metáforas

(Coluna de 10/10 do TodoDia)

Na coluna da semana passada falei sobre a ONG "Sociedade Amigos de Plutão" que teria sido montada em Brasília e que teria conseguido verba de sete milhões e meio do Governo Federal para sensibilizar autoridades mundiais no sentido de restituir Plutão à sua condição de planeta. O artigo falando da ONG saiu na revista "Brasília em Dia", assinado pelo jornalista Carlos Chagas. No dia dois de outubro, um dia depois da eleição portanto, Chagas publicou em alguns jornais e sites uma retratação, dizendo que aquela coluna havia sido uma "metáfora", uma brincadeira que ele havia feito. Você pode ler a retratação na íntegra em http://www.tribunadaimprensa.com.br/anteriores/2006/outubro/02/coluna.asp?coluna=chagas.

É claro que muita gente engoliu as palavras do jornalista com 45 anos de profissão como verdadeiras e se indignou com a tal ONG e a verba federal. Eu mesmo indignei-me e fiz a coluna aqui dizendo da impossibilidade que temos de saber a verdade sobre fatos assim. Agora, confesso, me mantenho ainda mais indignado; se a ONG não existe, fica provado que o jornalismo pé-de-chinelo e mal intencionado atinge o seu state-of-art e, pior, chega a um dos poucos cumes de (suposta) integridade moral jornalistica do País: Carlos Chagas. Minha indignação vai além por conta do uso do termo "metáfora" pelo jornalista. O que é uma metáfora? Uns dizem que uma metáfora é uma mentira e o jornalista usa "metáfora" apenas como eufemismo: o que ele contou foi uma mentira, uma boa mentira, dessas que muitos acreditam. Outros, porém, defendem que metáfora não é uma mentira mas sim uma "imagem alegórica".

Joseph Campbell conta uma história sobre metáfora. Ele dava uma entrevista sobre os símbolos bíblicos, dizendo que as histórias antigas eram metáforas. O entrevistador, querendo contradizer o nobre professor, disse que as histórias não eram metáforas, mas mentiras. Campbell, então, experiente, perguntou se o entrevistador sabia o que era uma metáfora, se podia dar um exemplo. Depois de muito pensar, o jornalista saiu-se com essa: "Aquele corredor corre como um coelho". E o velho Campbell corrigiu; "Isso é uma comparação; uma metáfora seria se você dissesse que 'aquele corredor É um coelho'". No que se substitui uma imagem (do corredor) por outra (do coelho) consegue-se uma dimensão melhor do que se está querendo dizer.

Carlos Chagas, exímio com as palavras, diz que metaforizou em sua coluna uma situação recorrente que vêm acontecendo no País: a criação de ONGs com fins de captar e desviar recursos federais. Ao contar a mentira da Sociedade Amigos de Plutão apontou um dedo para a situação e três para si mesmo: por que, ao invés de inventar a "metáfora" não fez um trabalho jornalístico e levantou a verdade, nomes de ONGs que recebem os recursos e aplica-os mal? A "metáfora" contada por Chagas acaba sendo o exemplo de uma prática cada vez mais comum do "jornalismo de colunas" no Brasil. É mais fácil sentar e inventar, escrever qualquer coisa, sem levantamento, sem pesquisa, sem conversas. É uma situação generalizada, um dos indíces da morte do jornalismo. Se alguém questionar a veracidade, o jornalista saca a preservação das fontes ou até uma suposta "metaforização" da informação. É a tucanização do jornalismo, no fim. Eu mesmo faço isso vez em quando.

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4 Comments

Biajoni:
Reproduzo, aqui, a resposta que lhe dei a seu comentário lá no Meu Bazar. Espero que ela explique o necessário. E espero que você volte sempre a visitar o Meu Bazar. Também estarei sempre por aqui. Lá vai:

Biajoni:
1. Como descobri que era mentira: talvez essa seja uma das poucas vantagens de ter mais de 60 anos de janela. Mas passei algumas horas conferindo o D.O.U. (só velhice não resolve).
2. Às vezes, escrevo atualizações aos meus posts. Não vejo mal nenhum nisso. Ao contrário. E, nessas atualizações, tentei dizer que você fizera auto-crítica da nota que dera sobre a tal ONG. É certo que confundi o comentário de um tal Marcello como se fosse seu (sua, era uma nota logo acima, sobre o You Tube). Errei, portanto. Só não sei se devo pedir desculpas, pois a menção que fiz ao tal comentário tinha intenção elogiosa. Mas se for preciso desculpar-me, desculpo-me.
3. A questão central de meu comentário era a de que, se escrevemos algum post equivocado, não me parece bom retirá-lo sem mais. Penso que o correto é deixá-lo lá e fazer as retificações necessárias, ou em novos posts ou em atualizações ao próprio post. E isso, tanto seu blog quanto o do Ribeiro, fizeram. Critiquei somente o tal Moita.

Aproveite este incidente e volte sempre.
Abração do
SP

Excelente post!!!

Deu aula pro Chagas agora...

Abs

tem também a prática do copy and paste sem citar as referências, mudando aqui e acolá alguns detalhes pra distorcer os fatos... o Grobo é especialista nisso em 48 horas deu pra pescar várias "notícias" do gênero...Bjos.

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em outubro 9, 2006 6:16 PM.

ricardo montero entrevista é a postagem anterior.

bomba, repassem sem dó! é a próxima postagem.

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  • luiz biajoni
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