(Minha coluna no TodoDia)
A indicação para o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado de um "filmezinho adolescente", em 1999, surpreendeu muita gente. Porém, apesar de se passar em um colégio e ter atores cintilantes e bonitos, "Eleição", dirigido e roteirizado por Alexander Payne, era uma crítica à hipocrisia das campanhas eleitorais nos EUA. A eleição para a presidência do Grêmio Estudantil agita a pacata escola de Carver High, em algum lugarzinho perdido da América. Dois candidatos disputam: a melhor aluna, uma obstinada Reese Whiterspoon e um burrão-popular, vivido por Chris Klein. Um professor (Matthew Broderick) que odeia a candidata bonitinha-e-arrumada vai fazer de tudo para eleger seu candidato, usando artíficios que transbordam falta de ética. É uma comédia, mas podia ser um drama. A ação, ágil, com diálogos mordazes e igualmente rápidos, aponta para o cinema de fantasia - porém "Eleição" é, na verdade, ao mesmo tempo a miniaturização da realidade de uma eleição qualquer com o artifício da ampliação das situações inusitadas, ao ponto do cômico, própria dos pastelões. Uma maneira satírica de se dizer as verdades.
Na semana passada, em Limeira, houve uma eleição para o novo diretor do Colégio Técnico da Unicamp, o Cotil. Duas chapas disputavam: a do atual diretor Paulo Sérgio Saran e a do professor Sérgio Lordello. As campanhas internas bem podiam ter saído da mente criativa de Tom Perrota, autor do livro que serviu de base para "Eleição". Cartinhas anônimas, reuniões secretas, choppinhos pós-aula e um clima de guerra rolaram nas duas semanas que antecederam o pleito. Na personificação do "eterno embate", professores e funcionários apoiavam o status-quo enquanto alunos lutavam pela mudança. O maniqueísmo eleitoral e universal dentro dos quatro muros de um colégio. Porém - sim, temos o porém - os votos de funcionários e de professores têm peso diferente dos votos de alunos -; e 85% dos alunos votaram na alternativa Sérgio Lordello que acabou perdendo a eleição. Na sequência, manifestações, protestos, ovos atirados à diretoria. E o diretor reeleito, Saran, algo esbaforido, ligando para a imprensa tentando conter as matérias.
Essa campanha eleitoral, que culminou na reeleição de Lula, mostrou que a sordidez continua presente. Da mídia geral, apenas poucas revistas mais ou menos independentes falaram sobre as armações que tendiam prejudicar Lula; o dossiê fantasma incluso. Falaram sobre ONGs que não existiam, de "mais uma" bebedeira do presidente e até de sobre um novo confisco de dinheiro. E falaram como? Essencialmente através de e-mails. Se você tem uma conta de e-mail certamente recebeu um spam com algum texto anti-Lula. Foi, no final, um bando de mauricinhos com a vida ganha brincando de eleição de Grêmio Estudantil, querendo denegrir a imagem do preferido. Não se tocaram que menos de 10% do povo brasileiro têm acesso à internet, especialmente os 45 milhões que recebem o Bolsa Família. E tampouco sabem que vivemos uma democracia real, diferente daquela dos campi da Unicamp, onde o voto do professor vale três vezes o do aluno. O seu voto, spamzeiro anti-Lula, valeu igual ao da dona Maria Cristina, de Natal (RN). Ela não tem computador - e nem sabe ler -, mas seu neto está na faculdade graças ao FIES. Ah, ok, você não sabe o que é FIES.


























