"jesus kid" e "deus, o mano"

Sou fã, fã, fã de Lourenço Mutarelli. Sua trilogia em quatro volumes, "O Enigma de Enigmo", é o ponto alto dos quadrinhos brasileiros. Os textos e os desenhos são dele. Os desenhos são cheios de detalhes, de um cuidado assombroso. O mesmo não se pode dizer do texto - e esse é o problema. Não chega a ser um problemão... Lourenço tem idéias simplesmente sensacionais para suas tramas, consegue envolver totalmente o leitor, cria personagens sólidos e com personalidade, mas... parece sempre haver um descuidado com seu texto. Como se ele escrevesse sempre com pressa, com uma certa urgência, para retomar logo os pincéis e fazer aquilo que ele sabe melhor: dar caras aos seus personagens, pintar os ambientes das suas neuróticas tramas. A linguagem de seus quadrinhos segue uma lógica cinematográfica, apreendida provavelmente através do cinema expressionista alemão. Estão ali encadeados "movimentos de câmera" fluídicos, margens de realce nos enquadramentos, trabalho do preto-e-branco sem nuances. Um trabalho personalista sublime.

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("Cena" de "O Dobro de Cinco")

Porém, Lourenço agora anuncia que vai deixar os quadrinhos e se dedicar apenas à literatura. É dele "O Cheiro do Ralo" - que chegou ao cinema pelas mãos de Selton Melo e Heitor Dhalia, diretor com quem ele tinha trabalhado fazendo o desenho de cena de "Nina", e venceu a última Mostra de Cinema de São Paulo. Sintomático isso: apesar de ser um livro, "O Cheiro do Ralo" é extremamente visual. É como se Lourenço tivesse escrito o livro para virar quadrinhos ou cinema - Arnaldo Antunes diz isso na contracapa. O mesmo acontece com "Jesus Kid", que li no último final de semana. As referências pop abundam, mas o autor não descamba para cabecices.

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Em "Jesus Kid" um escritor de bancas de jornais, que ganha a vida com pseudônimo fazendo pseudo-westerns, é contratado por produtores de cinema para passar uma temporada em um hotel escrevendo um roteiro sobre... as dificuldades de se escrever um roteiro. A prisão no hotel nos remete a "O Iluminado" - mas aqui os fantasmas, que no filme apenas Nicholson via, estão todos vivinhos da silva. O autor fictício tem que desenvolver uma trama à la "Adaptação", aquele filme do Charlie Kaufman. As referências vão se cruzando, o autor dialoga com seus personagens, a trama vai ficando cada vez mais absurda, envolvente e divertida. Por fim, Lourenço supreende fechando a história de maneira fantástica e totalmente satisfatória. Você fecha o livro e pensa: "esse cara é foda" - e é isso que faz um bom escritor, não é?

Porém (mais um porém no texto, Biajoni?), parece haver ali um certo descuido com o texto. Algo que vai além da revisão (aliás, a Editora Devir devia arrumar um revisor melhor; há muitos erros tanto no "O Cheiro do Ralo" como em "Jesus Kid"). Não sou de frescuras de textos lapidados, mas é estranho o que acontece com o Lourenço. Ele mesmo parece ter conhecimento do problema e faz uma brincadeira sobre isso, num diálogo de "Jesus Kid". De qualquer maneira, é um livro que merece ser lido, daqueles que se lê num tapa e nos faz terminar com um sorriso bobo na cara. Fico pensando como ficaria com a arte gráfica do Lourenço. E mesmo como ficaria nas telas. Uma sacanagem se o Heitor Dhalia não adaptar.

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(A capa ficou bem bacana, vai dizer?)

Falando em livros, cuidado com o texto e adaptação para o cinema, a vizinha Olivia Maia lança o seu primeiro livro, "Desumano", na terça-feira, dia 05/12, na Livraria da Vila, a partir das 18h30. A Olivia é muito cuidadosa com o texto. "Desumano" tem tudo para também ser adaptado para o cinema. Trata-se de uma história policial movimentada, cujo release você pode conferir aqui. Vai ser uma boa oportunidade dos amigos blogueiros e escritores se encontrarem em Sampa, dando uma força presencial para nossa amiga verbeater. Devo ir com Karen e Lia - se o tempo estiver legal, se as coisas estiverem nos conformes.

Pô, tou super feliz por esse lançamento. A Olivia merece. Chegou a hora das editoras acordarem para os inéditos. E para a blogosfera mostrar o seu potencial criativo e comercial. Gostaria muito que toda comunidade blogueira ajudasse a divulgar o livro da Olivia. Cada exemplar vendido faz aumentar as possibilidades para todos nós.

Espero todos lá.

8 Comments

Coloquei uma chamadinha lá no Livros&Afins, tá?
Abração
Ah!" http://literaturaagora.blogspot.com"

Vou dar uma olhada no folder e vou colocar algo no Bala. Blogueiros literários jamais serão vencidos.
gd ab

ê!
vamos lá!
não pode perder essa chance de conhecer o biajoni, hein hein? ;)

opa, vamos lá no blog da moça. literatura policial é o que há de bom.

Puxa que bacana Bia!

E ela é super novinha. Eu já beijava na boca quando ela nasceu :)

Te vejo muito maduro Bia. Muito maduro.

Bia, me dá um help: Tenho que entrevistar o Pedro Doria para a Painel, revista laboratório da Unimep.
Está quase tudo certo quanto ao dia da entrevista, mas eu queria que você me desse umas dicas de perguntas, sei lá, vc pode?
Bjos

Se Belô fosse mais perto de Sampa, estaria lá, prestigiando a Olívia e conhecendo blogueiros paulistas...

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em novembro 30, 2006 3:43 PM.

dedada é a postagem anterior.

o que eu queria, mas o que eu queria meeeeesmo... é a próxima postagem.

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