filmes com fadas

(Minha última coluna no TodoDia)

Minha filha Isabelle em férias em casa e peguei na locadora o "A Dama na Água", último filme de M. Night Shyamalan. Somos, eu e ela, grandes fãs do diretor indo-americano. A criticalha toda caiu de pau, mas nós gostamos. Eu gostei muito: um zelador de um condomínio, um homem amargo e sem esperanças, dono de uma vidinha insossa, tem contato com uma "narf", uma espécie de "fada das águas". Ela precisa da ajuda dele e ele mobiliza os moradores do condomínio para que a fadinha consiga ser levada por uma grande águia antes de ser comida por um lobo com grama no lugar de pêlos. Enredo bobinho? Filme para crianças? Um pouco mais que isso: Shyamalan não é nenhum inocente, veja o que ele costuma fazer em seus filmes. Veja especialmente os últimos dois: "Sinais" e "A Vila". Se você observar a filmografia do cara vai sacar que "A Dama na Água" encerra ua trilogia que eu vou chamar de "Elementos Estranhos para a Manutenção do Status Quo" - EEMISQ. Mas esse Biajoni está metido demais, meu Deus!

Mas é isso: em "Sinais" temos uma família em frangalhos depois de um acidente que matou a mãe - e é preciso que naves alienígenas desçam no planeta para que cada membro da família reconheça suas qualidades e seus valores e voltem a ser uma, ér, família. Em "A Vila", a própria sociedade cria monstros que servem para a manutenção da ordem num pequeno vilarejo. Em "A Dama da Água", o drama da fada vai fazer com que cada indivíduo, cada condômino, pense sobre a sua missão na sociedade - e aprenda a agir em conjunto para o bem-comum. É tudo muito mais que isso, no fim, mas não há espaço para tudo aqui. E também quero falar de outro filme, contraponto total à "Dama na Água".

dama.jpg lab.jpg

Vi "O Labirinto do Fauno", novo filme de Guillermo del Toro, também com Isabelle no Cine Paradiso, pequeno reduto de filmes de arte em Campinas. Ufa, saí da sala arrebentado. É um dos filmes mais tristes, cruéis, violentos e angustiantes que já vi. Mas não deixa de ser "belo"; adjetivo mais usado pelos jornalistas quando escrevem sobre ele. Del Toro trabalha com contrapontos e descarta metáforas. A violência é explícita e, até o meio do filme, achei exagerada. Depois achei que não: toda mutilação, tiro, sangue, tortura, clima de terror, servem para fazer pesar o lado da realidade na balança da vida de Ofélia. Ofélia é a pequena garota que gosta de livros e conversa com fadas, faunos e ferozes monstros. É o mundo onde ela se refugia, já que o pai alfaiate morreu e a mãe engravidou de um cruel capitão espanhol que mata sem dó os camponeses rebeldes que se escondem na montanha e arquitetam uma revolução contra o regime fascista de Franco. A gravidez da mãe é complicada e o futuro parece cada vez mais sombrio.

A menina Ofélia está deslocada, num mundo de personagens deslocados. Até em sua fantasia, os personagens parecem deslocados. E a crueldade permeia tudo. Não é um conto de fadas, nem para crianças nem para adultos. É um filme duro, para quem tem estômago forte e nervos de aço; para pessoas que cresceram assistindo a filmes hollywoodianos cheios de explosões. Depois dessa porrada de Del Toro talvez essas pessoas fiquem mais sensíveis.

4 Comments

Eu gostei dos dois filmes.
O labirinto do Fauno é mais heavy
a Dama da Agua é mais relax
mais os dois são muito bons ;D

Li a coluna no Todo Dia!

;*

Me despertou a curiosidade, ha e Bia vc ja assistiu Hair? o que achou?

boa, hermê.
:>)

Que decadência, hein Biajones?

Em outros tempos esperaria aqui um texto sobre "filmes com fodas".

Você está virando um velhote molengão. :)

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em janeiro 23, 2007 10:43 AM.

lulu fala de sexo anal é a postagem anterior.

o oscar num post relaxado é a próxima postagem.

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