atendentes

(Minha coluna de hoje no TodoDia)

Uma vez eu entrei num sebo em Piracicaba e um homem de cabelos brancos e fala mansa veio me atender. Perguntei por alguns autores e ele conhecia a todos. Andou pelas prateleiras, encontrou alguns livros que me interessavam e indicou outros. Falou sobre alguns escritores que eu não conhecia e acabei comprando mais do que tinha programado. Aquele senhor faz parte de um tipo de vendedor que está em extinção; o vendedor de produtos culturais que conhece o que vende. No início do advento das grandes livrarias em shoppings, como a Livraria Saraiva do Iguatemi, existia ainda uma certa preocupação com o atendimento, os vendedores passavam por algum treinamento, participavam de um teste antes da contratação. Hoje, deusulivre! Tente perguntar qualquer coisa para atendentes (são chamados assim agora) de livrarias em rede. Talvez mandem você procurar "O Jogo da Amarelinha", de Júlio Cortázar, na seção de infantis. Uma lástima.

Se esse tipo de crise acontece com os livros, com a música é muito pior e vários casos já foram relatados nesse jornal pelo colunista Gustavo Brigatti. A lógica pernóstica que comanda as lojas de música é que "o povo nunca compra nada novo, só o que já ouviu no rádio ou que está sendo muito comentado pela mídia" - o que dá no mesmo. Você entra numa das poucas lojas exclusivas para discos (hoje chamado minimalmente de CDs) e vê sempre as mesmas capas, pode adivinhar a sequência da fileira. Quando há algo mais, como em lojas como a FNac, vemos o mesmo problema que acontece com os livros: "atendentes" que mal sabem utilizar o sistema interno de pesquisa via computadores ou a internet. Eu perguntei para uma garota de uma dessas lojas uma vez se tinham o novo disco da PJ Harvey. Bom, ela tentou "DJ Rarvei" e todo um espectro de alternativas, mas era óbvio que ela não conhecia a cantora e compositora inglesa. Não deveria?

Cinema já é um negócio ainda mais complicado. Com o advento dos DVDs o preço dos filmes ficou mais baixo e podemos encontrá-los em qualquer lugar, de banca de jornais a grandes magazines. Aí vai de você ter mesmo muita sorte de encontrar aquele filme bacana que você gosta de rever várias vezes a um preço camaradinha. O problema com os filmes está nas locadoras, onde novamente os "atendentes" geralmente são fracos e desestimulantes. Geralmente não só não conhecem cinema como acham que o gosto individual de cada um é o dominante; e orienta os consumidores assim. "Ah, você vai levar esse filme? Nossa! Mas é paradíssimo! Você não prefere o novo do Bruce Willis?". Um saco.

No meio disso tudo temos as Lojas Americanas. Ah, as Lojas Americanas. Um misto de céu e inferno para o camarada interessado em comprar produtos culturais. Nas Americanas temos bancas totalmente reviradas onde chocam-se "O Ladrão de Bicicletas" e "O Samurai Negro" com uma naturalidade impressionante. Ali achamos discos raros da Elis Regina por R$ 9,90 ao lado do "novo Jack Johnson" por quarenta paus. E livros, livros espalhados, livros pelo chão, livros de seiscentas páginas a dez reais, livros que decifram para nós, mortais, o poder dos aniversários, por exemplo. Uma esbórnia maravilhosa. Desde que, é claro, você não espere uma única orientação ou sugestão ou informação ou mesmo localização de quaisquer produtos por parte dos, hmmm, "atendentes". Nas Americanas os funcionários parecem ser ainda mais alheios. Parece que todos vieram do mesmo furacão que trouxe de algum lugar imaginário todos aqueles CDs e DVDs e livros; eles andam pelas lojas como zumbis e nunca ouviram falar em George Romero.

9 Comments

Compro livros há apenas seis anos, ou seja, desde que fiz quinze e já trabalhava para sustentar o vício. Nunca vi vendedores que conhecessem bem os livros. Sempre vou pelo próprio faro. Até hoje só recebi duas recomendações que me deixaram bastante decepcionado.

O que me deixa mais indignado com esses atendentes foi o tipo de coisa que me ocorreu há dois natais atrás, quando decidi gastar duzentos reais em livros. Vinha do trabalho e estava muito bem vestido, atendimento nota 10! Dois meses depois estive na mesma loja, de bermuda e camiseta, o mesmo atendente nem me olhou! "Onde encontro algo do Italo Calvino?" tendo a mera resposta, sem ao menos me olhar na cara "Procura ali"....

Ah! Esses atendentes, na época de Natal então... cheio de atendentes temporários...

Em livrarias de rede como a Siciliano e Sodiler, a gente pergunta por um livro e imediatamente a resposta-padrão do atendente é: "A senhora sabe de qual editora?"
Em se tratando de livros, é a única referência ou conhecimento que se pode esperar da parte dos atendentes.

Muito boa!!! Puríssima verdade, é terrível comprar qualquer produtos destes citados e no caso de Cd´s é muito trash, tempos atrás procurei um cd da Diana Ross e a "atendente" me disse: uma moça tão nova querendo ouvir música de velho, de fossa...(pelo menos acho que ela conhecia a cantora, assim espero...)
Atendimento simplesmente ridículo
Té Mais

É..atendentes realmente geralmente não são bons...

;*

Perfeita análise. Não há mais vendedores especializados em NA-DA. Nas lojas de roupas, onde não é requerido nem um MÍNIMO de conhecimento, bastaria que o vendedor usasse um pouco de bom senso. Algo do tipo " vou tratar o cliente como gostria de ser tratado". Mas, hmpf, nem isso.

eu nunca ouvi falar em George Romero... :/

Sou super romântico na hora de comprar coisas, gosto de saber tudo sobre o produto e analisar bem. Cresci em idade pequena sem lojas boas, e tive de me treinar para comprar. Decorar nomes de selos, editoras e datas de lançamento.

E que nunca encontrei um vendendor de discos que me recomendasse com fé algo.*suspiro*

Ih Bia... imagina então, eu, cinéfilo desde pequeno, aos 16 anos trabalhando em locadora, levando uma porrada de filmes bons pra assistir em casa, de grátis!
Aí, com meu recém expandido conhecimento cinematográfico e meu ego sempre em rápida expansão, recomendando Kubrick, Fellini, de Palma, Allen, Mann e Tarantino (pra dar uma modernizada), e ouvindo dos clientes: "tem o novo do Steven Seagal?", "Quero ver Godzilla!", "tem dubRado?"... desnecessário dizer que durei 3 meses no emprego, e saí mais desiludido com a humanidade...

O triste é que a maioria desses "atendentes" apenas reflete o perfil dos consumidores...

Abs

Concordo com vc sobre a Americanas, ja cheguei a gastar 100,00 R$ em uma pilha de cds da Elis Regina e alguns de Miles Davis, com um pouco de grana e muita paciencia é capaz de se achar tudo ali...

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em dezembro 19, 2006 10:03 AM.

olha que maravilha de segunda é a postagem anterior.

presente é a próxima postagem.

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  • luiz biajoni
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