a velha e boa baba das resoluções [ou] a fome, sim, a fome é o que nos move - e o bauru com cebola do camargo ainda é um dos melhores de americana!

Os amigos (muy amigos) Adriano, (vulgo Hemenauta) e Mauro Amaral (vulgo Aeroporto de Mosquito), simultaneamente e ao mesmo tempo, convidaram-me para uma meme (que é uma corrente - é a "même chose", por isso o nome "meme"). É engraçado, nenhum dos dois nunca me convidaram pruma pizza com cerveja.

Ai, ai.

De qualquer maneira, ao ler as resoluções para 2007 deles e de outros amigos, pensei: "Ei, hoje está um belo dia para beber uma Bohemia e não pensar em coisa nenhuma". Foi o que eu fiz.

Porém, passado um dia, na noite do dia seguinte, saí com Isabelle (14 anos), Dudu (9 anos) e minha prima preferida, a cineasta mirim Livia (9 anos), para uma disputadíssima e suadoura partida de boliche. Eu venci, como é de praxe. Chegamos todos agora em casa, eu ainda a gozar com as crianças por terem perdido de mim. Tomei um banho, Karen dorme com Lia, bem, também vou dormir, mas... Sim, sim, tudo está bem para mim: eu sou o grande campeão do boliche; eu escrevi um livro que - ei! - não é tão ruim assim; tenho uma grande alcatéia de filhos, Lia está com otite e ainda assim come com uma disposição anticapitalista; já plantei algumas mudas de árvores, reguei, cuidei embora admita que tenha usado algumas para fazer a casinha do meu saudoso Nicolau Sevcenko.

A propósito, Nicolau é meu cão, um boxer negro, apaixonado pela Jade e pelo Chet Baker. Jade é uma cadela - no melhor dos sentidos - que mora na rua de cima.

Mas Nicolau passa um período na empresa de minha irmã. Não haveria espaço em casa para duas feras: ele e Lia.

Nessa semana que passou, vi que o prefeito de Aparecida (vulgo Zé Louquinho), proibiu enchentes na cidade. Não, ele não fez nada de infra para evitar enchentes, simplesmente as proibiu. Achei interessante que talvez pudéssemos ter um poder de canetar coisas assim. Deus deu ao homem o poder de nominar as coisas, mas não de agir diretamente sobre elas - a não ser no sentido de extinguir os seres. Alguns. Os carrapatos não dá, por exemplo. Deus é burro: tivesse nos dado o poder de canetar leis que regissem (uia!) esse nosso Universo - afinal, ele não o fez para nós? - talvez tivéssemos desenvolvido um maior grau de responsabilidade através dos tempos sobre o meio-ambiente ou sobre o ambiente inteiro - já que nunca entendi direito esse negócio de "meio".

Ou não - como costuma dizer, de maneira contraditória mas sempre co-producente, nosso Ministro Fica Gi, pai da Feia Gil.

Bom, eu queria canetar umas coisas. Tipo: meu filhos nunca mais ficam doentes. Ou: minha mulher vai sempre parecer muito mais jovem que eu. Ou: morram todos os que discordam de mim.

Coisas bobas assim.

Ainda nesse final de semana li a coluna do Jorge Coli no Caderno Mais da Folha. Eu adoro o Coli. Até quando arrota cultura ele é legal. No Domingo, falou de Champfleury, um contemporâneo de Balzac (falei que li a bio de Balzac pelo Paulo Rónai e gostei muito? Pô, o Balzac fazia o que eu gosto de fazer: contar histórias reais e contemporâneas. Aliás, ele só é famoso porque contou histórias contemporâneas da sua época e hoje são consideradas registros históricos daquela época e nada têm de contemporâneas). Bom, Champfleury era considerado o GRANDE INTELECTUAL por Wagner, Manet, Rodin. O cara estava podendo.

Pois a coluna do Coli resgatou um texto de Champfleury, prefácio do seu "Grandes Figuras de Ontem e de Hoje". O texto, lista conselhos a si mesmo. Servem como resoluções e aqui estão, devidademente copiados para os mui amados leitores deste blog:

1 - Nunca faça concessões a ninguém.
2 - Pense o que você escreve e escreva o que você pensa.
3 - Se você quer enriquecer, jogue fora sua pena.
4 - Se você teme ferir a sociedade, jogue fora sua pena.
5 - Se você quer agradar a toda gente, jogue fora a sua pena.
6 - Se você quer, aos 30 anos de idade, chegar à honra, à fortuna, à tranqüilidade, jogue fora a sua pena.
7 - Se o amor ao jogo, ao vinho, às mulheres é, em você, mais forte do que a arte, jogue fora a sua pena.
8 - Não se submeta às leis da sociedade e não tema viver sozinho, com seu pensamento diante de si, com seu pensamento como companheiro, com seu pensamento como namorada.
9 - Obrigue-se a ser pobre. Se você é rico, gaste logo o seu dinheiro para pedir sustento às letras.
10 - Com 20 anos todos somos ricos, o dinheiro virá mais tarde.
11 - Nunca escreva uma só linha por complacência com quem quer que seja; de complacência em complacência, você se tornará apenas um empregado doméstico.
12 - Não espere uma popularidade súbita; só os medíocres conseguem o sucesso na primeira tentativa.
13 - Pense muito no futuro, pouco no passado e esqueça o presente.
14 - Não se gaste com polêmicas frívolas. As polêmicas não fazem bons volumes.
15 - Negam sua obra; sua obra responde por você.
16 - Você foi negado, logo, você existe.
17 - De 18 a 25 anos permito-lhe todas as paixões; para pintar o amor é preciso ser amado. Você ainda não é homem e não sabe o que vai se tornar; mas tome cuidado para que as paixões não grudem em você por toda vida.
18 - Se precisar de um amigo dedicado, sempre alegre, sempre disposto a acompanhar-lhe em longas caminhadas, pegue um cachorro.
19 - Você deve julgar tudo por você mesmo. Por seus olhos e seus ouvidos. Nunca decida nada pelos olhos de outro e pelos ouvidos de seu vizinho.

Depois de digitar, já um pouco alto pela terceira Bohemia, penso nesses "auto-conselhos" do Champfleury e - acho que digo bem! - estou pronto para as minhas resoluções:

1 - Jogar fora a minha pena.
2 - Gastar menos dinheiro com futilidades.
3 - Pegar frilas; guardar dinheiro como nunca guardei.
4 - Tentar ser o mais medíocre possível para conseguir a popularidade súbita.
5 - Pensar mais no futuro.
6 - Deixar o Nicolau mais um tempo com minha irmã.
7 - Ouvir mais os meus vizinhos - pelo menos os vizinhos de frente, já que o vizinho de fundos foi preso recentemente por latrocínio.

Ai, ai.

Eu vou me esforçar para fazer tudo o CONTRÁRIO de Champfleury. Afinal, algum de vocês alguma vez sequer ouviu falar nesse Champfleury?

Eu posso até gostar do Coli, mas se imortalidade for aparecer numa coluna do Coli no futuro, eu prefiro um presente um pouco mais suado e farto.

Falando em farto, fiquei hoje o dia todo sem comer. Não deu pra tomar café, saí correndo. Depois atrasei o almoço e, quando vi, já eram duas e meia da tarde. Saí às seis, fui pra casa, peguei Isabelle e Dudu e fomos comer um lanche. Eu disse:

- Quando a gente fica o dia inteiro sem comer, parece que podemos comer um elefante inteiro. Mas quando chega a comida basta um pouco e já estamos saciados.

Minha filha:

- É verdade. É por isso que eu não passo uma hora sequer sem comer muito. Assim não dá pra sentir fome.

É desse pensamento pragmático infanto-juvenil que eu sinto falta.

16 Comments

A nobre sabedoria infanto-juvenil...é tudo.
Se for para ser lembrado dessa forma aí do tal Champnãoseidasquantas, você já fez o suficiente, fica tranquilo. Quando vier a VR, faça contato que podemos tomar umas também. Abraços.

Uau, então eu sou uma espécie de semi-champfleuryano.

Bon jour.
A parte que você fala algo como "não queria que ela fosse sincera, queria que ela fosse fiel" é demais. Estou imprimindo-o aos poucos. Ontem lí até a pag. 30. Hoje leio mais. Ótimo, ótimo!

E, ah, obrigado pelo link aí.

Rapaz, comecei a ler teu livro aqui. Mandei - lógico - um trecho para minha noiva, ao que ela respondeu "uau". Hhaha. Quando eu terminar a leitura, escrevo um post, okay?

Uia!

E eu que sigo à risca as recomendações de Champfleury sem saber!

O pensamento pragmático infanto-juvenil é a verdadeira sabedoria...por isso as adoro.

Comer, beber, viver.

That's it.

Beijos e manda beijo pra Belle (PS: QUANDO VAI TRAZÊ-LA PRA ME VER?)

Se escrever tal livro, avise-me. A propósito, onde encontro "Sexo Anal" aqui em BH?

hEY. Gosto muito disso aqui.

2 - Gastar menos dinheiro com futilidades.
3 - Pegar frilas; guardar dinheiro como nunca guardei.

Ando em dedicando com TANTO afinco à isso e a um tal de bater cartão que me esqueço que tenho vida, amigos e blogs bons pra ler. hahahaha

Feliz Ano Novo, Bia!

Cacete, vai faltar penas para mim !!!
Abraços Bia !!!

"Adriano"? Pra mim o nome do Hermenauta era Smart Shade of Blue.

Ai Bia, não sei de onde você tira tanta inspiração...Temos realmente mil coisas para nos preocuparmos, e ainda assim, você consegue ser tão light, tão zen...você é realmente especial, te amo muito, muito, muito...ah, vc sabe, sou sua fã número um!

Já estava com saudade desses textos viajantes, Bia.

mermão, quando li "saudoso Nicolau Sevcenko", pensava que o historiador tinha morrido. ainda bem que é só o nome do teu cachorro. aliás, não há dúvida que tu é a única pessoa que tem um cachorro chamado Nicolau Sevcenko e um amigo apelidado de Aeroporto de Mosquito. este deve ser um arraso.

Lindo texto!!!

Vou tentar ser medíocre, sem jogar fora minha pena nem meu cachorro... não deve ser difícil...

Rá! o segredo de seu sucesso é sempre escrever meio bêbado. Descobri. :)

Ei, o dia em que você vier a Brasília já estarás automaticamente convidado a uma pizza e alguns chopps. Abçs!

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em janeiro 9, 2007 1:39 AM.

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