bom & gosto

(Minha coluna de ontem no TodoDia)

É uma verdade dura, mas os intelectuais também têm o seu senso comum. Em literatura, ninguém se atreva a falar mal de um Shakespeare. Em cinema, o melhor terá sempre que estar entre o “Cidadão Kane” e o “Encouraçado Potemkin”. Na música pop, os Beatles foram a raiz de tudo o que está aí. O problema é que intelectual não tem gosto, ele se baseia sempre num background. Quando não é assim, bate no peito e se regozija por ter descoberto algo completamente obscuro e sen-sa-cio-nal que, garante, vai ser fun-da-men-tal no futuro. Quando o intelectual gosta de algo popular, algo que a massa também gosta, sempre tem a ver com “pesquisa”, ou “os aspectos da manifestação popular”, ou porque “a gente sempre gosta de alguma coisa brega, né?”, ou ainda “não é brega, é kitsch!”.

Intelectuais acham que têm gosto refinado, mas só regurgitam uma faixa de conhecimento que pode ser chamada de hermética e que acaba dando o aval para o indíviduo bater no peito e se autodenominar “in-te-lec-tu-al”. O intelectual brasileiro tem que ter lido meia dúzia de livros fundamentais, nada além disso, e conhecer mais uma dúzia de autores estrangeiros. Intelectual cita “A Terra Devastada” de T.S. Eliott e sabe bem do que se trata sem nunca ter lido um verso sequer da longa epopéia poética. Eles sabem o que foi importante em todas as áreas do conhecimento, o que foi relevante em seu momento, o que vai ser fundamental para a história das artes no futuro e isso é muito bom.

Os intelectuais sabem o que é bom; eles têm boas referências para indicar-lhes o caminho. Mas eu pergunto se eles têm gosto. Eu, na minha franca pequenez, sei que Shakespeare foi fundamental e nem preciso do Harold Bloom para me dizer isso. Mas tenho que dizer que não gostei de “Hamlet” ou de “Romeu e Julieta”. Prefiro a imprecisão de “Rei Lear”, com seu bobo-da-corte que some como por mágica no meio do livro, numa histórica “comida de bronha” do autor. Meu gosto pende mais para isso, para histórias como a de Lear, mesmo que contenham imprecisões...

Meu professor de cinema dizia que seu filme preferido era o “Cidadão Kane” de Welles. Eu dizia que não era. Pode ser um filme bárbaro, um dos filmes mais importantes da história do cinema, mas você não pode confundir esse valor intrínseco da obra com seu gosto pessoal. O filme te tocou, falou profundamente em você? Você gosta dele por algum traço de personalidade que talvez possam ter em comum ou só se vê, como conhecedor de cinema, obrigado a dizer que gosta dele? O que te impede de dizer que o seu filme preferido seja, por exemplo, “Priscila, a Rainha do Deserto”, embora “reconheça as qualidades e a importância do ‘Encouraçado Potemkin’”?

E se você gosta de música, é um grande conhecedor, pesquisador, etc..., escute uma canção nova como se nunca tivesse ouvido nada. Você corre o risco de gostar até de obviedades. Esqueça tudo o que os Beatles fizeram, senão você não vai conseguir ouvir mais nada. E se continuar buscando revoluções estéticas em tudo, deixando o histórico influir, acaba correndo o risco de se tornar um crítico tão chato e irritante quanto o Gustavo Brigatti, editor e colunista desse caderno.

11 Comments

Eu disse outro dia em uma mesa de bar que a grande música do ano passado foi "Don't cha" das Pussycat Dolls. Quase apanhei de uma gangue de intelectuais malvados!

O problema é conseguir "escutar uma canção nova como se nunca tivesse ouvido nada."

Intelectual de c...bah, deixa pra lá

Ah, a palavra intelectual quer dizer cada vez menos.. Concordo totalmente com cada um descobrir a sua "obra prima"..
Abraço!

adorei, bia, muito bom. olha, eu faço um doutorado, mas não quero ser intelectual, não. não tenho a menor pretensão, preciso do título pra dar aula, mesmo. eu confesso, gosto de coisas bregas dos anos setenta, nunca vi o "encouraçado" ou "cidadão kane". acho que o bom mesmo é gostar das coisas de verdade e não ficar arrotando erudição. aprendi isso com a minha orientadora, uma mulher fodona, que discute coisas cabeludíssimas, mas senta numa mesa de bar e diz que se emocionou até as lágrimas com o filme tal. eu gosto disso. ar blasé pra mim é o fim...

Eu gostei muito do Encouraçado Pontemkim, até porque o vi em minha fase comunista-vermelhão (nesse aspecto, "Outubro", do mesmo Eisenstein, é até melhor).

Já o Cidadão Kane eu ainda estou querendo ver, porque a única vez que eu fui assisti-lo no cinema, eu... bem, eu dormi no meio.

Ah, e "Cidadão Kane" nem é o melhor filme do Welles. "The Magnificent Ambersons" tá umas seis jardas à frente.

E quem não é intelectual, pode gostar de Beatles? ;O) Porque eu amo Beatles mas não quero ser intelectual não.

PS: Priscila, a Rainha do Deserto é meio forte demais para o meu colesterol. Pegaste pesado.

Não me considero uma intelectual em se falando de música. Mas, não posso negar que eu conheça um bom punhado de centenas delas. E quando me falam em música não consigo me imaginar uma tabula rasa pra tentar compreender os gostos alheios ou os diferentes dos meus.
Mas, aleluia, chegou um dia que eu consegui compreender que não é só o meu que vale...
:D

Um abraço!

córregindo rsrs
onde está filmes, músicas e filmes citados, leia-se filmes, músicas e livros citados.

bjnho bia
(esse "security code" enche o saco)

Sempre te achei intelectual! e continuo achando... quanto aos filmes, músicas e filmes citados não conheço nenhum de nome. Mas posso garantir que sou feliz ;)

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em setembro 20, 2006 10:11 AM.

no "dois discos"... é a postagem anterior.

caso cel. ubiratan é a próxima postagem.

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