O jornal impresso deixou de ser o que era há muito tempo. A urgência das notícias deu lugar à matérias que tentam contextualizar mais as informações e o colunismo assumiu seu lugar de força analítica que antes era do editorial. O jornal impresso virou um amontoado de editoriais pelos quais o jornal não se responsabiliza. É uma boa maneira de tirar o cu da reta.
O colunista de jornal deve ter, assim, alguma liberdade. O Millôr diz que não existe "alguma" liberdade, já que "alguma" censura já é censura suficiente. A maior qualidade que um colunista de jornal deve ter é o bom-senso. Bom-senso de, digamos, falar sobre a prática de trocar presentes no Natal quando a coluna sair ali por volta do dia 25 de Dezembro. Bom-senso de encaixar em algum lugar do texto a palavra "retrospectiva" quando o final do ano estiver próximo. Bom-senso de investigar os primórdios da tradicional brincadeira do "amigo oculto" para escrever um texto informativo e que vai servir para impressionar familiares reunidos diante da árvore de Natal antes da ceia. Bom-senso é lugar comum, amigos. E o jornalismo, de maneira ampla, geral e irrestrita, vive disso. O (pouco) resto é recheio.
É tudo isso que eu vi nas colunas dos grandes jornais nesse mês de Dezembro. E foi algo mais ou menos assim que tentei fazer em minha coluna do dia 26 de dezembro do jornal TodoDia, publicada aqui no blog. A coluna não saiu naquela ocasião, era pra sair hoje e também não saiu e eu acho que sei porquê.
Escrevo para jornais tem 10 anos. Trabalho com comunicação, essencialmente televisão, há 16 anos. E escrevo para a internet há, bem, desde Fevereiro de 2001. Cada mídia é diferente de outra, e eu tenho uma visão pessoal sobre elas.
A internet é um território restrito em expansão. Quando montei o site Tiro&Queda em Limeira, reunindo amigos, jornalistas, escritores, assustei com o número de acessos, com a repercussão da coisa. O site entrou em uma monografia sobre a história da imprensa limeirense por conta da influência que ele teve em, digamos, toda uma geração. Colaboradores do site hoje tocam blogs que dão o tom da discussão política na cidade, trabalham em jornais, emissoras de TV, rádios, fazem assessoria de imprensa... A experiência serviu para mim pois mostrou que a internet proporciona um feedback mais rápido e instantâneo - através de comentários em textos e e-mails - e o texto PERMANECE. O calor do momento já me fez publicar coisas das quais me arrependo, coisas com muitos erros crasos, principalmente de português - eu, que odeio revisão.
E desde então, na fase já final do Tiro&Queda, tenho tido algum cuidado com as coisas que publico na internet. O contato com o leitor é muito grande, quase físico.
Essa amarra eu já não tenho com as colunas de jornais. Ao contrário: a coluna de jornal tem que ter algo que reacionária - no sentido de provocar uma reação. Na internet você se mostra, peito aberto, algumas vezes analisando algo profundamente, outras fazendo uma piada interna. No jornal você tem que pegar um assunto, um tema, um fato, e torcê-lo, revirá-lo, causar algo no leitor. Os colunistas de quem eu gosto, com os quais me identifico, fazem assim. Começam a falar de A, passam para Z e chegam a B, metendo uma dúvida na sua cabeça, fazendo você pensar qual seria o resultante C.
Isso não é fácil, mas tem algumas colunas de jornal que me dão satisfação, especialmente as que escrevi para o Jornal de Limeira em 1998. Para provocar, chamar a atenção, fazer o leitor acompanhar o raciocínio e aceitar ou negar o argumento, o colunista tem algumas artimanhas. Lembro de uma história - que cito de cabeça, apenas para ilustrar - que entre todos os grandes colunistas de um grande jornal, um era o "mais lido". Não me lembro se era Fernando Sabino ou Paulo Mendes Campos... Quando perguntaram à ele qual o seu "truque" ele explicou que sempre dava um jeito de colocar uma letra "X" na chamada da coluna e mais alguma no início do texto. Segundo ele, a letra "X" chamava a atenção do leitor que associava o texto a "seXo". Lenda ou não, taí uma história sobre um "método" chamativo. Temos também o Diogo Mainardi, esse sim reacionário no pior sentido do termo.
Resumindo; na internet não temos a necessidade de provocar nada, já que as pessoas que estão por ali te lendo já te conhecem, vem por um link, tem uma outra postura. No jornal você é um desconhecido que tem a chancela do jornal e um susto, uma poesia fora do lugar, uma frase de efeito, vem sempre a calhar.
Nesse contexto, o título da coluna é importante. Tento ser o mais sucinto possível, para que o leitor bata o olho e saiba do que se trata. Não quero que enganá-lo ou fazer com que perca seu tempo. Assim, se falo sobre livros boto como título, "Livros". E às vezes tento alguma gracinha com títulos chamativos como foi o caso da última coluna, não publicada pela segunda semana consecutiva, "Deus Está Velho".
No caso desta coluna, minha defesa para o título está no próprio texto. A revista Time já estampou na capa um "Deus Está Morto" - por quê o TodoDia não podia publicar uma coluna com "Deus Está Velho"? Afinal, é melhor estar velho que morto, vai dizer?
Mas o texto, de maneira geral, não trata da velhice de Deus; essa é apenas uma isca. O texto fala da hipocrisia geral de quem se esconde atrás de religiões, posando de santo(a) para o público mas quando o dinheiro fala, não consegue esconder a verdadeira natureza. No caso específico da Gretchen, o texto não condena sua ação, só vê como hipocritamente perigosa a sua, digamos, "escapada", na frase "só Deus pode me julgar". Se assim for, tudo é permitido; até matar, roubar ou cometer qualquer sórdido ato. Falando em hipocrisia e em "posar de santo" e em religiões de maneira geral, o texto se liga à essa época de final de ano, quando os casais se abraçam e beijam os filhos e dizem que o amor é mais importante e oram de mãos dadas. Hipocrisia ruleia.
Tanto para a internet quanto para os jornais, o processo de escrita tem criação. Diferente do meu trabalho em TV que se divide em duas frentes: no texto para TV é só seguir algumas regras, o texto tem que ter um casamento com imagens e isso o restringe. Outra frente do trabalho para TV é o programa de entrevistas, quando temos uma pauta inicial, mas a entrevista constrói o clima. Às vezes a entrevista é feliz, às vezes sai muita merda. A volatibilidade da TV permite o deslize ao vivo e suporta o texto incoerente gravado e editado. Inclusive, já fiz o teste: inverti offs e entrevistas numa matéria e passei para algumas pessoas. Elas balançaram a cabeça e acharam que a matéria estava OK.
Nunca trabalhei numa redação de jornal, mas acredito que o princípio que leva ao convite de um colunista é que ele tenha o bom-senso, sim, mas que também tenha apelo para ser lido. Quase qualquer apelo serve. Não gostaria de comandar um jornal recheado de colunistas insípidos que pesquisam coisinhas na internet para depois compilar um texto recortado que mais caberia num trabalho escolar de quinta série. É só ali, numa coluna de jornal, quando o próprio veículo se desvincula do argumento, que cabe o choque, o argumento elíptico, algum umbiguismo. Se o texto da Gretchen não cumpriu seu objetivo para o jornal, eu falhei. No próximo eu conto a história do Papai Noel Azul da Escandinávia.

Já que você comentou sobre o T&Q, aproveito rpa te contar que recebi neste último mês do anod e 2006 3 e-mails comentando diferentes textos meus de lá. 0.0 (coisa que não era nem um pouco esperada depois de tanto tempo de publicação)
bela reflexão sr. biajoni, é verdade mesmo, acho que no jornal a gente precisa ser mais incisivo. até porque na internet a pessoa já toma "choques" o tempo todo, com anúncios piscando e rodando na tela... ah, agora sempre que escrever vou botar meu nome em negrito, assim já tem o X logo no começo.... ehehehe
abraço
Uma verdadeira aula.
Beijos
É...mal gosto ou caretice?
Não sei pq me lembrei de uma vez q vc falou a seguinte frase: se fosse bonita, tava namorando! Eu hein...pq fui me lembrar disso!!!!
Adorei o texto, como todos, delicioso!
beijao
É que Narciso acha feio o que não é espelho...
ou talvez tenha sido o contrário, seu texto refletiu a hipocrisia presente na imprensa brasileira, como em todas as camadas da sociedade...e aí é que acharam feio DE FATO.
O povo vive de abstração.
Fique sabendo que, como uma colega de profissão e amiga pessoal, achei aquele texto um dos mais inspirados que escreveste.
Beijocas e feliz 2007
Eu acho que sim. Mas também acho que não. Quer dizer, as coisas se alternam. Ou seja, eu concordo com voce, mas não com tudo, contudo, quase tudo. ãhh...
Feliz ano novo.
foi uma aula! aliás, na relação título e texto, vc escolheu bem o título do seu livro! Nâo dá pra não ler!