(Minha coluna de hoje no TodoDia. Super legal a participação dos leitores na pesquisa abaixo sobre os primeiros livros. Obrigado a todos, vocês são lindos, espero usar isso em minha participação no Salão do Livro Infantil)
A cidade de Limeira entra no circuito literário brasileiro com a realização do Primeiro Salão do Livro Infantil, evento que teve abertura ontem e que vai até sexta-feira, reunindo vinte e uma das mais importantes editoras do País. Mais de vinte mil títulos serão apresentados e comercializados a preços especiais e a Biblioteca Municipal receberá vários volumes como doação das editoras. Além dos livros, oficinas, palestras, teatros de bonecos, contadores de histórias e outras atividades farão parte da programação. A realização do salão acontece através de uma parceria entre três secretarias (Educação, Cultura e Turismo e Eventos) com realização de uma empresa especializada nesse tipo de evento, a TXT, de Londrina. É uma mostra de que o poder público, quando quer, pode fazer coisas bacanas. E, pelas informações que tive, a intenção é realizar outras edições do salão, transformando Limeira num nome de referência quando o assunto for literatura infantil e infanto-juvenil.
Espantosamente, fui convidado para a atividade de encerramento do salão. Convidaram a mim e a ao escritor e dramaturgo Mário Bortolotto, dois escrevinhadores que aparentemente não têm nada a ver com o, digamos, universo infantil, para conversarmos com a platéia sobre como foi o nosso primeiro contato com os livros. Gostei da proposta.
Logo após o convite vi-me numa viagem ao passado escolar com os livrinhos da Coleção Vaga-Lume debaixo do braço ou com os gibis de super-heróis sentado debaixo do pé de caqui. Pensei num título que tivesse me marcado realmente e o primeiro que me veio à mente foi "O Gênio do Crime", grande livro de Joaõ Carlos Marinho que muitos da minha geração foram "obrigados" a ler. As aventuras da Turma do Gordo eram aquelas quer todos nós gostaríamos de ter vivido e os personagens eram tão parecidos conosco que era como se fôssemos amigos. De todos os livros que tive que ler no colégio esse é o que mais me desperta afetividade, como se fosse um grande amigo que deixamos lá atrás. É um sentimento bonito.
Tenho uma filha de 14 anos que gosta muito de ler. Sempre leu, sempre dei livros de presente e ela se interessa por tudo, de maneira geral - lê revistas, jornais, bulas de remédio. Atualmente ela destrincha "Belas Maldições", livro de Neil Gaiman e Terry Pratchett com mais de 300 páginas. Antes, leu os dois volumes relativamente taludos do "Mahabharatha pelos olhos de uma Criança", de Samhita Arni. Os dois títulos lidam com imagens, com a imaginação. Crianças e pré-adolescentes precisam de estímulos que os façam desenvolver a imaginação. Porém, minha bela filha não tem se intressado pelas leituras obrigatórias do colégio. Deram-lhe "David Copperfield" do Mark Twain, "Dom Casmurro" do Machado de Assis e "A Hora da Estrela" da Clarice Lispector e ela teve dificuldades para conseguir lê-los. Penso que está na hora de reverem essa lista de livros indicados para a garotada. É claro que esses clássicos são ótimos, mas por que a criançada deve ter contatos com eles exatamente no momento em que começam a ler; quando o "gosto" começa a ser moldado?
Creio que muitos desses livros acabam afastando a garotada da literatura. Lembro com horror do momento e que li, com uns 12 anos, "Iracema", de José de Alencar e pensei que todo e qualquer livro fosse enrolado e rebuscado como ele. Achei que nunca mais fosse ler. Ainda bem que logo depois apareceu "O Cortiço" de Aluísio de Azevedo e então as coisas entraram nos eixos.
O primeiro e último livro do Machado de Assis que eu li foi O Alienista, eu odeio ele, já morri de vontade de conhecer a Capitu, mas não tive coragem, traumatizei, afff
Acho que a garotada não curte ler os clássicos porque a linguagem coloquial e as gírias estão muito afastadas da linguagem dos livros mais... "eruditos", coisa que esses que você menciona nem chegam a ser.
O que falta na moçada é vocabulário. Tudo eles acham difícil. Na Europa (incluindo os portugas) a linguagem falada não é assim tão distante da palavra escrita, e as gírias passam de geração em geração.
Acho que um estudante de 8a. série, ao ler D. Copperfield ou O Cortiço, teria que ir muitas vezes ao dicionário ou pular partes.
Por outro lado, o que, senão esses livros, pra incutir um vocabulário um pouco mais rico nas cabeças?
Com 13 anos eu já tinha lido todo Monteiro Lobato e todo Jorge Amado, entre outras coisas.
Cara, não sei como agradecer! Eu vinha tentando lembrar do autor, ou do nome do livro "Sangue fresco" há eras, e quando você citou "O gênio do crime" eu não acreditei! Eu adorava as aventuras do Gordo!
E agora o maridão não vai mais poder dizer que eu estou ficando louca e inventando livros!
Valeu mesmo!!!
Bem lembrado, O Gênio do Crime, cenas inesquecíveis; a tortura no Gordo, e das traquitanas no quarto dele para poupar esforço...
Quando cheguei nesse livro tinha lido boa parte do MOnteiro LObato, que fiz questão de repassar aos meus filhos. Rapaz, que susto! Como é racista o LObato! OK, ele era genial, racista era o contexto em que ele vivia etc e tal; mas não dá para ler o cara hoje em dia para crianças sem uma certa, digamos, traduçãozinha. Tipo explicar quem era Tia Nastácia, em vez de descrevê-la, como ele faz, como "negra de estimação" do Sítio do Picapau Amarelo.
E as edições da Abril (é, a editora da Veja já fez coisas bem decentes) com versões para o público juvenil, escritas pelo Cony e outros craques, das obras do Twain, do Dickens, do Mellvile, Cervantes... Cara, por que não reeditam isso?
Ah, morei no Ceará, meu velho, você está falando de José de Alencar para um sujeito traumatizado. De O Guarani à Pata da Gazela, tive de engolir todos, sem saliva. Troço chatíssimo, sô. Pior é que só já marmanjo descobri e gostei do Minas de Prata, que li atropelando o preconceito.
Mas o resto... Nem se Iracema viesse com seus lábios de mel sugerindo protagonizarmos a sós um capítulo de algum romance biajônico.
Não vai falar de sexo anal pros moleques, hem?
SIm, é importante ler os clássicos. Mas obrigar crianças a lê-los ainda muito jovens só vai fazer com que fiquem com raiva dos livros. Muito melhor começar com Gênio do Crime e similares e depois, quando eles tomarem gosto pela leitura, estarão irremediavelmente perdidos, rs.
Concordo.
ê, alessandra, é verdade!
:>)
mais um ato falho da cabeça de um velho senil.
;>*
o problema é que o povo acha que erudição e cultura são a mesma coisa, que cultura não tem influência do gosto, e que erudição se enfia na cabeça a machadadas...
cada pessoa gosta de uma coisa, e isso não significa que ela será menos culta.
erudição é opção. quem quer fica, e mesmo assim não é em tudo.
e não, machadadas não resolvem o problema.
existem clássicos ótimos para todas as faixas de idade. pra que forçar os inapropriados? deixa a criança/adolescente se acostumar primeiro....
basicamente...
O Alienista do Machado de Assis... Que ódio desse livro, até hoje não criei coragem de pegar outro livro do Machadão pra ler (podem jogar as pedras, eu mereço...).
Fiquei curioso com esse "Mahabharatha pelos olhos de uma Criança", vou procurar no Submarino, pra crianças de qual idade vc recomendaria, Bia?
Ei Bia, disfarça... mas David Copperfield é Charles Dickens. Mark Twain é o do Huckleberry Finn.
VC COMENTOU SOBRE IRACEMA E O CORTIÇO, ME FEZ LEMBRAR DE A MORENINHA QUE TAMBEM ME FEZ PEGAR O GOSTO PELA LEITURA...
ABRAÇO BIA !!!
putz, você até que teve sorte. na sexta série, aí pelos onze anos me obrigaram a ler "a pata da gazela", de josé de alencar. foi um trauma. agora, eu acho essa coisa de formação do leitor um enigma. na minha casa meu pai gostava de ler, o velho era e é fã de nelson rodrigues. minha mãe não lia nada. eu sempre dei livros pro guilherme, meu filho, que vai fazer 16. livro de plástico pra ler na banheirinha, livro de pano, essas coisas. depois, mais crescidinho, ruth rocha, lygia bojunga e por aí vai. ele sempre me viu com alguma coisa pra ler nas mãos. hoje, entretanto, ele só lê o que a escola manda, uma lástima. e eu ainda tento entender onde está o mistério...
Outro ponto: casas de maioria adulta e, consequentemente, com poucos livros infantis. Minhas irmãs encostadas a mim tinham, respectivamente, sete e nove anos a mais. Eu as admirava, queria imitá-las e ler o que elas liam. Por um lado foi bom, mas não foi fácil.