filme de terror

(Minha coluna desta semana no TodoDia)

Um filme ruim pode ser indicado e até ganhar o Oscar. Mas quando se fala em documentários laureados pelo prêmio máximo da Academia Americana é provável que você nunca se decepcione. Se encontrar um documentário que tenha sido premiado ou indicado para um Oscar pode crer que se trata de algo especial, algo que pode mudar sua vida, sua maneira de ver as coisas. Os documentários têm esse poder. É o caso de "Sob a Névoa da Guerra" (The Fog of War, Estados Unidos, 2003), que tem o subtítulo "Onze Lições da Vida de Robert. S. McNamara", levou uma estatueta, foi indicada a outra (trilha-sonora de Philip Glass) e pode ser encontrado com certa facilidade nas locadoras.

Robert S. McNamara é um desses sujeitos estranhos - e não por acaso o "S" em seu nome é justamente Strange, "estranho" em inglês - que esteve nos lugares certos nas horas certas. Ou talvez nos lugares errados nas horas certas. Ou nos lugares certos nas horas erradas. Foi um dos estudantes universitários de maior destaque em sua época, com um cérebro genial para estatísticas, números, contas, análises. Num piscar de olhos estava chefiando o Controle Estratégico da Aeronáutica Americana em plena Segunda Guerra. De seu cérebro calculista partiram orientações para o lançamento de bombas incendiárias que foram lançadas sobre mais de 60 cidades japonesas matando cerca de um milhão de pessoas. Ele fala sobre esses ataques no filme, e espanta-se que não tenha ido a júri por crime de guerra contra a Humanidade. "Não fui a júri porque vencemos a guerra", diz.

Acabada a guerra, McNamara ingressa na Ford onde alcança, em pouco mais de 10 anos, a presidência da empresa automotiva. Ele se gaba por ter salvado algumas vidas já que implementou melhorias em carros com intuito de proteger o motorista. Mas a vida do cara estava "amarrada": em 1961 é "intimado" por Robert Kennedy a ocupar o cargo de Secretário de Segurança do Governo, de onde gerencia a Guerra do Vietnã. Ele foi o grande estrategista, e desde sempre considerado o grande culpado pelo fiasco da campanha e pela grande quantidade de baixas de soldados americanos. No documentário, ele se defende dizendo que em um determinado momento pediu ao presidente que retirasse as tropas. Uma conversa gravada entre os dois corrobora a afirmação. O presidente na ocasião era Lyndon Johnson; Kennedy havia acabado de ser assassinado.

vietnam.jpg

Sempre em atividade, McNamara deixa o governo (mas não totalmente, já que...) - vai presidir o Banco Mundial. Neste cargo não irá fazer planos para o lançamento de bombas nem pensar estratégicamente sobre atear fogo em choupanas de velhos vietnamitas, mas sim como emprestar dinheiro a países massacrados por reflexos da guerra ou mesmo por quaisquer outros tipos de azares subjugando-os quase que eternamente ao Império Americano.

Falando assim, pensamos num velho pulha - mas o filme humaniza a figura, embora não pareça seu propósito. Não se sabe bem o que pensar. Talvez esse velho McNamara pudesse ser um tio nosso que traz bombons no Natal. Ou um vizinho que tem o ferromodelismo como hobbie.

No início do filme, antes dos créditos, enquanto o diretor Errol Morris prepara sua câmera, McNamara fala que pode retomar uma linha de raciocínio tempos depois, mesmo que a câmera tenha desligado. Ele é bom com isso. Em alguns momentos parece estar sendo bem verdadeiro, deixando-se manipular por Morris. Em outros momentos parece não transmitir convicção. É um ser-humano estranho, complexo. Num instante parece uma máquina fria (ele tinha o apelido de "IBM"), em outros deixa os olhos se encherem de lágrimas. Não há como mensurar quantas vidas foram apagadas porque esse homem tinha a mão no interruptor. Não fosse ele, provavelmente teria sido outro.

A direção de Morris é inventiva, com imagens históricas e recursos de edição inspirados, e o roteiro tem "A Arte da Guerra", clássico de Sun Tzu, como base. Vale a pena ver o filme e conferir também o site, um dos melhores do gênero: www.sonyclassics.com/fogofwar.

4 Comments

Porra, Bia. Fiquei comovido pacas com o teu comentário-sugestão. Tudo a ver, tudo a ver.

Muito obrigado!

Gostei da indicação. Parece que esses caras todos têm currículo semelhante. Enquanto lia cheguei a confundir com outra figura parecida: o John McCloy (também foi presidente da Fundação Ford, conselheiro militar de Kennedy e presidente do Banco Mundial.) A malvadeza que me chamou a atenção em McCloy foram os esforços que fez para inocentar e reverter a prisão de Alfried Krupp, industrial de armas e ex-ministro de guerra de Hitler condenado em Nuremberg. Devido à intervenção dele, Krupp recebeu de volta todos os seus bens, reergueu a empresa e morreu milionário (eu escrevi sobre isto.) Adoro conhecer esses personagens. Políticos vêm e vão, e eles ficam, controlando corporações, bancos ou influenciando os que mandam e desmandam. Discretos, são eles que realmente exercem poder no mundo.

vim aqui te fazer uma visita. ate mais.

podia ser pior??? kct...
to feia na foto!

ps.: Saudades de vc no msn...
bjnho

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em setembro 14, 2006 2:50 PM.

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