meu conto para a piauí - na íntegra

(Escrevi um conto dentro da proposta da Revista Piauí - um conto com a frase lá embaixo, em negrito - mas o conto excedeu o número de toques. Tive que reduzir muito para enviar, mas achei que a íntegra ficou legal, e posto aqui - com ilustrações)

dez anos entre loiras e sangue

A angústia tomava conta de Bob Dylan. Primeiro tinha sido a confusão mental que se seguiu ao lançamento de "Blonde on Blonde". Ele sabia que jamais ia conseguir fazer algo melhor que aquilo. Ele sabia que aquele disco havia sido a soma feliz de números e acasos e um momentum peculiar. Estava claro que tudo aquilo que chamavam de contracultura ia acabar; só importava mesmo a arte que alguém talvez pudesse produzir de maneira atemporal mas sugando das veias do instante o doce sangue de tudo o que é imperecível. Ele tinha talento, é certo, mas teve muita sorte - e várias das mentiras que contou, nas músicas ou nas entrevistas, ou soaram como verdade ou soaram enigmáticas ou causaram estranheza suficiente para que ele fosse visto como alguém além de um simples cantor que soubesse erguer de maneira charmosa apenas uma das sobrancelhas. Ou as duas.

Bem, a própria confusão mental, que o fez mentir mais, até mesmo sobre a qualidade de suas canções, rendeu alguns bons frutos, como "All Along the Watchtower" ou "Lay, Lady, Lay", e, apesar do último disco conter uma grande canção, "Like a Rolling Stone", ele tinha vergonha dele. Tanta vergonha que outro disco estava pronto e ele queria lançá-lo logo, numa desesperada tentativa de enterrar o erro do outro, aquele disco caudaloso, prolixo e metido - que ele, mais uma vez errando despropositadamente, chamou de "Self Portrait". Ele não sabia, é claro - e não tinha como saber -, mas esse novo disco iria ser considerado um de seus piores trabalhos.

Sim, depois de quase três anos de confusão, agora era a angústia. Tinha muita gente boa aparecendo, gente realmente boa, fazendo músicas que realmente importavam. Suas mentiras poderiam não se sustentar. Ele quase emprestava mentiras de outros artistas. A capa para o novo trabalho, suavemente intitulado "Nova Manhã", tinha sido "inspirada" na capa do disco de estréia de Leonard Cohen, "Songs".

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(Uma vez um jovem negro que carregava e afinava os trumpetes de Chet Baker disse a Dylan que o artista não devia se preocupar com a coerência e que os personagens deviam bailar dentro de uma canção como se o tempo não existisse. Dylan gostava de conselhos desse tipo.)

Ele tinha visto e ouvido o disco de Cohen no apartamento de uma amiga do SoHo, uma lésbica que gostava de ser chamada de Gertrude Stein. Quase entrou em depressão. Talvez ele, Dylan, nunca fizesse nada parecido, nada tão poético. Uma "nova manhã" significava isso: a tentativa de fazer algo indelevelmente poético, como aquilo que Cohen havia feito. Mas sabia que não tinha conseguido. Para piorar sua angústia, toda aquela sua vontade de retomar a tradição country misturando-a com o blues e alguma atitude contemporânea poética não tinha dado muito certo, apesar da bonita parceria com Johnny Cash - e agora um "cantorzinho metido", chamado Randy Newman, lançava um disco, "12 Songs", e, meu Deus!, como ele queria ter feito aquele disco! Era perfeito, era todo bonito, incluindo a capa, uma capa tão perfeita, com um aparelho de TV, uma cadeira de balanço e uma cadeirinha de criança num quintal... - simbolizava tudo o que ele queria dizer. Tudo. Estava ali toda a mentira.

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Depois do disco de Cohen, aquele Randy Newman tinha acabado com ele. Ele se sentia tão angustiado que decidiu conversar novamente com Gertrude Stein - ela era uma boa conselheira, daquelas que respeitavam os limites e interesses dos artistas e sabia como lidar com eles; os interesses e os artistas.

Entrou na água-furtada de Stein e foi se atirando no sofá amarelo que ficava no canto, ao lado da pilha de discos. Estava prestes a chorar. Stein deixou que ele se acalmasse, foi buscar algo para beberem. Dylan esticou o braço e alcançou um disco; era o "Songs" de Cohen. Ele suspirou e ficou olhando por uns instantes a foto na capa, os olhos profundos e algo tristes do canadense. E, sem nenhum motivo, virou o álbum. Tomou um susto ao ver a contracapa, dando um pequeno grito. Seus olhos esbugalharam: contrastando com a capa sóbria estava um desenho colorido. Ali, Joana D´Arc era consumida pelas chamas. Talvez pudesse ser uma referência a uma canção sua, do "Blonde on Blonde". Mas ele achou que fosse mais que isso: mostrava uma conexão entre eles.

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(Num flash, o cantor lembrou de uma história que ouviu há tempos sobre a estranha conexão entre Picasso e Modigliani, duas faces da mesma moeda, dois amigos-rivais, duas forças da natureza, dois dementes metidos no mundo sujo da arte onde as aparências valem mais que a verdade. Ou que a mentira poética.)

Dylan pulou do sofá segurando firme o álbum com as duas mãos, encarando o desenho da santa francesa. E começou a falar, falar sem parar, estabelecendo as mais estranhas linhas de ligação entre ele, o canadense, Joana e também externando sua frustração por não conseguir fazer nada parecido com o que Newman estava fazendo e...

Stein entrou na sala acompanhada da namorada, Alice B. Toklas, que balançou a cabeça:
- Eu já disse, Bob, você tem que saber que as coisas não giram ao seu redor.
Desesperado, Dylan gritou alto:
- Mas Alice, eu já disse que não sou um mitômano!
E saiu correndo com algumas idéias sobre o que faria quatro anos depois, em "Blood on The Tracks".

13 Comments

A CONTRA-CAPA DO ALBUM BLOOD ON THE TRACKS (VERSAO BRASILEIRA) TRAZ, NO MEU ENTENDER, A MAIS PERFEITA DEFINICAO DO MITO BOB DYLAN.
PENA EU NAO LEMBRAR AGORA O NOME DE QUEM ESCREVEU (OU TRADUZIU) O TEXTO. ME EMOCIONO TODA VEZ QUE VOLTO A LE-LO E COMPREENDO PORQUE
DYLAN ME MOSTROU O VERDADEIRO CAMINHO DA MUSICA, E NORTEOU MEU MODO DE VER E OUVIR A VIDA. CONHECI DYLAN NA DECADA DE 70, QUANDO OUVI PELA PRIMEIRA VEZ O ALBUM GREATEST HITS (CAPA AZUL-VERSAO BRASILEIRA). TODAS AS MUSICAS ME TOCARAM COMO NENHUMA OUTRA ANTES, E COMECEI A COMPRAR E GRAVAR TUDO QUE ME CAIA NAS MAOS DESTE QUE SERA SEMPRE MEU MAIOR E UNICO IDOLO.

VIDA LONGA A NOS E A DYLAN

UAU

Muito bom! Se não der você, é marmelada!

esse eu li em primeira mão! (ou foi em segunda?)

Pô, Biajoni, tá ótimo, o conto. Muito ótimo. Torço por você!

Que maravilha!

E acho que Leonard Cohen anda me perseguindo. Ouví-lo ei com mais frequência.

Grande abraço, Bia.

Um dia, cara, ah, um dia...

Ah... mas as ilusões ... o que seria da arte sem elas, não é mesmo?

Enquanto ele achar que ainda não conseguiu e continuar tentando, prá mim tá bom.

"Blood on The Tracks" é a grande facada no cérebro, talvez a maior porrada na orelha que eu já levei! Não sei como vivi uns 29 anos sem ouvir esse disco...

Quando a coisa é boa a gente faz questão de espalhar. Sorte pra vc e obrigado pela visita.

Caro Biajoni,

Queria contar a você que, por meio da Luana Schnaiderman (Lulu), fiquei sabendo do seu livro Sexo Anal. Baixei-o do seu site e o li na mesma noite, de um fôlego só. Adorei. A trama me prendeu completamente, do princípio ao fim. Tanto gostei que comecei a indicar (e mandar) o livro para uns amigos. Foi aí que mais quatro pessoas o leram: um amigo e uma amiga de Curitiba, um amigo de Buenos Aires e outro de Barcelona. Todos me contaram depois que gostaram. Sendo assim, queria parabenizar você pelo livro. Boa sorte no futuro com ele e continue escrevendo.

Biaaaa lindooo!!!!
Vc super tem que ganhar :)

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em fevereiro 17, 2007 12:45 PM.

o caricaturista do tododia simplesmente não consegue acertar comigo... é a postagem anterior.

você crê? é a próxima postagem.

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