meu fim à polêmica do cinema de autor - post didático

Rafael Galvão, conhecedor de cinema e provocador profissional, fez dois posts retomando uma antiga tese sua sobre a "autoria" no cinema. Segundo essa sua tese, não existe "cinema de autor" e talvez essa classificação só pudesse ser utilizada quando o diretor fosse, ao mesmo tempo, o roteirista e produtor do filme, acumulando funções que dariam a ele liberdades gerais e irrestristas. O Rafa é bom nos argumentos e, por isso, confunde os incautos - que entram de cabeça na discussão. Na verdade, a tal discussão não existe: o cinema de autor é mesmo aquele onde o diretor assume os riscos da produção de uma obra talvez pouco convencional. Algumas vezes ele banca isso do próprio bolso, em outras recebe o aval total do produtor por conta de um nome, estilo ou competência inquestionáveis. Em alguns casos mesmo o cineasta comercial consegue desenvolver uma obra autoral. Calma, cito exemplos na sequência.

Primeiro preciso dizer que não acho que Rafael não acredita na sua tese, é uma tese retórica que ele reforça evocando o confuso crítico francês Alexandre Astruc. Astruc fala da camera-stylo no sentido do desenvolvimento de uma arte audiovisual mais focada no visual, no manejo da câmera como um pincel que produz uma obra talvez cubista. A teoria de Astruc não está tão obsoleta assim quando pensamos em David Lynch e em alguns que seguem os seus passos.

Porém, é mas justo dizer simplesmente que o "cinema de autor" é tão somente aquele filme que mostra um trabalho criativo do diretor no contar da história, trabalho que se desenvolve para além do roteiro. Um diretor medíocre pode ocasionalmente fazer um filme de autor, um filme onde ele contribui para o contar da história mais que simplesmente fazendo a lição de casa de enquadrar bem os atores em cena ou ser competente numa sequência de ação. Temos diretores que, ao longo da carreira, vão desenvolvendo um estilo - podemos dizer "maneirismo" em alguns casos - e a simples aplicação desse estilo pode alterar sobremaneira a transposição do roteiro para a tela.

Agora os exemplos, para não mais gerar dúvidas quanto ao assunto:

- Woody Allen faz filmes de autor sem botar a mão no bolso - vem sempre bancado pelos produtores Jack Rollins e Charles H. Joffe que sabem que é melhor dar liberdade para Allen fazer o que quiser, já que ele mais acerta que erra. Sim, ele é o roteirista de seus filmes.

- Martin Scorsese às vezes escreve, às vezes produz, às vezes só faz a direção mas consegue ter uma obra autoral. Um dos motivos é o mesmo time de colaboradores, onde o destaque é a editora Thelma Schoonmaker - e quem conhece cinema sabe que cinema é montagem. Eles trabalham juntos e boa parte do "êxito autoral" da obra de Scorsese é de Thelma. (Já estou vendo o Rafa se coçar para dizer: bem, mais é a autoria é dela. Num caso como esse, estamos falando de um casamento, quandon dois trabalham procurando o mesmo objetivo)

- Steven Soderbergh é um grande diretor, um cara que gosta de experimentar, pisar em vários terrenos. Assim como DePalma, ele tenta fazer um filme pequeno e autoral intercalando com um filme de uma major - e ainda assim, apesar de fazer um "Onze Homens e um Segredo", faz "Full Frontal". Reza a lenda que é um dos poucos que conseguem, em contrato, dar a palavra final sobre o filme antes do lançamento.

- John Woo não escreve seus filmes, é contratado para fazer filmes de ação e bem os faz. Há quem chame sua mise-en-scene de maneirista e viciosa, mas eu acho que ele tem uma filosofia clara, mesmo quando injeta pombas brancas voando em câmera lenta. Ele é herdeiro de uma geração que teve Adrian Lyne, Alan Parker e Michael Mann. Sim, Adrian Lyne conseguiu fazer uma obra coesa - admire-se ou não - explorando o sexo e a fotografia publicitária oitentista. Alguns filmes de Alan Parker basta bater os olhos para reconhecer a autoria. Michael Mann melhora com o tempo, preocupado sempre com a paleta de cores para dizer um pouco mais do que está no roteiro.

É isso, esses caras querem dizer um pouco mais do que está no roteiro.

É assim quando Elia Kazan mostra, através dos enquadramentos, a confusão de Cal Trask (James Dean) em "East of Eden". Kazan não escrevia nem produzia seus filmes.

EDEN.jpg

APDEITE:
- Antes que o Rafa escreva em algum lugar que eu transformei o "cineasta autoral" em "cineasta competente", resta dizer que ele (o cineasta) tem que agregar valores próprios (dele) ao roteiro que filma; tem que ter um projeto estético para a coisa. E o "estético" não está no roteiro.

10 Comments

Eu sempre acho engraçadíssimo quando as pessoas resolvem debater cinema - especialmente quando são pessoas que nunca fizeram um filme. Nada contra, por favor, continuem, mas que é engraçado demais, isso é. Imagino se resolvessem discutir como produzir parafusos, deve ser mais engraçado ainda =)

hahahahah,Hoje é um dia histórciohahaha ,você e o Rafael Galvão acabam de criar o universo paralelo da BOBOSFERA, pelo amor de DEUS hahahahahaha, como diria meu irmão mais novo: " pára com ilso Uilso" , hahahaha, que é isso? Aonde vocês aprenderam tudo isso hahahahahaha, você dois dfeveriam ser presos por estelionato, estelionato na bobosfera hahahahahah.

Abraços inaugurais mentes fantásticamente bobas,caras-de-pau do caralho!!!

Ui Montana, o gringo looooooouuucco.

Perfeito. :)

Se Lars von Trier não faz um 'cinema de autor' eu não sei mais que raios ele faz.
abç

Sim, haha, por que?

Se você tivesse sido meu professor de cinema na faculdade, Bia, eu tinha me dado bem. Mas o meu era um cara estilo Rafael. E eu me fudi. Não entendia xongas da aula...

ÊÊÊÊÊÊÊ!!!!!!!!!
Porra, até que enfim alguém explicou - ou eu entendi - o que o Rafael queria dizer com aquele post dos infernos.
Grandes merdas, aliás. Uma discussão totalmente vazia na qual nem sei por que entrei. Por burra, só pode.
Primeiro achei que tinha entendido, mas achei sem sentido. Depois ele tentou com tanto afinco dar algum cunho racional àquela repentina e tola bravata contra o cinema de autor que eu cheguei a acreditar que era tão burra quanto ele me fez sentir.
Pra agora, novamente, voltar a ser a mesma burrinha de sempre, não mais, nem menAs.
Acredita que aquele $#%@*& me comparou ao Reinaldo Azevedo?
Tou de mal!

Estou voltando lá do Rafael Galvão. O cara não é fraco não. Dá um banho nos argumentos, difícil contra-atacar. Tem bala na agulha.
Agora, cá prá nós: essa discussão vai longe?
Abração

Biajoni, fala uma coisa prá mim: existe um filme que não seja "de autor"? W.Allen p.ex,?

Diz que o Stephen King comprou, reformou e reinaugurou um cineminha lá na cidade dele, no Maine. O que prova que existe, sim, cinema de autor, oras.
:-)

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em fevereiro 12, 2007 5:58 PM.

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