado a abrir o email q pus de contato. Problema resolvido)
Mas não era isso q eu queria dizer.
Eu tenho q te dizer que excetuados os títulos dos livros e episódios como o da biblioteca você contou a história da minha vida!!
Eu comecei a gostar de ler através de giobis que ganhei durante uma temporada no hospital (bronquite e pneumonia) e nunca mais parei. Li "A METAMORFOSE" com 12 anso e achei nojentão.
É muito legal ler uma história que me fez lembrar da minha infância.
Desculpa a incoerência do texto, mas é emoção mesmo.
Abraço!
P.S. Eu tbm ODIEI Iracema!
Sua leitura precoce de "Memórias de um Cabo de Vassoura" teve alguma influência sobre a sua obra futura, em especial o masterpiece "Sexo Anal"? :)
Lembro ainda da leitura de 'Tubarão' na adolescência durante uma férias na praia. Cagada total. Devia ter lido só na volta.
Muito boas tb a saga das "Vaca Voadora", "Vaca na Selva", e outros do(a) Edy Lima.
Ah...lembrei também de outro bem marcante : " Uma rua como aquela" da Lucília Junqueira de Almeida Prado
abç
Lembo de ter gostado muito também da 'Curva do Calombo' do Chico A., na adolescência. Incrível como certas pessoas pioram com a idade.
Muito bacana, véio. Depois de tanta gente escrevendo sobre os livros que leu em criança, qualquer dia eu faço um post disso também...:-)
Tinha exatamente essa ediçao do Memorias de um Cabo de Vassoura.. moh saudade..hehehe. Tbm li bastante a coleçao Vaga-Lume, mas a minha paixao pela leitura começou com a coleçao do Monteiro Lobato da minha mae..Uma ediçao completa, em capa dura de 53, que foi da minha mae :-D