divagando sobre a memória

(Coluna de hoje do TodoDia)

Não sei quem foi que disse, e minha memória anda cada vez pior, que a lembrança de uma dor pode trazer uma fração de aflição e nada mais que isso, mas a lembrança de um momento de alegria pode nos encher o peito de felicidade plena e fazer com que o dia, a semana ou o mês se transforme. A dor é momentânea, mas a felicidade é eterna; fica sempre conosco. E não há motivo para sentir vergonha ou tentar minimizar uma alegria genuína que ficou no passado. Muitos dizem: "eu era um tonto, correndo atrás da bola no campinho de areia, esfolando meus joelhos" - e tentam mascarar com a amargura da idade séria um autêntico momento de felicidade. Como se a negação daquela felicidade tornasse aquele que lembra um pouco menos homem. Como se o resgate de um sentimento infantil ou infanto-juvenil, como é o caso, tornasse o homem mais infantil; infantilóide. Mesmo as alegrias de um momento não tão distante assim, como de um amor do passado, pode nos trazer sensações boas e não devemos apagá-las de nossas mentes em detrimento de um novo amor. Seu amor é inesgotável, ele não é transferível. Amamos hoje e amamos amanhã e um momento de amor incrível que nos encheu de emoção pode continuar vivo em nosso coração independente de um tão fantástico e lindo amor atual. O amor não é temporal; assim como a alegria é rememorativa e a dor, esquecível. Isso faz parte da beleza da vida e está no cerne de um "bem-viver", acredito. Você é você, o outro é o outro; a convivência harmoniosa está intimamente relacionada com o respeito que ambos devem ter - inclusive pela memória afetiva e sentimental de cada um. Pessoas muitas vezes têm ciúmes da memória do outro e isso é terrível. As religiões primitivas falam desse ciúme, desse medo que muita gente tem de perder o companheiro, o amor, o amigo, para algum tipo de lembrança. Isso é encontrado no vodu, no "espiritualismo de influência", onde, muitas vezes, um praticante pede a morte de alguém por acreditar que uma terceira pessoa vai parar definitivamente de "pensar" na outra se ela morrer. Não há ato físico que apague qualquer memória. Não há queima de fotos que apague uma sensação. E cada pessoa é um universo pois cada um sente a si mesmo e, para si, é tudo. Se você fechar os olhos e se concentrar vai lembrar de um cheiro e vai senti-lo novamente, assim como um gosto, um toque, um instante. E você, ó mito, é o resultado exuberante dessa memória, união indivisível do que foi, soma de tudo de bom e ruim, segredos e mentiras, atos e omissões, felicidade e tristeza, fantasia e dura realidade. A vantagem, ó ser que chega ao fim de mais um ciclo, no topo da onda de mais um ano que se encerra, a vantagem em seu favor, ó pessoa tão séria e tão dura e que vê tanta maldade em tudo e que quer sempre se dar bem e ganhar sempre muito dinheiro e se esforça em esquecer de qualquer coisa que seja que tenha ficado no passado e que se preocupa apenas e tão somente com as coisas do seu dia e com o indefectível dia de amanhã onde sua posição social e suas posses devem ser sempre ampliadas, ó ser que vive sempre o estado pragmático de maneira inóspita, tua vantagem é que as lembranças, caso queira pesquisar em tua caixa craniana, a vantagem é que tua memória sempre te dará satisfação se pensares nas coisas alegres e frescas e saborosas da tua existência. Então pensas, ó você que agora me lê, que se tiveres um dia de alegria hoje ele poderá ser lembrado com satisfação amanhã, enquanto um dia cinza e triste e besta ficará enterrado no passado das coisas que são mais facilmente esquecíveis. Não é melhor assim? E não é melhor também que as pessoas que você ama tenha dias e memórias sempre lindas e floridas e frescas e sa-bo-ro-sas? Então, faça essa resolução de fim de ano: transforma teus dias de dois mil e sete em ao menos cinco alegrias diárias que resultarão em duas mil e sete alegrias ao final do ano, todas perfeitamente lembráveis. Isso é, se é que eu fiz a conta certa, já que eu sou completamente péssimo e inútil em matemática.

8 Comments

Hoje o Contardo Calligaris disse na Folha algo na mesma linha. Acho que a falta de sentido na macrointerpretação da vida não precisa inviabilizar o sentido das pequenas alegrias, que na verdade, são as maiores. Como naquela história em que o bolinho de Proust remete a sensações deliciosas, intensas. E simples.

Bia,

Bunitu isso...
só fiquei com meda na parte do vodu! cruzi!

Falando sério, às vezes qdo tu achas que tá tudo errado, quando tu estás todo ixteporado (expressão pexêra aqui de Itajaí, SC), aí é só pensar num momento bom, bom mesmo, daqueles que só se passa com os amigos, alegria plena de estar vivo, aí vc pensa que dá pra aguentar as aporrinhações da vida mais um pouquinho...

Abs

Tenho orgulho dos momentos felizes que vivi, muitos ao lado de amores que nunca mais tive notícias. Isso me conforta, em forma de lembranças fragmentadas, quando a tristeza tenta me seduzir em certas tardes tediosas. Se buscamos felicidade hoje, é para adicionarmos mais boas lembranças a serem usadas no futuro. Quase como uma droga ao nosso dispor, que nos acalma.

Segundo Santo Agostinho, não esquecemos do que não podemos nos lembrar! beijão

Faltou dizer que tudo isso é para fazermos um mundo melhor

Confesso que sou nostálgico e freqüentamente recorro ao passado para buscar compreensão e prazer. Às vezes lembro de fatos ruins e nesse ponto não concordo quando vc diz que a alegria é duradoura. Nem sempre. As lembranças duram de acordo com o significado que determinado fato teve para a pessoa. Seja ele alegre ou triste.
abração

Oi Xuxu...
Vortemoooo...
Bão trabaio...

Bjo

É isso aí!
Eu acho que a tristeza é bela, mas vivo feliz.
Uma frase que ouvi de um amigo e nunca mais esquecerei:
"Não adie uma alegria!"

Grande abraço.

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em dezembro 12, 2006 9:43 AM.

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