dedada

(Minha coluna de hoje no TodoDia)

Chegaram o Brasil ontem os primeiros 50 computadores do Programa "Um Computador por Aluno", parceria do Governo Federal com a ONG Americana "One Laptop per Child", ligada ao Instituto de Tecnologia de Massachussets, talvez o mais importante do mundo. Como diz o programa e o nome da ONG, a idéia é que todos os alunos de países, ãhn, "menos favorecidos" possam ter seu próprio laptop para utilizar em classe e levar para casa, provocando a inclusão digital de toda família. Para que a ONG possa disponibilizar esses computadores por apenas 100 dólares cada, é necessário que o Brasil, junto com outros países (Argentina, Nigéria, Líbia e Tailândia integram o programa) façam um pedido de cinco milhões de unidades. Estamos longe dessa realidade, mas a parceria do Governo Lula é um primeiro passo. Esses 50 computadores que chegaram ontem servirão apenas para testes, mais mil unidades devem chegar no início do ano que vem. Só espero que não façam o teste ligando conexões de internet superpoderosas de servidores próprios do Itamaraty. O Governo deve testar esses laptops em conexões discadas, de preferência analógicas, que é o que a maioria dos bairros de periferia tem para se conectar ao "mundo globalizado". Já que todos estão pensando em "computadores para alunos" é bom que comecem a pensar em "conexões para escolas", já que a grande maioria das escolas do País não contam com conexões rápidas - algumas delas sequer contam com linhas telefônicas convencionais.

Para falar a verdade, acho que o problema nem é tanto "o computador", mas sim "a conexão". Depois de três grandes ondas, a internet mundial, neste momento, simplesmente desconsidera o internauta conectado via linha telefônica. É impossível fazer as coisas básicas da internet com uma conexão discada. Não se pode abrir páginas em flash, não dá para baixar arquivos em .pdf, livros, filmes, música. Não dá pra conversar de maneira decente em um desses programas tipo msn-messenger - portanto, não dá para fazer "trabalhos em grupo". A chamada "inclusão digital" (dedada) deveria começar com uma conversa séria com os provedores, especialmente os "via cabo", que operam também com canais de TV. Essas empresas operam com concessões federais e devem oferecem uma contraparte social; deviam ser obrigadas, por exemplo, a conectar todas as escolas públicas das cidades onde atendem. Isso seria um mínimo de benefício, já que as empresas exploram comercialmente os cabos como qualquer outra empresa privada, visando o lucro, estabelecendo estratégias de mais-valia que, observam alguns, acabam ampliando ainda mais a erosão digital.

Entrevistado por Flávia Tavares e Mônica Manir, do Estadão, Silvio Meira (blog.meira.com), professor da Universidade Federal de Pernambuco, disse uma frase interessante que devia nortear os programas de inclusão digital no País: "Se o cara não tem o que comer, acham que não precisa de internet. Pois eu digo que ele talvez não tenha o que comer justamente porque não tem internet”. É verdade: em uma entrevista de emprego, entre dois candidatos com a mesma qualificação, é selecionado o que tem mais intimidade com o mundo virtual, com programas e processos.

Sem contar que muita coisa se pode fazer pela internet hoje, sem custo, que onera o bolso do cidadão no mundo real. Ler livros para o vestibular, por exemplo. Ou entregar as declarações de imposto de renda. O prazo para entregar a declaração de isento se encerra depois de amanhã, dia 30. Eu fiz a minha pela internet (receita.fazenda.gov.br), sem custo. Quem não tem internet, vai pagar uma taxinha nos correios. Fiz a declaração numa lan-house. Moro em bairro periférico, também sou um desconectado.

Se você que me lê acha exagero dar todo esse, ãhn, "valor" à internet, desculpe, mas você está à margem da margem de uma sociedade de marginais. Em menos de cinco anos teremos programas inteiros de TV sendo exibidos - e produzidos - na internet. Mudaremos totalmente nossa maneira de nos relacionarmos uns com os outros por conta de hiperconexões. Celulares, aparelhos de tv, utilitários domésticos, computadores de bordo em automóveis, tudo está conectado à grande rede. Talvez cinco anos seja muito pouco tempo para que você se atualize tecnologicamente. Se você estiver por fora, certamente estará fora.

14 Comments

Será q isso vai ser bom ou ruim? Toda essa tecnologia?

E eu tenho internet discada tb. Aliás... Nem isso tenho. Em casa não tenho nem net, nem TV a cabo. Mas na casa da minha mãe tem discada.

Ãhn? Internet discada? Existe isso ainda? Completamente tosco! Mas é o que o nosso amigo falou lá em cima, não tem explicação lógica pra isso, é barato, é fácil, estamos anos-luz disso aí, o problema é o olho graaande da moçada, ninguém quer largar o osso. E também, "luxo" é pra poucos né?! O que um moleque "pobre, pardo, sem documento" vai querer com a net, o negócio é ser avião de traficante e levar tiro na favela, é uma boca a menos pra comer, um a menos pra competir.

O ponto é que a oferta de conexões mais ou menos rápidas, segue lógicas de exploração de mercado, muito mais do que é condicionada por limitações técnicas. Ou seja, colocar a banda larga para todos, é tecnicamente facilimo e o investimento é mínimo. Se não o fazem é para poder continuar a praticar lucros estratosféricos, pois o custo do bite transmitido é algo irrealmente barato. Em suma: essa gente enquanto puder mamar às custas dos incautos, o fará.

Eu concordo que, em vez dos provedores de acesso doarem umas cestas básicas para tentar fazer bonito, eles deviam é realmente trabalhar pelo social conectando (com velocidades decentes) escolas, bibliotecas, etc a preço REALMENTE competitivo.
Por outro lado, há alguns meses li um relatório da Unesco indicando que apenas 24% dos brasileiros conseguem resolver problemas matemáticos de até 2 operações e ler um texto e interpretá-lo. Aí pergunto: quando quase 3/4 dos brasileiros é semi-analfabeta (ótimo, sabem desenhar o nome)acho que é um tremendo tiro no pé (marqueteiro) comprar computadores ou dar R$ 90 de esmola para uma família esfomeada ao invés de criar muuuitas escolas para fornecer educação real e oferecer um futuro.

aew Bia... nada relacionado ao post, estou muito curioso sobre o seu livro, terminei de lê-lo hoje e queria perguntar 1.qual o significado da concha no início e fim do livro; 2.o que seria "exatamente" uma novela marrom?; 3. o personagem Alê teve alguma inspiração de algum Alê(x) da blogosfera; 4. e parabéns pelo livro, "Sexo Anal" foi realmente uma ótima experiência;)

Acredito que a exclusão digital seja um problema mais grave do que a fome, atualmente, no Brasil. Dê condições e o excluído vai correr atrás de buscar a sua comida. Mas o governo parece estar empenhado em dar a comida sem de mão beijada.
gd ab

Biajoni, gostei tanto de o texto que "colei" lá no perplexoinside(mas citei a fonte, tá?)
Abração

Graaaande Bia,

Como sempre, ótimo texto! A internet roubará o espaço da tv, e nos próximos anos serão mais bem sucedidos os que souberem explorar seu potencial comercial de forma mais inovadora...

Abs

Mandou bem na coluna e sou solidário e concordo de maneira insofismável(uia, gostou dessa?). Demorou pra Vivax tomar uma postura realmente politicamente correta e com verdadeira responsabilidade social.
Uta!

Não exagerou não
essa semana a veja fez um especial de natal contando tudo que vai lançar ano q vem e talz...caraca... tudo vai ser tecnológico, play station com internet! tudo hoje em dia esta voltado p isso!

;**

Exagerou não Bia, há uns dez anos, isso seria exagero, hoje é fato consumado...

Beleeeza este texto. Bia, você 'abriu' õ tema para algo importantíssimo: a participação social das empresas (provedores) que deveriam, sim, dar uma contrapartida. Imagine uma criança da periferia (ou classe média remediada pra baixo) pagar 70 a 100 reais por 'banda larga'...

muito bom o texto, bia. e eu concordo com o professor meira. é preciso parar com essa coisa de "deixar pra depois": depois que todas as necessidades básicas estiverem sanadas aí poderemos pensar em X, Y e Z. besteira pura. bjs

Ótimo texto. Você tem razão, o melhor da internet hoje é para quem tem banda larga.

Olha que eu me preocupo em tornar as coisas mais leves, mas é impossível pra mim deixar a página inicial do blog com menos de 150 KB. No tempo em que eu comecei a estudar web design, homepages com mais de 30 KB eram consideradas sacrilégio.

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em novembro 28, 2006 10:10 AM.

bom, bom é a postagem anterior.

"jesus kid" e "deus, o mano" é a próxima postagem.

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