
Pulei da cama rápido no sábado, uma estranha sensação de que meu dia seria complicado. Como se não fossem todos.
Mas, sim, aquele era especial: ia sair uma resenha sobre meu livro num dos maiores jornais do País. E não podia comprar O Globo em Americana ou Limeira - quase nunca se pode comprar quase nada nessas cidades.
Eu tinha que sair rápido para Limeira, era o primeiro encontro da minha Oficina de Blogs. Como havíamos conseguido dez computadores, restringi o número de participantes a dez. Eu sabia que mesmo dez seria difícil de conseguir: tivemos nove inscritos.
Sábado, quinze para as nove da manhã, lá estava eu no Colégio Trajano Camargo esperando minha turma, uma certa angústia de não saber coisa nenhuma sobre as resenhas, sobre o que estava escrito n'O Globo sobre "Sexo Anal", minha novela marrom.
Chega um garoto mirrado e simpático, pergunto se ele veio para oficina e ele confirma. Mas já me avisa que talvez os outros não apareçam. É que houve um comunicado sobre uma prova com os alunos no domingo e muitos pensaram que a Oficina havia sido adiada. Esses velhos e bons problemas de comunicação.
Achei legal, daria para navegar um pouco, descobrir algo sobre a publicação. Fomos eu e André Medeiros (sim, ele já tem blog, é claro) para dentro da sala e ligamos alguns micros. "Bom, é sábado, está friozinho, vamos esperar um pouco pra ver se o pessoal chega...".
Entrei no Alex e li o seu post sobre. Eu nem sabia que o livro dele também estava sendo analisado. Fiquei um pouco mais leve de saber que ao menos o resenhista tinha falado bem. Tentei entrar na página do Globo, procurei pelo caderno Prosa & Verso mas não achei. Foi quando o telefone tocou e era a Viva, louca para ler a resenha pra mim.
Eu tenho amigos lindos.
Ela leu e eu acendi um cigarro e, ora, o Mansur acertou na mosca. Sorri.
Na sequência - o André me esperando lá na sala, coitado! -, toca o celu de novo e é o Doni, dando parabéns, falando que viu a resenha no site. Pô, se eu não conseguiria o jornal aqui, imagina o Doni, lá em Embu, no pêlo do cu do mundo!
Pedi o link e ele falou que ia mandar. Tinha que desligar logo pois estava falando de um gato num telefone público e o acordo local era que as ligações não podiam passar de dois minutos para a Telefônica não desconfiar.
Eu tenho amigos malandros, rapá.
Voltei para a sala e o André estava com cara de enfado, mas tentei animá-lo falando sobre como é boa a vida de blogueiro, contando que no auge da minha fama eu saía por aí e era agarrado na rua por mulheres sedentas por sexo e projeção, contei sobre mulheres que enviam fotos nuas para blogueiros e até mesmo como alguns conseguem bolsas em universidades americanas - essas coisas que nós, blogueiros famosos, conhecemos bem e estamos até acostumados.
Expliquei também que o negócio é meio viciante e que muitas vezes não conseguimos deixar o mundo blogueiro - eu mesmo tenho dificuldades até hoje de me desvencilhar das mulheres, dos convites, do assédio. E contei outras coisas mais, mas se você quiser saber terá que se inscrever para minha próxima Oficina - que só deve acontecer se o João Batista Andrade continuar na Secretaria da Cultura no Governo Serra.
Bem, ficamos ali no papo bom e já era mais de meio-dia e saí em disparada. Minha missão era conseguir um exemplar d'O Globo. Eu precisava de um exemplar. Precisava mostrar para a Karen que todas as noites e mais noites de laboratório haviam valido a pena. Tinha que mostrar para o meu vizinho, o Adílson, que sempre caçoava de mim quando eu passava para ir à quitanda ("Escritor, hein?"). Precisava mostrar para minha família que sempre me chamou folgado, achando que as horas passadas na frente do computador eram inúteis.
A resenha d'O Globo era a prova de que talvez eu não estivesse errado.
Enquanto meditava dentro do carro em direção à pista, caí na besteira de passar defronte ao Bar do Gilson e lá estava, pendurado no balcão, meu amigo André "Seco e Sujo" Montanhér. Ele comia um espetinho de jabá e tomava uma Brahma. Não tive como não parar. Mandei pra baixo a boa coxinha - "100% batata" - e também arrisquei um espetinho de jabá - o que provocou a demanda de umas cinco cervas.
As duas da tarde batiam e eu ainda tinha o desafio em mente. Agora estava calibrado para encarnar um Ethan Hunt básico e sair desafiando vilões em busca do meu exemplar do fatídico diário.
Despedi-me do meu amigo e voei pra casa. A idéia era levar toda a família comigo, mas as coisas não estavam muito bem no doce lar. O Dudu tinha quebrado um vaso da Karen, a Lia estava acesa demais (estão começando a apontar dentinhos). Meu vizinho, o Kyn, não tinha voltado do trabalho. Estava sem parceria para minha caça aO Globo.
Um herói solitário.
Ergueu-se em mim todos os Césares e parti para a FNac Campinas, local para onde meus instintos me guiavam. O Shopping Dom Pedro estava lotado, rodei várias vezes à procura de vaga. Achei, corri, mas foi tudo em vão: não tinha nenhum exemplar do jornal. Noutra banca do Shopping igualmente não encontrei, assim como na maior revistaria de Campinas, no Largo do Taquaral.
Não podia voltar pra casa; seria humilhante.
Peguei a rodovia Anhanguera crente de que iria achar o jornal no mini-shopping rodoviário de Orestes Quércia, o SerrAzul. Tem uma grande banca de jornais lá, mas eles não trabalham com O Globo.
"Ando mais um pouco na pista e mais próximo à São Paulo certamente encontrarei o jornal"
Parei em seis postos, Graal, Frango Assado, Lago Azul, Campeão, Fonte da Fazenda, Rei da Pamonha... Em nenhum achei um único exemplar do jornal. No Rei da Pamonha comprei quatro pamonhas doces a R$ 2,50 cada. Recomendo.
Já estava ali, na entrada de São Paulo e pensei: "ora, o que é um tiro para quem está estendido?".
Entrei na megalópole com coragem e fé, como um cavaleiro do rei Arthur que entrasse na Floresta Negra sem saber nenhum caminho. Nessas horas é bom ter sempre o Campbell no bolso, FH!
Parei em dois postos de combustíveis na marginal, querendo saber onde encontrava uma boa banca - ninguém, em nenhum deles, soube informar. Paulistano não lê jornal.
Num momento, uma só coisa me ocorreu: se havia algum lugar em Sampa onde eu certamente iria achar um exemplar dO Globo esse lugar era a Rodoviária do Tietê. Sim, pra lá eu fui.
Meu carro está sem seguro, o trânsito estava caótico, na imediações da Rodoviária, um caos. Achei melhor parar no estacionamento da rodo, seis reais a primeira hora. Putz, eu só ia demorar uns 20 minutos! Saco, não tive outra alternativa: estacionei e saí correndo em direção ao meu intento.
Assim que cheguei na banca eu vi! Tinha três exemplares do jornal. Três. Peguei-os todos.
Inconformado de ter que pagar seis reais, dei uma rodada por ali, lendo o caderno Prosa & Verso. Beatriz Resende fala muito bem do livro da veterana jovem Ana Paula Maia, "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos", livro que estou lendo nas minhas (poucas) horas de folga no trabalho. Miguel Sanches Neto também elogia o livro de Alex Castro que - vergonha! - ainda não li. E Josué Castello e Elias Fajardo apontam mais falhas que qualidade nos livros de Carlos Gustavo Jaimovich e Ricardo Rocha. André Luis Mansur fez uma crítica muito legal do meu livro. Gostei, é claro, do trecho "Utilizando uma linguagem que em alguns momentos faz 'O Doce Veneno do Escorpião', de Bruna Surfistinha, parecer literatura infantil, Biajoni constrói uma interessante trama urbana altamente pornográfica, com alguns momentos escatológicos e muito bom-humor". Essa parte salvou meu final de ano, compensou a ida até Sampa e me animou a retomar a continuação de "Sexo Anal".
André aponta erros de revisão, mas a verdade é que meu livro não foi revisado. Eu mesmo passei os olhos nele antes de fechar o .pdf e hoje, cada vez que dou uma olhada, encontro um erro. Sei que isso não é bom, mas creio que a essência esteja ali - e o próprio André não se deixou abater pelos inúmeros erros. "O mais importante, porém, é que Biajoni conta bem a sua história".
Satisfeito, tomei um chopp e fiquei ali olhando a arte do caderno Prosa & Verso - arte da grande Tata Maneschy.
Aí fui ver uns CDs e - veja o que é o destino! - acabei encontrando um disco que eu não via há mais de 25 anos, um disco que eu ouvia muito quando tinha uns 9, 10 anos, na casa da minha tia Júlia. Um disco que eu comprei por 13 reais e fui-me pra Americana ouvindo com dois sorrisos bestas nos lábios. Um disco que vai ganhar resenha essa semana no Dois Discos: "Baiano e os Novos Caetanos" - edição remasterizada, mas com poucas informações, infelizmente.
Na pista, toca o celular, e é a garota mais linda do mundo, minha filha Isabelle. Ela estava levemente decepcionada de não ter conseguido ludibriar o bilheteiro do cinema e então não pôde ver "Jogos Mortais 3". Ela é fã de filmes de terror. Conversamos bastante, ela vem pra cá em Dezembro passar as férias.
Cheguei em casa e tudo estava ótimo. Karen havia feito strogonoff e colocado várias Skóis (algumas Skóis Lemons) para gelar. Tinha emprestado alguns DVDs do amigo Sérgio Efe e decidimos rever "Delicatessen". A Lia colou no peito da mãe e a gente ficou viajando na poética visual de Jeunet & Caro. Um filme absurdo. Um filme absurdo de legal. Um filme absurdo como a vida. Assim como a vida também é absurda. Absurda de legal.

parabens pela resenha. Leio quando for à sua casa. Nem vou tentar passar por essa aventura para achar O Globo. quanto ao post (acho que é assim que escreve, sou analfabeta em blogs), vou fazer o mesmo comentário que fiz quando li o livro: não li uma história, assisti a uma história. Ainda bem que meu namorado tem um bom professor...
E eu que guardei uma porra de uma cópia pra te mandar, mas não tinha seu telefone e perdi seu endereço. Bom, pelo menos tens suas cópias.
Achei do caráleo a resenha. Tu merece, gueizão lindo de morrer. Beijos!
Bia, vc parecia eu antes da seleção de mestrado divulgar seu resultado. Mas só vc teve boas notícias..... Abs e boa sorte com o livro!!!
que saga hein!!
auhauhahuauhauh
finalmente conseguiu ler ;D
Parabéns, apesar de eu só poder ler o livro quando eu tiver 30 anos....
heh
te amo
;***
Caralho!...
Aqui em Campina Grande a gente compra O Globo em qualquer bodega.
Daria um conto. De qualquer maneira, acho que o seu destino está traçado e não passa por Limeira. Se vc conseguiu uma resenha em um dos maiores jornais do país, vivendo aí. Imagine o que não conseguiria na capitá? Pense nisso, véio.
gd ab
Eu li a resenha dentro de um avião parado em Guarulhos. Esperando notícia sobre se decolava ou não. Cheguei na frase "faz 'O Doce Veneno do Escorpião', de Bruna Surfistinha, parecer literatura infantil" no momento em que chegava a notícia de que o vôo estava cancelado e iríamos DE ÔNIBUS para Congonhas. E veio aquele insight que você sabe que é parte do romance: que não há PALAVRÃO que a literatura possa inventar que se compare com o azedo da realidade das coisas às vezes. E aí a felicidade por Sexo Anal ter tido a resenha que merecia no Globo iluminou - um tiquim - a odisséia que foi chegar a BH desta vez (BH, onde, diga-se de passagem, NÃO SE ENCONTRA o Globo no sábado depois das, digamos, 13 horas, a não ser em 2 pontos da cidade talvez). E fiquei feliz também porque já está registrada a NÂO LEITURA desse livro pelas editoras. O rastro das leituras dele pela internet já é indicação de que o livro é um "instantâneo clássico pop". Parabéns pela baita resenha merecida e desculpa o comprimento do comentário; entusiasmei :->)
o mulherio parece que não gostou da skol lemon. eu achei docinha, boa para tomar quando se está com muita sede, tipo A PRIMEIRA CERVA. na sequência, a boa e velha skol normal. a karen gostou da lemon, mas vamos combinar que não é uma cerveja que se toma a tarde inteira. sem contar que tem só 2,5% de alcoól.
:>)
O relato estava sensacional até o momento da Skol Lemon, quando tive engulhos e não tive opção a não ser parar de ler. Oxalá não haja esse tipo de citação degradante no teu livro, que já baixei.
bia, como tá tudo uma merda mesmo, o yahoo resolveu aderir: nada funciona nele. manda pra esse aqui:
cristiane.cerdera@gmail.com
bjs
Congratulações, guei. :D
cara, então, tu comprou o jornal ou quer que a gente mande? hein? bijus
Luiz, meus parabéns a resenha do O Globo foi muito legal e vc mereceu, acabei de ler o livro adorei passa lá no blog depois um grande beijo da sua mais nova fã...
Que nada, Bia. Vem pra Brasília, o centro do universo (pelo menos de terça a quarta-feira). Aí vamos poder tomar aquela cerva de vez em quando.
Caramba!! Eu pensei que morasse na roça em Guarapari no ES, mas pelo que eu estou vendo você tá pior do que eu. Todo esse drama par conseguir um jornal do Globo? Querido, posso jogar o meu exemplar fora? Beijocas
Aqui em Anápolis, cidade do mesmo porte de Limeira, mas no interior de Goiás: tem O Globo, A Folha, o Estadão, todo dia, sem falta, ali pelas 9 da manhã.
Li a crítica. Baixei o arquivo pdf. do livro e é já está escalado para próxima leitura.
Boa sorte.
Concordo com nosso amigo Prada... Liberte-se e venha morar em Embu. Os horizontes largos vão abrir sua cabeça!
Meu caro, falo como amigo e com conhecimento de causa. Desgruda de Limeira. Se por um lado curti demais o teu texto traspirante de polifônica alegria, por outro me sinto no dever de alertá-lo para a torpe realidade de um buraco que não tem nem um exemplar de jornal. As asas voce já está conquistando. Agora voe.
Beijos.
Oi meu lindo....
Vc sabe que fiquei muito feliz com os comentários do jornal, mesmo porque, sou sua fã de carteirinha...rsrsr....
Quem sabe isso era o "empurrão" que faltava!!!
Quem sabe, literalmente falando, a gente veja você assediado, agarrado pelas moçoilas, gastando canetas mil em autógrafos....
Eu torço por isso...
E quero estar aqui prá ver.
beijão
Tia Ju
tá ruim aí hem? até no interior do Piauí já chega o jornal O Globo.
Bia, a maratona foi movimentada, mas valeu a pena. Principalmente o final do dia, não?! Parabéns pela crítica! Bjs.
Parabéns, vagabundo :)
só esqueceu de chamar os irmão pra ir pra Sampa....
mai dexa...
Parabens Bia, ainda quero ver seu livro nas livrarias !!! e Skol lemon é argggggggg , rsssss e o disco Baiano e os Novos Caetanos, putz este eu tambem quero !!!
Abraços !!!
Uma pessoa qualquer teria dito: 'no sábado eu fui a São Paulo comprar um jornal'. Mas você é capaz de transformar qualquer fato num acontecimento, qualquer viagem numa "viagem" com todos os sentidos possíveis.
Uauuu que viagem, literalmente falando, atrás do jornal !!Só espero que no final a tal skoll com limão não tenha estragado o seu dia :)
Ô Bia!
Parabéns!!! Agora vêm a fama e a fortuna, certs?
Abs