(Mamãe nervosa? Papai chega tarde? Ligue 0800-TITIA. Satisfação garantida!)
- Fotas de celular pelo meu grande amigo Kyn.
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(Minha coluna no TodoDia)
"Os Infiltrados" fecha uma quadrilogia de Martin Scorsese iniciada em 1973 com "Caminhos Perigosos" e continuada com "Os Bons Companheiros" (1990) e "Cassino" (1995). "Touro Indomável", de 1980, pode ser considerado um interlúdio nesse longo épico em capítulos sobre a convivência de marginais entre si, suas relações éticas.
Scorsese é um garoto franzino, de família italiana, nascido em bairro pobre, que viu os amigos se tornarem gangsters, criminosos, traficantes. Por ter saúde frágil, cresceu dentro de cinemas. Também ia muito à biblioteca, à procura de livros sobre cinema. Ele retirava várias vezes o mesmo livro e, de alguns, chegou mesmo a rasgar ilustrações, fotos impressas. Na adolescência tentou integrar gangues, mas não foi feliz - talvez sentisse o estômago embrulhar quando tivesse que cobrar alguma dívida a mando de chefões. O fato é que o italianinho gostava de boas histórias no cinema e também ficava fascinado pelos tipos ao seu redor: marginais classudos vestidos em ternos bem-cortados, desfilando em carros enormes com rabo-de-peixe e belas louras e baba-ovos sempre dispostos a acenderem o cigarro-com-piteira com algum isqueiro estrambótico. (Nunca usei tantos hífens numa frase, é quase como um travelling de Scorsese)
Scorsese impressionou-se de cedo com essas duas realidades, e usou o cinema para contar o que viu. Ou o que ouviu falar. Ou o que pesquisou. Ou o que alguém escreveu. Em "Caminhos Perigosos" começa a parceria de Scorsese com seu ator-símbolo, Robert DeNiro. O filme mostra um grupo de delinqüentes do Bronx fazendo nada e inventando para si mesmos que são maus. mas têm, todos, dificuldades para se comunicarem e se relacionar. Em "Touro Indomável" existem os gângsteres que coordenam o mundo do boxe, mas o foco está no lutador Jake LaMota e seu relacionamento com o irmão, as crises de egocentrismo e ciúmes. Mas os gângsteres estão ali, até com atores que seriam utilizados em "Bons Companheiros": a exegese do diretor sobre as complicadas relações entre homens enquanto eles pouco têm, quando melhoram de vida (de maneira ilegal), quando ricos e, no geral, dependendo e desconfiando uns dois outros, como acontece em grupos de homens que passam muito tempo juntos. Em "Cassino", retorna a mesma equipe de "Os Bons Companheiros" para contar também histórias de ruídos entre marginais embora, aqui, o crime seja institucionalizado (com aprovação de políticos) e com pitadas do LaMota na composição de 'Ace' Rothstein por parte de DeNiro. Aqui outros componentes também são colocados para ampliar a discussão - que podemos chamar "sociológica" - sobre os mecanismos de confiança e traição de grupos gângsters: 'Ace' Rothstein é judeu e essa sua condição impede que ele vá muito além do que gostaria ou mereceria.
Tanto "Os Bons Companheiros" como "Cassino" são baseados em livros de Nicholas Pileggi, que viveu dentro de esquemas do crime organizado. Não esqueçamos o fascínio do diretor por gangues, tanto que fez "Gangues de Nova York", baseado em livro do sociólogo Herbert Asbury.
Agora, com "Os Infiltrados", Scorsese dá um passo além ao confundir os papéis dos policiais e dos marginais. Até agora, nos filmes de Scorsese, os policias são relegados a um segundo plano, assim como as mulheres. Podiam ser corruptos, mas apareciam de leve, quase sem interferir na ação. Os policiais são um incômodo para os gangsters, tipo moscas que ficam por ali e temos que abanar constantemente. Porém, agora, com "Os Infiltrados", os policiais são como os marginais, sofrendo dos mesmos problemas de relacionamentos.
Seria mais fácil para estabelecer uma relação final entre todos esses filmes, construindo a "série gângesters de Scorsese", se o diretor tivesse escalado DeNiro para o papel que coube a Jack Nicholson. Nicholson está ótimo, é verdade, mas acaba servindo para um clichê. Com um DeNiro de cabelos brancos talvez víssemos um 'Johnny Boy' Civello crescido, na pele de Frank Costello. 'Johnny Boy" Civello é o personagem de DeNiro em "Caminhos Perigosos".

A discussão entre o Rafael (quem mais?) e o Adriano sobre o uísque de autor é, desde já, uma das melhores da blogosfera. O interessante, nesse caso, é que os dois estão razoavelmente errados.
Rafael defende o Jack Daniels talvez menos pelo que ele é (um boubon) e mais pelo que ele representa (uma bebedeira homérica que não pode ser simplesmente chamada de "uma entortada" pois foi resultado da bebelança de uma bebida com aura clássica). O Rafael é um paraíba muito ligado ao "sentido de clássico". Veja a lista dos filmes preferidos dele: não tem nenhum filme contemporâneo - no melhor sentido do termo.
Se Rafael fizesse uma defesa do bourbon eu estaria com ele. Mas ele fez uma defesa do Jack Daniels e esse não é nem o meu bourbon preferido e nem o melhor. Dos facilmente encontráveis no mercado, prefiro o Jim Beam, a bebida preferida de James Bond.
(Se você achou que era o Martini, está enganado)
Já Adriano tenta desqualificar a bebida usando argumentos que o aproximam da direita anaeróbica. Ora, dizer que a bebida é ruim só por ter nascido num estado pobre, preparada por "hillibillies do Kentucky" (sic, ele escreve "hillbillie" errado para menosprezar essa raça que nasceu na Irlanda e, de lá, trouxe a tradição do milho para a América no século 17).
Adriano também tenta exigir uma certa pureza, dizendo que a vodka hoje é feita de qualquer coisa menosprezando a informação de que o uísque escocês é um Blend (e ele não diz sua marca preferida, seria Old Eight?). Bebidas tradicionais como a tequila são feitas da mistura de vários ingredientes, cereais, ervas aromáticas e, nem por isso, são melhores ou piores que outras.
(Hooray, Nelson Moraes!)
Por fim, as duas moçoilas que discutem, tentam levar a coisa para o lado sexual, dentro da lendária cantilena que diz que "quem é macho aguenta beber mais" - e acabam fazendo propaganda de bebidas e desse conceito. E isso antes das dez da noite, o que é proibido por lei.
Só posso dizer, por fim, o seguinte: seus pingaiadas do caralho!
- Domingão de Carnaval e o Clã Branco Leone baixou em Americana para um tarde de churras e cervas. Ganhei um livro que estou lendo e adorando e depois resenho aqui. Tem gente que a gente lê pela internet e depois acaba conhecendo, fica amigo. Tem gente que a gente lê e adora, mas depois vai conhecer e vê que é um saco. E tem essas coisas que acontecem: eu quase não lia o Branco e ele quase não me lia, mas viramos amigos de infância de uma hora proutra. Ele até emulou um Kipling pra falar do "evento". O Branco é lindo.
- Caco Ishak me mandou seu livro "dos versos fandangos ou a má reputação de um estulto em polvorosa" e eu já li mas vou reler antes de mandar que o Caco é o Manoel de Barros da minha geração. Mas ainda mais ocre. Vou saborear mais um pouco.
- Os amigos Donizetti e Olivia assumem a nerdice e lançam o "Über Geek".
- Hehehe, Doni, primeirão, primeirão!
- A cada semana tem mais coisa no blog do "Novela Marrom", já passou lá? Linca, ajuda na divulgação!
- No post sobre a polêmica do cinema de autor, Daniela Castilho comentou que acha engraçado pessoas discutirem cinema sem nunca terem feito um filme. No post do Rafa, ela argumenta que não dá pra saber como o filme vai ficar. Respondo aqui: 1) Não se pode discutir violência sem ter matado alguém?; 2) Só não sabe como vai ficar o filme um diretor inexperiente e sem pulso.
- Djabal gravou "A Canção Inesquecível" para o sr. Durante Gullo. Agora estou à procura do "Gunga Din" original e de "Aeroporto '77". Obrigado Djabal, do fundo do coração. E falo pelo sr. Durante Gullo.
- Jorge Quase liberou seu disco todo para download. Aqui eu falo sobre ele.

- No "Dois Discos", o melhor disco de estúdio de Leonard Cohen.
(Minha coluna de hoje no TodoDia)
Em um polêmico poema chamado "Se te queres matar", Fernando Pessoa pergunta: "O que que tu conheces,/ Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?".
As pessoas em geral precisam e gostam de acreditar em coisas, das mais variadas: malucas, fantásticas, incríveis. Pessoas acreditam em Adão e Eva - embora nenhuma delas saiba dizer se ambos tinham umbigo. Pessoas acreditam em discos voadores como se esse assunto fosse algo que pudesse mudar a vida delas. Pessoas acreditam em reflexologia, sonhos premonitórios, paranormalidade, numerologia ou mesmo no poder mágico de um relógio que elas talvez possam ter encontrado numa esquina com as próprias iniciais gravadas nele. Muita coincidência? Claro que não: uma mensagem divina - ou qualquer coisa assim. Pessoas que acreditam podem começar a desacreditar adquirindo esse primeiro livro que comento aqui: "O Umbigo de Adão" (Ediouro), de Martin Gardner.
Gardner bota abaixo boa parte dos mitos bestas nos quais as pessoas acreditam piamente - quando se aproximam do Q.I. dum símio. Gardner é da turma do biólogo Richard Dawkins, um dos cientistas best-sellers mais quentes do momento. É de Dawkins "Desvendando o Arco-Íris" (Cia das Letras). A premissa é ótima: ele diz que todo mundo acredita em arco-íris, não é? Só que não existem arco-íris. Isso mesmo. Nós achamos que, lá no céu depois da chuva num dia claro, existe um arco todo colorido. "Sim, é claro que ele existe: todos veêm!", dizemos para nós mesmos numa tentativa de auto-afirmação. Porém, ensina Dawkins, o arco-íris não existe tal qual cremos, lá no céu, todo colorido: ele existe apenas dentro de nossos olhos pois o fenômeno é uma ilusão de ótica causada pelo cruzar dos raios do sol através de gotículas d'água. A partir do exemplo do arco-íris, o escritor vai desconstruindo mitos, mostrando como casos de mágica simples ou de simples coincidências são vistos, através dos tempos, como fenômenos esotéricos, religiosos ou místicos. É nesse livro que ele, através de cálculos rápidos e simples, mostra a probabilidade que qualquer um de nós têm de, ao encontrar um relógio, vermos nele cravadas as nossas próprias iniciais.
É de Dawkins o novo grande sucesso editorial do Reino Unido: "The God Delusion" ("A Ilusão de Deus") onde o autor destrói todos os tipos de religião, "argumentando brilhantemente", segundo Clive Cookson em matéria no "Financial Times". Diz Dawkins sobre o livro: "Os leitores que começarem o livro religiosos serão ateus quando terminarem" e "[as pessoas têm que] se libertar totalmente do vício da religião". Dawkins pode ser encarado como um demônio por uma postura assim, mas ele é só um pacato, bem articulado e inteligente professor, que leva a vida dentro da lei, sem prejudicar ninguém.
Viver a vida dentro da lei, sem prejudicar ninguém é a proposta básica de "Aprenda a Viver" (Objetiva), de Luc Ferry, ex-ministro da educação da França. O livro foi best-seller por lá e acabou de sair no Brasil. A proposta vai além para defender uma sociedade sem restrições de ordem religiosa. "A transcendência [...] não reside mais em grandes entidades abstratas, superiores e exteriores à humanidade, mas, cada vez mais, na humanidade".
Quando vejo livros assim entrando para a lista de mais vendidos volto a ter fé na humanidade, embora ache que a Cientologia ainda vai crescer, os homens-bomba vão continuar espocando por aí e os adeptos da urinoterapia vão continuar bebendo xixi.

(Escrevi um conto dentro da proposta da Revista Piauí - um conto com a frase lá embaixo, em negrito - mas o conto excedeu o número de toques. Tive que reduzir muito para enviar, mas achei que a íntegra ficou legal, e posto aqui - com ilustrações)
dez anos entre loiras e sangue
A angústia tomava conta de Bob Dylan. Primeiro tinha sido a confusão mental que se seguiu ao lançamento de "Blonde on Blonde". Ele sabia que jamais ia conseguir fazer algo melhor que aquilo. Ele sabia que aquele disco havia sido a soma feliz de números e acasos e um momentum peculiar. Estava claro que tudo aquilo que chamavam de contracultura ia acabar; só importava mesmo a arte que alguém talvez pudesse produzir de maneira atemporal mas sugando das veias do instante o doce sangue de tudo o que é imperecível. Ele tinha talento, é certo, mas teve muita sorte - e várias das mentiras que contou, nas músicas ou nas entrevistas, ou soaram como verdade ou soaram enigmáticas ou causaram estranheza suficiente para que ele fosse visto como alguém além de um simples cantor que soubesse erguer de maneira charmosa apenas uma das sobrancelhas. Ou as duas.
Bem, a própria confusão mental, que o fez mentir mais, até mesmo sobre a qualidade de suas canções, rendeu alguns bons frutos, como "All Along the Watchtower" ou "Lay, Lady, Lay", e, apesar do último disco conter uma grande canção, "Like a Rolling Stone", ele tinha vergonha dele. Tanta vergonha que outro disco estava pronto e ele queria lançá-lo logo, numa desesperada tentativa de enterrar o erro do outro, aquele disco caudaloso, prolixo e metido - que ele, mais uma vez errando despropositadamente, chamou de "Self Portrait". Ele não sabia, é claro - e não tinha como saber -, mas esse novo disco iria ser considerado um de seus piores trabalhos.
Sim, depois de quase três anos de confusão, agora era a angústia. Tinha muita gente boa aparecendo, gente realmente boa, fazendo músicas que realmente importavam. Suas mentiras poderiam não se sustentar. Ele quase emprestava mentiras de outros artistas. A capa para o novo trabalho, suavemente intitulado "Nova Manhã", tinha sido "inspirada" na capa do disco de estréia de Leonard Cohen, "Songs".

(Uma vez um jovem negro que carregava e afinava os trumpetes de Chet Baker disse a Dylan que o artista não devia se preocupar com a coerência e que os personagens deviam bailar dentro de uma canção como se o tempo não existisse. Dylan gostava de conselhos desse tipo.)
Ele tinha visto e ouvido o disco de Cohen no apartamento de uma amiga do SoHo, uma lésbica que gostava de ser chamada de Gertrude Stein. Quase entrou em depressão. Talvez ele, Dylan, nunca fizesse nada parecido, nada tão poético. Uma "nova manhã" significava isso: a tentativa de fazer algo indelevelmente poético, como aquilo que Cohen havia feito. Mas sabia que não tinha conseguido. Para piorar sua angústia, toda aquela sua vontade de retomar a tradição country misturando-a com o blues e alguma atitude contemporânea poética não tinha dado muito certo, apesar da bonita parceria com Johnny Cash - e agora um "cantorzinho metido", chamado Randy Newman, lançava um disco, "12 Songs", e, meu Deus!, como ele queria ter feito aquele disco! Era perfeito, era todo bonito, incluindo a capa, uma capa tão perfeita, com um aparelho de TV, uma cadeira de balanço e uma cadeirinha de criança num quintal... - simbolizava tudo o que ele queria dizer. Tudo. Estava ali toda a mentira.

Depois do disco de Cohen, aquele Randy Newman tinha acabado com ele. Ele se sentia tão angustiado que decidiu conversar novamente com Gertrude Stein - ela era uma boa conselheira, daquelas que respeitavam os limites e interesses dos artistas e sabia como lidar com eles; os interesses e os artistas.
Entrou na água-furtada de Stein e foi se atirando no sofá amarelo que ficava no canto, ao lado da pilha de discos. Estava prestes a chorar. Stein deixou que ele se acalmasse, foi buscar algo para beberem. Dylan esticou o braço e alcançou um disco; era o "Songs" de Cohen. Ele suspirou e ficou olhando por uns instantes a foto na capa, os olhos profundos e algo tristes do canadense. E, sem nenhum motivo, virou o álbum. Tomou um susto ao ver a contracapa, dando um pequeno grito. Seus olhos esbugalharam: contrastando com a capa sóbria estava um desenho colorido. Ali, Joana D´Arc era consumida pelas chamas. Talvez pudesse ser uma referência a uma canção sua, do "Blonde on Blonde". Mas ele achou que fosse mais que isso: mostrava uma conexão entre eles.

(Num flash, o cantor lembrou de uma história que ouviu há tempos sobre a estranha conexão entre Picasso e Modigliani, duas faces da mesma moeda, dois amigos-rivais, duas forças da natureza, dois dementes metidos no mundo sujo da arte onde as aparências valem mais que a verdade. Ou que a mentira poética.)
Dylan pulou do sofá segurando firme o álbum com as duas mãos, encarando o desenho da santa francesa. E começou a falar, falar sem parar, estabelecendo as mais estranhas linhas de ligação entre ele, o canadense, Joana e também externando sua frustração por não conseguir fazer nada parecido com o que Newman estava fazendo e...
Stein entrou na sala acompanhada da namorada, Alice B. Toklas, que balançou a cabeça:
- Eu já disse, Bob, você tem que saber que as coisas não giram ao seu redor.
Desesperado, Dylan gritou alto:
- Mas Alice, eu já disse que não sou um mitômano!
E saiu correndo com algumas idéias sobre o que faria quatro anos depois, em "Blood on The Tracks".
Cara de professor de filosofia alcoólatra, louco pra traçar a jovencita da terceira fila.
Tsc.
Vocês não viram a caricatura anterior. Tava parecendo um cara meio calvo e barbado, feio, de óculos que escreveu algum tipo sujo de livro pornográfico. Mas certamente não era eu.
Eu gosto muito do Galvão.
Tem um senhor aqui em Limeira, Durante Gullo, setenta e tantos anos, que sofre há mais de vinte anos de depressão profunda, não sai de casa pra nada. Sua única, ÚNICA, diversão - se é que podemos chamar assim - é ver e rever filmes velhos que ele tem em VHS. Ele não tem DVD, só o videocassete. E nem quer ter DVD, já que todo seu acervo é em VHS.
Tomei contato com ele há mais de cinco anos, quando mencionei um filme antigo em uma coluna de jornal... Ele ligou para o jornal e conseguiu meu telefone. Desde então ele me liga com alguma regularidade, pedindo para que eu arrume esse ou aquele filme para ele. Já consegui alguns.
Pois ele me ligou na semana passada IMPLORANDO por um filme: "A Canção Inesquecível, filme de Michael Curtiz, biografia disfarçada de Cole Porter. Não acho o filme para comprar em lugar nenhum, mas vai passar dia 17/02 no canal pago TCM. Se alguém tiver a TCM e puder gravar esse filme numa fita, bem, para o senhor Durante Gullo, ele mesmo me disse, não há dinheiro que possa pagar.
Quem puder fazer isso vai direto para o céu.
Eu me encarrego das despesas de postagem, etc...
Tem ainda mais dois filmes que o sr. Durante Gullo deseja assistir e não encontramos: o primeiro e original "Gunga Din" e "Aeroporto '77". Se alguém souber onde podemos conseguir, avise.
E também se puderem espalhar por aí, em posts, listas de e-mail, esse apelo, agradeço de coração. Pode parecer besteira, ou muito pouco, para quem não gosta de cinema. Mas acreditem, para Durante Gullo, ver esses filmes mais uma (ou algumas) vez(es) antes de morrer fará muita diferença.
Obrigado.
Rafael Galvão, conhecedor de cinema e provocador profissional, fez dois posts retomando uma antiga tese sua sobre a "autoria" no cinema. Segundo essa sua tese, não existe "cinema de autor" e talvez essa classificação só pudesse ser utilizada quando o diretor fosse, ao mesmo tempo, o roteirista e produtor do filme, acumulando funções que dariam a ele liberdades gerais e irrestristas. O Rafa é bom nos argumentos e, por isso, confunde os incautos - que entram de cabeça na discussão. Na verdade, a tal discussão não existe: o cinema de autor é mesmo aquele onde o diretor assume os riscos da produção de uma obra talvez pouco convencional. Algumas vezes ele banca isso do próprio bolso, em outras recebe o aval total do produtor por conta de um nome, estilo ou competência inquestionáveis. Em alguns casos mesmo o cineasta comercial consegue desenvolver uma obra autoral. Calma, cito exemplos na sequência.
Primeiro preciso dizer que não acho que Rafael não acredita na sua tese, é uma tese retórica que ele reforça evocando o confuso crítico francês Alexandre Astruc. Astruc fala da camera-stylo no sentido do desenvolvimento de uma arte audiovisual mais focada no visual, no manejo da câmera como um pincel que produz uma obra talvez cubista. A teoria de Astruc não está tão obsoleta assim quando pensamos em David Lynch e em alguns que seguem os seus passos.
Porém, é mas justo dizer simplesmente que o "cinema de autor" é tão somente aquele filme que mostra um trabalho criativo do diretor no contar da história, trabalho que se desenvolve para além do roteiro. Um diretor medíocre pode ocasionalmente fazer um filme de autor, um filme onde ele contribui para o contar da história mais que simplesmente fazendo a lição de casa de enquadrar bem os atores em cena ou ser competente numa sequência de ação. Temos diretores que, ao longo da carreira, vão desenvolvendo um estilo - podemos dizer "maneirismo" em alguns casos - e a simples aplicação desse estilo pode alterar sobremaneira a transposição do roteiro para a tela.
Agora os exemplos, para não mais gerar dúvidas quanto ao assunto:
- Woody Allen faz filmes de autor sem botar a mão no bolso - vem sempre bancado pelos produtores Jack Rollins e Charles H. Joffe que sabem que é melhor dar liberdade para Allen fazer o que quiser, já que ele mais acerta que erra. Sim, ele é o roteirista de seus filmes.
- Martin Scorsese às vezes escreve, às vezes produz, às vezes só faz a direção mas consegue ter uma obra autoral. Um dos motivos é o mesmo time de colaboradores, onde o destaque é a editora Thelma Schoonmaker - e quem conhece cinema sabe que cinema é montagem. Eles trabalham juntos e boa parte do "êxito autoral" da obra de Scorsese é de Thelma. (Já estou vendo o Rafa se coçar para dizer: bem, mais é a autoria é dela. Num caso como esse, estamos falando de um casamento, quandon dois trabalham procurando o mesmo objetivo)
- Steven Soderbergh é um grande diretor, um cara que gosta de experimentar, pisar em vários terrenos. Assim como DePalma, ele tenta fazer um filme pequeno e autoral intercalando com um filme de uma major - e ainda assim, apesar de fazer um "Onze Homens e um Segredo", faz "Full Frontal". Reza a lenda que é um dos poucos que conseguem, em contrato, dar a palavra final sobre o filme antes do lançamento.
- John Woo não escreve seus filmes, é contratado para fazer filmes de ação e bem os faz. Há quem chame sua mise-en-scene de maneirista e viciosa, mas eu acho que ele tem uma filosofia clara, mesmo quando injeta pombas brancas voando em câmera lenta. Ele é herdeiro de uma geração que teve Adrian Lyne, Alan Parker e Michael Mann. Sim, Adrian Lyne conseguiu fazer uma obra coesa - admire-se ou não - explorando o sexo e a fotografia publicitária oitentista. Alguns filmes de Alan Parker basta bater os olhos para reconhecer a autoria. Michael Mann melhora com o tempo, preocupado sempre com a paleta de cores para dizer um pouco mais do que está no roteiro.
É isso, esses caras querem dizer um pouco mais do que está no roteiro.
É assim quando Elia Kazan mostra, através dos enquadramentos, a confusão de Cal Trask (James Dean) em "East of Eden". Kazan não escrevia nem produzia seus filmes.

APDEITE:
- Antes que o Rafa escreva em algum lugar que eu transformei o "cineasta autoral" em "cineasta competente", resta dizer que ele (o cineasta) tem que agregar valores próprios (dele) ao roteiro que filma; tem que ter um projeto estético para a coisa. E o "estético" não está no roteiro.
Nasceu o Tomás, filha da minha irmã, Jennifer Aniston, quinta passada. Amanhã devo visitá-los, eles moram meio longe, em Itatiba. A família cresce, rapá. Olha só as criançada aí embaixo:
(Lia, Isabelle, meu sobrinho Théo e Dudu)
Povo lindo, vai dizer?
APDEITE:
Olha o Tomás aí na sua primeira fotinha:

(Minha coluna de terça-feira no TodoDia)
Sempre me interessei por filmes. A primeira parte do jornal que lia, com sete ou oito anos, era a sinopse dos filmes da TV. A maioria passava tarde da noite e não me era permitido assistir. Assim, ficava imaginando os filmes. De tanto ler essas sinopses, alguns nomes se tornaram familiares para mim, mesmo que nunca tivesse visto um filme de ou com qualquer um deles. Lembro de ter demorado anos para identificar visualmente James Cagney - mas sabia que ele participava de uns filmes bem interessantes.
Fui crescendo. Fiel frequentador da biblioteca pública de Americana, procurava os livros que falavam sobre cinema. Qualquer um me interessava, de livros ilustrados a teóricos de difícil compreensão para meu cérebro adolescente. E talvez ainda seja.
Do cinema passei para a música, via trilhas-sonoras. Gostava muito de trilhas, hoje desencanei. Mas nos meus vinte anos era mesmo obcecado e fiz até programa na Rádio Notícia FM com trilhas de filmes. Daí passei para a TV Americana (hoje Rede TodoDia), onde entrava no ar diariamente e ao vivo para dar dicas dos filmes lançados em vídeo. Eu não era muito bom, além de puro e besta.
Assim, posso dizer que vejo filmes, ér, "profissionalmente" há mais de 15 anos. E frequento locadoras há mais tempo. Também passei a dar cursos e workshops de cinema para a Secretaria de Estado da Cultura, além de palestras e cursos de extensão em faculdades. O conhecimento sobre cinema melhorou, mas uma coisa continua a mesma nesses mais de 16 anos: a deficiência do atendente de locadora.
Na semana passada fui convidado pela Rede Megamil - que abriu loja recentemente em Americana - para uma palestra para donos de locadoras. O evento aconteceu no Hotel Vitória, em Indaiatuba. Foi uma satisfação falar para vários proprietários de lojas; não sobre cinema em si, mas como cliente, frequentador de locadoras. O convite nasceu também por conta de uma coluna publicada aqui, onde eu criticava de maneira geral os atendentes em lojas que vendem artigos culturais.
E eu acho que o atendente de locadora é um agente cultural. Ele deve saber sobre filmes, deve conhecer o que vende, deve saber falar sobre tendências, além de ter ao menos as informações básicas sobre os arredores do assunto "cinema" para evitar falar bobagens. É uma profissão difícil e desvalorizada - e mesmo os donos de locadora, de maneira geral, não sabem como pode fazer diferença ter um atendente bem treinado. A questão econômica (preço baixo), o acervo da locadora, as instalações, tudo pode fazer vender (locar) mais filmes, mas nada supera a prestação de serviços de um atendente.
Disse na palestra e reitero: o atendente de locadora tem que ser um MÉDIUM entre o interesse do cliente e o acervo da locadora. Seguindo algumas constatações de estudos americanos sobre o mercado de aluguel de filmes, que apontam, por exemplo, que mais de 80% dos clientes entram em uma locadora sem saber o que vão alugar, a importância da interferência do atendente com conhecimento é crucial para a indicação e locação. No mundo perfeito os atendentes culturais teriam mais cultura que o cliente e saberiam mediar o interesse dele para que ele saísse do estabalecimento minimamente satisfeito. Não é o que geralmente acontece. Quantos filmes ruins você tem locado ultimamente? É tudo culpa do atendente.
- O número de comentários neste blog caiu, mas o número de e-mails que recebo de leitores aumentou - estranho fenômeno! Alguns leitores reclamam da utilização desse espaço para falar sobre meu livro - e creio que reclamam bem! Se eu fosse a um blog e lesse continuamente o cara falando sobre seu livro e o que as pessoas estão dizendo sobre ele e seu livro, bem, eu provavelmente deixaria de lê-lo. Ê, lerê! Assim sendo, neste blog só coisas realmente muito relevantes sobre "Sexo Anal". E o livro para baixar, aí do lado. O "compêndio" de tudo o que o livro gerou em seu um ano e meio de vida está agora no blog-de-um-só-post "Novela Marrom", que os senhores mui gentilmente podem fazer o grande favor de lincar e divulgar - desde já, agradeço. Gostaria muito que os mais amigos dessem uma olhada. O texto e escolha dos trechos citados é do jornalista e amigo Carlito Amaral, eu montei o blog, etcétera e tal.
- Falando em livro, tem livro novo do Branco Leone, com excelente campanha audiovisual, patrocinada pela "Os Vira Lata", e devidamente intubada - aqui, embédada:
- Falando sobre produção audiovisual de safra própria, Almirante Nelson encarna um Muhammad Ali rápido para chamar para o pau qualquer escritorzinho cuja obra seja um soco no estômbago do leitor. Não deixe de perder!
- Enquanto isso, Milton Ribeiro mostra a difícil vida dum bebum.
- Hehehe.
- O blog "Dois Discos" vai voltando devagar. Meu último texto é uma resenha reloaded do último disco do Morrissey, "Ringleader of the Tormentors". É uma das resenhas que eu mais gostei de fazer e vem bem a calhar, agora que o disco foi lançado no Brasil.
- O super Caco Ishak me fala sobre seu novo projeto com Carducho, o tocha-humana dos pampas, o site de venda de obras "supostamente de baixo nível", lowbrow, o "Baixo Calão". Ei, tem uns trabalhos super lá, vai dizer?
Vi sobre o blog de Paula Lee primeiro no Pedro Dória. A primeira impressão foi que era mais uma postituta a enveredar pelas letras. Antes de ler alguns posts, vi o nome do livro que ela dispõe gratuitamente no blog, um nome maravilhoso: "O Dobro ou a Metade".
Li um pouco o blog e vi que estava errado. E também acabei sabendo um pouco mais sobre Paula Lee.
Ela é brasileira e trabalha como prostituta em Portugal. Seu novo livro, mesmo antes de ser lançado, teve repercussão na mídia lusitana. Ela escreveu mais de 1.100 páginas que estão sendo buriladas sobre sua história, sobre suas dificuldades na profissão, sobre dificuldades de clientes (aqui entra algo de auto-ajuda) e até sobre tráfico de pessoas. Promete ser um livro polêmico e contundente, um pouco mais que simples histórinhas e fofocas sobre clientes.
Troquei alguns e-mails com Paula Lee e pude conhecer uma garota muito interessante e sensível, que acabou por ler meu livro e fez, entre ontem e hoje, dois posts bem legais. Se ainda não conhecem, eu a apresento.
(Links nesse post apenas para maiores de 18 anos)
Li o Francis desde sempre e quanto mais lia mais queria ler.
Não, ele não era coerente, muitas vezes não era justo, quase sempre cricri e debochado.
E, por tudo isso, eu o adorava. Era um cara de quem eu queria ficar amigo, tomar uns uísques.
Senti muito quando morreu, me lembro como se fosse hoje. E lá se vão 10 anos.
Tem alguma coisa dele no YouTube, veja essa:

(via Serjones Farias)
Aí, Gabi, sugestão pro seu novo gato.
:>)
(Matérinha minha que saiu hoje no TodoDia sobre a vizinha Olivia)
Era uma vez uma menininha que escrevia historinhas com coelhinhos e ursinhos. Muitas crianças começam a escrever logo cedo, dando asas à imaginação, colocando no papel tudo o que as suas desenfreadas e ingênuas cabecinhas imaginam. E as histórias quase sempre contam com bichos fofinhos. Mas as histórias escritas pela menininha Olivia Maia, aos sete ou oito anos, eram um pouco diferentes: os ursinhos panda eram serial killers e os coelhinhos andavam em becos escuros a procura de vítimas. A ainda pequena Olivia conta sobre o seu início como escritora tentando parecer veterana, mas não dá: ela tem apenas 21 anos e é, ao mesmo tempo, uma das mais jovens escritoras brasileiras lançadas por uma grande e tradicional editora e uma grande promessa. “Foi tudo de repente. Escrevi um livro, depois outro, até que esse terceiro caiu nas mãos da (editora) Brasiliense e acabou publicado. A repercussão não poderia ser melhor.”
A repercussão do livro se deve especialmente a dois fatores: a excelência da escrita da garota e ao conteúdo forte e violento. E não tem como dissociar o conteúdo da imagem doce de menina tímida de Olivia Maia - que mais parece uma heroína de Woody Allen que não sabe bem o que quer e tropeça nos cadarços. O livro, este publicado e violento, tem o título de “Desumano”. “A história nasceu como um conto e decidi que podia resultar num romance. Basicamente temos um garoto que encontra a mãe morta e acaba perseguido pela polícia. Ele tenta provar sua inocência e conta com a ajuda de uma garota”, sintetiza a escritora, em visita recente ao TodoDia. E sintetiza bem, já que mais não se pode falar sobre o livro sem revelar detalhes que poderiam estragar surpresas.

“Sempre gostei de mistério, do crime, das agruras humanas... Desde criancinha.”, diz sorrindo, semicerrando os olhos por trás dos óculos de aros grossos. Mas só agora parece ter conseguido alinhavar seus interesses com uma boa história e uma narrativa satisfatória. Talvez além, já que o livro flui lindamente. “Reescrevi muito, só apresentei o livro quando estava satisfeita com a prosa”, afirma ela, estudante do Curso de Letras da USP (Universidade de São Paulo).
“Desumano” pode ser encontrado e encomendado nas livrarias. Apesar de ser classificado como “policial” e “violento”, o livro de Olivia Maia não tem um só tiro, nem agentes policiais. Não tem muitos personagens. Não tem prosa rebuscada. Não tem elipses. Mas tem muitas surpresas. E é diversão garantida.
O Alex fez um ótimo post falando sobre, bem, sobre isso de escrever e não ser publicado e colocar o livro para download gratuito ou vender o .pdf, como ele está fazendo com "Onde Perdemos Tudo", seu livro de contos.
Tanto Alex como eu devemos ser muito ruins de marketing pessoal. Não conseguimos despertar o interesse das editoras por nossos livros. "Mulher de um Homem Só", o romance do Alex, foi baixado mais de 30.000 vezes - marca de best-seller no Brasil. Meu "Sexo Anal - Uma Novela Marrom" superou os 4.000 downloads em pouco mais de 2 meses e ganha resenhas favoráveis quase semanalmente na internet. Na terça feira, CR Quint escreveu:
"[Sexo Anal] é um romance nu e cru, um ótimo entretenimento e um dos melhores livros que já li."
Ainda ontem o jovem e puritano Edward Bloom escreveu sobre ele. Não creio que outro livro de autor estreante tenha mais que 30 resenhas na rede, como é o caso de "Sexo Anal". Veja os links para as resenhas aí do lado. E ali você também pode baixar o livro.
Ed Bloom tece algumas críticas ao livro, a maioria por se deixar perturbar por algumas cenas, mas olha o que ele escreveu:
"...tenho certeza que quando o Biajoni levantar a calcinha de suas frases, será um dos melhores escritores de seu tempo."
Ei, eu não sou amigo de CR Quint ou de Ed Bloom, nem os conheço.
A pergunta é: por que as editoras simplesmente cagam para nós?
O que faço com os dois romances que tenho na gaveta e a continuação de "Sexo Anal", que está quase pronta?
Mesmo não tendo livros em papel, lançados por alguma editora, eu e Alex somos, ér, escritores?