Biajoni diz:
vc acha que alguém pode ter se matado depois de ter lido esse poema do pessoa?
Nelson diz:
Rapaz, com a onda avassaladora de suicídios pela Europa depois dos "Sofrimentos do Jovem Werther", do Goethe, não duvido que alguma alma mais sensível tenha também tentado tirar a vida por causa do poema do Pessoa.
Nelson diz:
Mas como a obra em questão do Goethe é um livro e a do Pessoa só um poema, talvez ele tenha gerado uma meia dúzia de tentativas de suicídio. Nego deve ter pulado no Tejo em época de estiagem. Acredito que ninguém deve ter conseguido...
Biajoni diz:
o poema é lúcido e instiga, vai dizer?
Nelson diz:
Sim, sem dúvida. Mas como eu disse, a obra do Goethe é mais densa, longa e provoca empatia com o personagem. O poema do Pessoa, a despeito de ser instigante, leva mais a pessoa a pensar em como a vida não vale nada - mas sinceramente não creio que tenha suscitado suicídios.
Biajoni diz:
é, mas não dá pra saber, né? de repente o cara leu aquilo e - pum - se matou...
Biajoni diz:
cumé que fica a responsabilidade do poeta?
Nelson diz:
Responsabilidade não é o ponto, nunca. O trabalho do artista, seja ele pintor, escritor, poeta ou o escambau, é dissertar tanto sobre passarinho, borboleta e solzinho quanto sobre o negrume da vida. Arte é provocação e metáfora. Se a pessoa for levar ao pé da letra a sugestão do poema, o problema é com a obtusidade do leitor.
Nelson diz:
Se a arte for se engessar pela "responsabilidade", pelo compromisso em não causar mal à alma coletiva, ela assina a própria sentença de morte.
Nelson diz:
Gente como Augusto dos Anjos, Camus, Virginia Woolf, Rimbaud e tantos outros melancólicos de carteirinha simplesmente deixaram ver com suas dissertações, ensaios e poemas que o lado escuro da vida era parte obrigatória da jornada, nunca um desvio que tinha que ser evitado.
Nelson diz:
Ou, como dizia o Scott Fitzgerald, "Na noite escura da alma são sempre três horas da manhã".
Biajoni diz:
esse poema tem alto impacto se lido em voz alta. é arrepiante...
Nelson diz:
Já li e reli. E cada vez gosto mais.
Nelson diz:
E - acredite - nunca pensei em bater a caçuleta por causa dele.
Fazendo uma ligação com o post sobre ter ou não ter filhos, com o qual concordei em grande parte,
acho ainda mais egoísta quem se mata, do que quem não quer ter filhos, egoísta e fraco de caráter!
Mas a discussão sobre a "responsabilidade" do artista é muito interessante, concordo plenamente com os argumentos do Nelson.
Abs
Adorei esta conversa entre vocês! Muito edificante.
O que leva alguém a se matar não deve ser a leitura de UM poema, ou a audição de UMA canção, ou seja lá qual for a forma de arte. Certamente é um conjunto de fatores, e que tem mais componetes genéticos do que estas artes podem promover.
Goethe e Pessoa causarem suicídios é triste... seria bem melhor que Paulo Coelho ou "Quem mexeu no meu queijo" conseguissem esta proeza.
Tá, tá bom, deixa eu parar com a crítica mordaz... foi só pra descontrair. :P
Bia, seu puto! Você colocou no seu template uma das cenas que eu mais gosto de um dos filmes que eu mais amo no mundo! Se tem algo que me faz pensar em ser mãe, é assistir ao Nani Moretti refletindo sobre o nascimento e o futuro do Pietro! Coisa mais linda! :-)
Beijos na família. ;-)
Não sei , mas ouvir "Creep" na versão do Damien Rice dá toda e qualquer vontade de me matar.
Um abraço!
Nossa, palmas para o Nelson. Fez todo o discurso que eu planejei assim que lí a sua pergunta, Bia, e muito mais.
E quanto à culpa do poeta... As pessoas criam e outras pessoas buscam aquilo que os outros criarame se identificam com aquilo e vivem aquilo.
Então acho que o poeta não poderia assumir culpa alguma pelo suicidio de alguém, já que não ele apenas criou, não fez o cérebro da pessoa mastigar aquilo de um jeito estranho e digerir venenosamente.
Ainda acho que escrever é como jogar o jogo que os antigos imperadores jogavam na História Sem Fim. É juntar letras que, eventualmente, formam palavras e, eventualmente, formam frases e, eventualmente, forma histórias. E, quando formam história, eles aspassam para o papel.
Não é culpa do autor caso alguém, eventualmente, as leia e decida se matar.
Concordo com o Almirante ( e com o Beto e a Cecília). Não acho que a leitura de um poema seja suficiente pra fazer alguém cometer suicídio.
Fecho com o Beto e vou além: só estoura os miolos por causa de música, livro ou filme quem não tem miolo algum.
Bia, sua filha é LINDA, LINDA, LINDA... a foto dela mamando tá maravilhosa!
Quanto ao post lá abaixo, acho que você escreveu embriagado pela paternidade, dá pra ver que depois você considerou muito bem todas as nuances da questão, dia desses escrevi exatamente sobre isso, "o direito de não ter filhos"... mas quando a gente tem a gente fica assim, embriagado, mesmo e queria que todo mundo passasse pela mesma experiência :-)
Parabéns pela menininha muito linda! e beijos pra Belle, que não fica atrás!
Concordo com o Nelson, nada de responsabilizar o autor pelo suicídio.
Aliás, acho que foi o Ozzy, seu sósia, que uma vez disse "se o cara se matou por causa de uma música, então ele merecia mesmo morrer".