(Na minha coluna de ontem no TodoDia)
Li com interesse a boa matéria de Cristiani Custódio no Caderno Z de sexta-feira, onde se fala sobre os 25 anos do "Som do Verde Vale", evento que aconteceu por oito anos na praça Rotary em Americana. Como morei os primeiros 15 anos de minha vida a dois quarteirões dessa praça e acompanhei todas as edições do festival, queria comentar algumas coisas - sobre a matéria e sobre algumas declarações nela.
Primeiro, uma observação sobre a praça: ela mesma é um símbolo de transformação, um maravilhoso exemplo de integração urbanística. Naquele local, no final da década de 70, havia uma grande pedreira abandonada e sobre ela, aproveitando suas arestas e deformações, é que foi "moldada" a Praça Rotary. Tenho uma ligação afetiva inegável com o local, é claro, já que foi lá que brinquei minha infância/pré-adolescência; mas posso afirmar, tendo visitado várias praças, algumas fora do País, que a Praça Rotary é uma das mais belas e interessantes. No Brasil temos uma idéia de que praça é local para vagabundos ou obscenidades; que não se pode pisar na grama... Em outros locais não é assim; praça é lugar para descanso, lazer, namoro. Nas famosas praças argentinas as pessoas almoçam sentadas na grama, estendem toalhas e lancham, fazem a "sesta". No período em que morei próximo, a Rotary era assim: as crianças escorregavam pelas ladeiras em caixas de papelão, existiam competições de rolimã que levavam famílias inteiras até o local e havia... o Som do Verde Vale. Bandas reuniam-se para tocar de maneira descompromissada, pessoas sentadas por toda praça, um clima "woodstockiano", com carga e mensagens ecológicas.
Vejo o amigo Marcel Barbosa na matéria, dizendo que chegaram a distribuir mudas de árvores. E adiante, também na matéria, o também amigo (e ex-patrão) André Bastelli, dizendo que os tempos eram outros, que havia mais poluição e o momento político de abertura casava bem com o evento. É verdade, mas se os tempos são outros não pode ser menor a preocupação ambiental e a conscientização política. A poluição não é menor hoje, como acredita Bastelli, e estamos em tempo de eleição. E o simples "revival" do Som do Verde Vale sem essas questões na pauta corre o risco de ser somente o encontro de velhotes saudosistas, acomodados com a situação geral; yuppies surgidos onde antes haviam hippies preocupados.
A volta do Verde Vale tem que ser carregada de indignação juvenil, energia transformadora, inconformismo - ou irá parecer Joe Cocker cantando pela milionésima vez "With a little help from my friends" com voz já enfraquecida, parecendo uma cópia de si mesmo, no aniversário de Woodstock - edição que, por sinal, registrou altos indíces de violência, acabando definitivamente com o sonho americano de reviver os anos dourados de festivais ideológicos de música, paz & amor. Tem que haver alguma ideologia por trás do Som do Verde Vale, ou não irá funcionar. E precisa também do apoio do poder público, como houve nas outras edições. É um evento arriscado, mas que tem tudo para dar certo. Quem está à frente do "revival" deve contatar novos talentos da cidade, dar a outros os votos que tiveram nas edições de outrora.
Ou, mais uma vez, a cidade de Americana irá mostrar que, nos últimos tempos, a saída para amenizar a sensação de marasmo está em tão somente olhar para o passado. Lá aconteciam coisas bem interessantes por aqui.

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